OPINIÃO

Contra o baixo-astral, Xuxa

28/03/2014 15:24 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

Na década de 90, Xuxa estava no auge de sua popularidade, apresentava o programa "Xuxa Park", vendia milhares de vinis, CD's e fitas K7, tinha brinquedos licenciados, roupas, eletrônicos. Tudo que tivesse associado a ela era um sucesso.

Eu, uma criança na época, seguindo a contramão disso tudo não gostava de Xuxa, nem de nada do que ela fazia. Nada a não ser "Super Xuxa Contra o Baixo Astral", filme de 1988, mas que passou na "Sessão da Tarde" durante toda a década seguinte, dirigido pela dupla Anna Penido e David Sonnenschein, que são conhecido por dirigir... Bem, "Super Xuxa Contra o Baixo Astral" e mais nenhum outro filme.

Talvez esse filme não seja tão popular quanto seu irmão mais novo "Lua de Cristal", que possui uma temática uma pouco mais adolescente e é dirigido pela excelente Tizuka Yamasaki, uma diretora com uma carreira enorme, e a maior parceira de Xuxa no cinema. Porém, para mim, "Super Xuxa (...)" é de longe muito mais interessante. Digo isso por causa do tom que o filme tem, que se destaca de qualquer outra obra áudio-visual que a Rainha dos Baixinhos tenha feito. O filme é escuro e sombrio, o vilão, uma personificação do baixo astral, dita o tom do começo ao fim. Eu, mesmo se ficasse anos sem ver o filme, se pensasse nele, lembraria da imagem de um lugar escuro e cheio de lixo.

Na trama, o vilão "Baixo Astral" se enfurece pois Xuxa está espalhando o alto astral por aí, fazendo crianças pintarem murais com arco-íris onde antes havia paredes pichadas. Para fazer a heroína ficar um pouco mais para baixo ele manda seus capangas: Morcegão e Titica sequestrarem seu cachorro, o Xuxo (não lembrava dele? Nem eu. Deve ter morrido, por isso que hoje o cachorro é o Tchutchucão). Simples assim, saudades da época em que as tramas não precisavam ser extremamente épicas ou rocambolescas.

Com o chamado para aventura feito, acompanhamos nossa heroína em uma jornada por um mundo mágico, que nunca é explicado direito, atrás de seu cão. Nesse momento percebe-se que o filme poderia se chamar "Xuxa no país das maravilhas". As referencias são algumas vezes ridiculamente fortes, como o seu encontro com a sábia lagarta Xixa (Xuxa - Xuxo - Xixa - Xexa- Xoxa). Ela chega até a aumentar de tamanho, para passar por cima de uma muralha!

Felizmente as semelhanças acabam por aí, e o que poderia ser se tornado uma cópia sem personalidade de um grande clássico, acaba sendo na verdade um grande trunfo do filme. Os personagens e diálogos são ótimos, é muito gostoso explorar esse mundo e descobrir cada um desses seres que incluem cristais falantes, árvores que adoram ler e pássaros... esquisitos. Mesmo os vilões são extremamente divertidos de se ver. Em um dos pontos altos, Titica e Morcegão querem torturar Xuxo, mas Baixo Astral só deixa depois de eles picharem a Grande Muralha da China, jogarem óleo na baía de Guanabara e jogarem fora o leite de crianças famintas (uau!). Muito mal ele, não?

Nessa rica fauna de seres, os personagens mais desinteressantes mesmo são os humanos. A protagonista Xuxa só sabe disparar frases retiradas de livros de autoajuda, e Rafa, um garoto com personalidade completamente inconsistente (ainda não entendi a utilidade dele para a trama) só serve para nos introduzir à coleção de crianças que Baixo Astral tem dentro de um quarto... (Por que você tem um quarto cheio de crianças Baixo Astral? Que coisa estranha cara! Você não sabe o que fazem com pessoas assim nos presídios?)

O enredo, apesar de ter moldes extremamente clássicos, sempre surpreende. Na cena em que Xuxa prevê o futuro pelos desenhos nos esmaltes de sua unha, ou quando Xuxo, entediado em seu cárcere resolve fazer um show de circo treinando suas próprias pulgas.

É interessante também como a trama aborda temas adultos. Morcegão, por exemplo, é uma personificação da burocracia; Titica, por sua vez é uma personificação do abuso de poder policial. No meio do filme é possível notarmos críticas políticas e, durante nossa primeira visita ao covil de Baixo Astral, vemos planos relâmpago de imagens reais de arquivos, de guerras e crianças passando fome! Certamente, isso nunca seria permitido em um filme infantil hoje em dia.

Então, se você está se sentindo nostálgico hoje, e está com vontade de ver um filme fantástico mas com um final meio... comum (é um filme da Xuxa, cara), este é o filme pra você.

Curiosidade: nos Estados Unidos, o filme saiu em cópias não autorizadas com o nome de "Super Xuxa vs. Satan", porém no lançamento oficial o nome utilizado foi "Super Xuxa vs. the Down Mood" mesmo