OPINIÃO

Brigar com o medo pode ser uma luta perdida

04/06/2015 10:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
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"O pavor dos homens é ser viado; o meu era enlouquecer."

Essa frase é do Ney Matogrosso. Ele passou dos 50 ainda no século 20, quando se esqueceu de envelhecer. Hoje, aos 73 e dizendo frases como essa com naturalidade, continua com cara de 50, corpo de 40 e alma de 20. Alguma coisa deve ter pra nos ensinar.

Certamente deve ter várias, mas vamos ficar com apenas uma: qual é o pavor dos homens. Homens ou mulheres, héteros ou gays, com receio da orientação sexual ou da Receita Federal, o fato básico é que o ser humano tem medo.

E o que fazer? Simples, basta eliminar a origem do problema. Mas o exemplo do Ney Matogrosso mostra que isso é inútil, sai um medo e entra outro. A vaga é rotativa, mal foi desocupada e já está preenchida de novo. O que fazer com os inimigos maiores do que nós, então? Amizade.

Na infância, aprende-se que ter amigos favorece a sobrevivência. É importante ter bons amigos, mas é imprescindível ter amigos ruins: são a melhor proteção contra si próprios. Juntar-se a eles é uma medida efetiva quando não se pode com eles. E não precisam ser BFF's, basta que estejam sob controle para não interferir no curso natural da vida.

Na linguagem da psicologia, amizade com o inimigo é sinônimo de aceitação: lidar com o que a vida oferece, do modo como oferece. Na linguagem do Nelson Rodrigues, é lidar com a vida como ela é. Se a vida está bem, isso é fácil; mas quando as coisas vão mal, pode ser a diferença entre ficar presa nos problemas ou seguir adiante. Diante de um problema solucionável, primeiro você aceita, depois você resolve. Diante de um problema insolúvel, primeiro você aceita, depois... Você segue em frente, pois é injusto deixar que um evento isolado bloqueie seus planos. A estagnação causa mais danos a sua vida do que qualquer pavor.

Enfim, todo mundo tem medo, seja gay ou hétero, bom da cabeça ou maluco. E brigar com o medo pode ser uma luta perdida, restando aceitar que ele existe - da mesma forma que a frustração existe, e a depressão, e a ansiedade - e tocar a vida, manter o movimento. E, assim, com mais um tanto de boa genética e boa sorte, quem sabe?, chegar aos 73 com cara de 50, corpo de 40 e alma de 20.