OPINIÃO

Mais do que uma boa cervejaria, a Perro Libre vai fazer você repensar o que coloca no copo

08/01/2016 15:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução/Instagram/PerroLibre

Não é apenas o sabor, os ingredientes diferenciados e as receitas inovadoras que fazem a atual cena cervejeira nacional. Os conceitos propagados por essa cultura, como a máxima "beba menos, beba melhor", a tentativa de quebrar antigos paradigmas (ex. paladar feminino) e a publicidade feita de maneira inteligente são também importantes fatores para propagar e alimentar o movimento das cervejas especiais no Brasil. O caminho ainda é longo, mas estamos trilhando uma rota bem coerente.

A Perro Libre é um ótimo exemplo de cervejaria que valoriza toda essa cadeia de pensamento e ação na hora de fazer as suas cervejas. Com pouco mais de um ano no mercado, a Perro Libre é uma cervejaria cigana - não tem uma fábrica própria - e só produz cervejas vivas, ou seja, cervejas que não são pasteurizadas. Em um dos festivais de cerveja aqui na capital paulista que aconteceu no ano passado, vi que a marca tinha a maior fila de todo o espaço. Pessoalmente, acho as cervejas da Perro excelentes, mas percebi que não estava sozinha.

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Ainda em 2015, conversei com o Thiago Galbeno, um dos sócios (Lucas Sperotto e Alberto Gabeno também são sócios) para saber um pouco mais da marca e os conceitos aplicados e tentar descobrir o que a Perro Libre tinha que estava "recrutando" tantos adeptos. De imediato o Thiago me contou sobre a rePerro, um projeto que mudaria muitos conceitos na cervejaria, algo ousado a se fazer com pouco tempo de estrada. O conceito de Storysharing ao invés de Storytelling, uma cerveja especial para o Dia Internacional da Mulher que fugisse dos clichês e o mantra "cerveja sem coleira" fazem parte dessa nova fase da Perro Libre.

Abaixo está parte da conversa que tivemos. Ainda por aqui, uma dica: como uma boa bebedora do estilo IPA, não deixem de provar a India Pale Ale deles. E claro, a 803, uma Black Rye IPA com notas bem tostadas, considerada o embrião da rePerro.

Acha que é possível algumas pessoas interpretarem a nova proposta da Perro Libre (rePerro) como parte de um storytelling, algo que vocês justamente não consideram nesse momento?

As pessoas nunca ouviram falar em Storysharing, então nosso trabalho deve ser dobrado para mostrar que estamos construindo um novo ciclo, através do que vemos como esgotamento do Storytelling. Acreditamos que precisamos parar de criar histórias com o único intuito de humanizar ou brincar com um produto. Queremos compartilhar a nossa própria história, que são as pessoas envolvidas na Perro Libre, nossos valores, nosso dia a dia mesmo. Isso exige transparência total, o que gera exposição e espaço para troca. É aí que o Storysharing difere completamente do Storytelling. Simplificando ao máximo, o Storysharing é aplicar o conceito de usar o produto, como meio de divulgar as ações e valores de uma empresa.

Como foi esse processo de mudança?

Foi muito intenso, estamos construindo tudo isso desde janeiro de 2015. Fizemos basicamente uma resolução de ano novo, sabe? Nos perguntamos sobre como foi o nosso primeiro ano e o que víamos que deveria ser feito para seguirmos com os nossos objetivos. Esse processo de desconstrução de uma identidade visual e de criação é muito complexo.

Explique um pouco mais sobre a sua visão de Storysharing. Acredita que esse conceito é mais fácil de ser colocado em prática em uma cervejaria cigana? Alguma cervejaria te inspirou?

Na verdade as inspirações vieram de fora do meio cervejeiro. Sempre admirei muito empresas com culturas organizacionais fortes e é uma área que estudo muito. Ao repetidamente ler sobre o assunto e encontrar novos exemplos, acabei encontrando um padrão: As empresas com uma cultura forte e duradoura (o duradouro é muito importante), possuem como pilares de comunicação as pessoas envolvidas e os valores da marca, com o produto como um propagador dessa comunicação. O storytelling é um atalho, ele te permite criar uma conexão com um produto, mas ela sempre será rasa, porque não exige transparência. É por isso que vemos multinacionais se disfarçando em submarcas divertidas, usando esse conceito. Somos completamente contrários a isso e foi assim que nos demos conta que precisávamos mudar.

A rePerro será um restart ou um reset na marca?

A rePerro é um reload. As pessoas que já estavam aqui seguem, com mais gente entrando e colaborando com essa nova fase. Temos muito do que já construímos e aprendemos nesse primeiro ano.

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Um dos exemplos de reformulação dos rótulos da Perro Libre

Pode contar um pouco sobre o novo conceito e os novos rótulos que vem por aí? Essa mudança, no quesito produção, envolve ainda mais criatividade nas receitas?

Os rótulos foram o principal motivo do atraso (rs). Dedicamos muito tempo a construir um rótulo que estivesse na mesma página com o que queremos construir. O resultado foi fantástico. Conseguimos trocar o plástico adesivo por papel. Isso se reflete em 30% menos impacto ambiental e um aspecto visual que abre as portas para que as pessoas possam nos conhecer melhor e interagir conosco.

Uma grande mudança é a alteração dos nomes. Estão todos mais simples e diretos. A Viva la Revolución virou Session India Pale Lager, a Hoppin Hood virou American Pale Ale e a Dog Save The Queen, virou India Pale Ale. Isso vai ao encontro com o que estávamos falando do Storysharing. Agora o foco é em compartilhar os ingredientes e as técnicas usadas para criar aquela cerveja, está tudo ali.

A nova identidade visual e os nomes das cervejas seguirão a mesma linha da 803?

A 803 foi o início do processo de Storysharing. Foi nossa primeira sazonal (especial para o Dia Internacional da Mulher) e queremos seguir esse caminho. Queremos aproveitar as sazonais para compartilhar com ainda mais intensidade os nossos valores. Então a linha daqui para frente será assim: nossa linha fixa terá um nome simples e direto, buscando compartilhar as técnicas e ingredientes e a linha sazonal buscará compartilhar nossos valores diretamente, por meio de campanhas ou ações. A linha experimental terá o intuito de provocar nosso espírito sem coleira, para testarmos o que acreditamos possam se tornar grandes cervejas.

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