OPINIÃO

Precisamos falar sobre bebês (ou sobre as suas mães)

10/11/2015 14:08 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
iStock

Como parte da iniciativa #AgoraÉQueSãoElas, convidei Ana Carolina Lorena* para escrever no meu blog.

Na semana de luta pelos direito das mulheres no Brasil, acredito que devemos levar o assunto reprodução a outro nível. Quando as palavras de ordem são "Cunha sai e a pílula fica", percebemos o quanto que o domínio sobre os ciclos de reprodução é terreno de uma disputa econômica social e política ferrenha.

Por muito tempo me senti sozinha e isolada com um desejo e nenhum apoiador: postergar a maternidade. Não que eu tenha a maternidade como uma prioridade na vida, mas simplesmente ainda não me decidi se quero deixar descendentes ou não. Só sei que não quero ter filhos num curto horizonte.

Por isso, desde os 32 anos, frequento clínicas de reprodução assistida, me sentindo um ponto fora da curva nesse ambiente recheado de angústia e dor, em que a maioria dos casais busca tratar a infertilidade.

Já começa por aí: casais. Mulheres desacompanhadas figuram como ponto de referência, no que eu costumo chamar de "sala de espera da vergonha".

A minha expectativa na primeira consulta era de obter dicas de como manter a fertilidade fazer um monitoramento ao longo dos anos, sendo que ao último soar do gongo decidiria o que fazer.

A médica riu da minha cara. Sério, eu achei que me entenderiam, já que se tratava de uma clinica especializada, mas não.

Pareceu estapafúrdia a ideia da guria que, apesar de ter um relacionamento estável, não queria ser mãe "mesmo depois dos 30".

Respondi que a minha vida não era a corrida dos ratos, e que um filho não era como latas de ervilhas que se compram na promoção pra consumir depois.

Com cara de poucos amigos, a doutora disparou logo: Tá, então congela!.

Aquela frase atingiu a camada mais profunda da minha derme, e em segundos, o peso de todos os "eu quero um netinho" me foi retirado dos ombros.

Ufa, escolha é poder, eu estava aliviada de poder escolher mais tarde.

Apesar de ainda não ter concluído meu tratamento por questões financeiras ou de tempo, a experiência descortinou o preconceito despejado sobre quem quer simplesmente ter o direito de decidir.

Quando comentava com amigos ou colegas de trabalho sobre o tratamento que estava fazendo, a orientação era sempre a mesma: Não se exponha!

Como se eu tivesse que ter vergonha em não ouvir o tic-tac do meu relógio biológico.

A negação da maternidade e a exacerbada romantização da gravidez continuam tabus.

Durante as idas ao médico, percebi que a pressão sobre a mulher infértil é tanta que as frequentadoras da clínica pareciam se mover de maneira mais sorrateira, se escondendo atrás do companheiro.

Num ambiente que poderia ter ares de salão de beleza com mulheres trocando dicas e experiências e tomando decisões, parecia não haver sororidade alguma. Muito pelo contrario, o clima predatório era evidente.

As atendentes e enfermeiras corriam boatos sobre quem tem mais ou menos gametas disponíveis:

"Você é branquinha e tem tanto óvulo que poderia ser doadora", me confidenciou uma delas.

"Essa é a mulher que decidiu por uma produção independente, não dava mais tempo e ela não tem marido", aponta a outra.

Posso dizer que não foi a carga absurda de hormônios usados no processo, os vários exames invasivos semanais ou a pequena cirurgia para a coleta dos gametas que mais me intimidaram, mas a alienação coletiva acerca de todo o processo.

Simplesmente não acreditei quando na farmácia fui obrigada a apresentar uma declaração da médica relatando que eu não era lésbica e que pretendia assumir os custos financeiros e os riscos do tratamento, só porque fui comprar os remédios sem o "marido".

A representante me explicou que o desconto lá do programa de reprodução assistida era apenas para o casal.

Fiquei pensando: mas não bastava a minha declaração? Eu estava lá, o cartão de crédito estava lá, a receita médica estava lá... Os hormônios eram pra mim! Do que mais era preciso?

Foi aí que me caiu a ficha: eu era a coadjuvante nesse processo sobre o meu corpo!

Percebi que para quase todo mundo, quem mandava era o companheiro, a médica, o laboratório, a sociedade e o Estado. Entre mim e os meios para a conclusão da minha vontade, estava uma miríade de procedimentos que me colocavam como cidadã de segunda classe.

Por essa lógica, para boa parte da sociedade não parece ser tão absurda a possibilidade de que daqui pra frente a mulher tenha que pedir pro delegado uma "declaração de estupro" para conseguir medicamento profilático, ou um aborto legal como sugere o PL 5069 de autoria do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Muitas mulheres agora temem precisar do beneplácito de um médico para comprar um contraceptivo de emergência.

Nessa seara, aprendi que escolha é poder, e por isso cada vez mais mulheres querem ter o poder de escolher quando, onde, com quem e como gostariam de receber a maternidade, ou mesmo num debate mais ousado, simplesmente poder admitir: não quero ser mãe.

Prolongar a vida fértil garante um empoderamento importante para poder batalhar outras frontes em que a mulher também é tida como o segundo sexo: carreira, sexualidade, artes e ciências, todos eles com consequências econômicas, sociais e ambientais profundas.

Por isso, qualquer medida ligada ao tema da autonomia feminina sobre seu sistema reprodutor será colocada como uma barreira tão difícil de transpor.

*#agoraequesaoelas Ana Carolina Lorena é mulher, profissional, agente econômico, ativista, mas menos cidadã que um homem.

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