OPINIÃO

Sobre o fim do "Impedimento" e o ecossistema do jornalismo

31/07/2014 10:46 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Reprodução

Mês passado fiz um comentário breve no Facebook sobre boas novas pro jornalismo brasileiro a partir de um cenário otimista de expansão de iniciativas "independentes" dos grandes grupos de mídia (Globo, Folha, Estadão, RBS, etc). O textinho foi motivado pelo surgimento de "A Ponte", um site de jornalismo de investigação focado em temas como direitos humanos, segurança pública e justiça, temas tão importantes quanto mal noticiados ultimamente.

O comentário também falava de como a crise do modelo industrial de informação poderia gerar uma "Idade de Ouro" no jornalismo, como acredita, por exemplo, o Bruno Torturra, ex-editor da "Trip", um dos idealizadores da "Mídia Ninja" e ele mesmo, hoje, tocando um projeto independente de jornalismo, o estúdio "Fluxo".

Na semana passada, uma notícia quis que eu desviasse o tom otimista do comentário, não o assunto. A notícia é esta, publicada em 22 de julho de 2014: "O braço fraqueja às vezes: o Impedimento acabou". É um título auto-explicativo, que põe fim a uma das iniciativas mais interessantes de jornalismo esportivo brasileiro, 9 anos de muita criatividade, chiste, futebol e cultura sul-americana. Como não sentir o golpe no tom otimista, de cenário promissor, de explosão do jornalismo - da mídia de massas à massa de mídias, como diz o jornalista e professor francês Ignácio Ramonet em seu último livro - se uma dessas iniciativas que exemplificava esta possibilidade de Idade do Ouro acaba de se ir?

Pra quem não conhece o Impedimento, ainda há tempo: apesar do anúncio do fim, eles vão continuar com o site, mais como arquivo do que com atualizações, e com comentários esparsos nas redes sociais (Twitter e Facebook). É (era) um tipo de jornalismo feito fora dos esquemas industriais das grandes redações, em que a objetividade requerida pela produção industrial de notícias tira o sentimento do jornalista - ou o coloca em um espaço cercado, as colunas, onde a subjetividade pode até reinar, mas não raro em esquema talhado para polemizar e norteado para ganhar leitores (ou ambos). O Impedimento sabia como poucos misturar informação, opinião, análise e ironia, no mesmo espaço nobre de uma reportagem, e fazia com a competência e a graça que talvez só seja possível nesse tipo de jornalismo pós-industrial, mais solto, menos refém da pressão do imediato, do "tem que dar antes" a qualquer custo.

No caso do Impedimento, o diferencial também era se ater ao detalhe, aquela história "pequena" que escapa do jornalismo esportivo tradicional porque este está quase sempre mirando para as grandes causas e personagens. Detalhes que poderiam ser "causos", como esta entrevista com o figura Perdigão, campeão mundial com o Inter em 2006; desmentidos, como este de que Obdulio Varela - capitão uruguaio da copa de 1950 - era brasileiro, tema que, aliás, seria noticiado dias depois pela imprensa tradicional; análises sinceras e efetivas sobre futebol, como este texto sobre o 7x1 tomado pelo Brasil na última copa; entre outros muitos belos momentos, tantos quanto eu quiser inventar para usar como desculpa encher de links para textos do Impedimento aqui. Isso pra não falar das coberturas dos jogos via Twitter, em que as postagens feitas no calor da hora substituem, em conhecimento e diversão, qualquer comentarista de televisão (talvez PVC e Calçade, da ESPN, se equiparem) - estas, felizmente vão continuar mesmo com o fim do site, marcado para o final da Libertadores deste ano.

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Muito do tipo de jornalismo feito no Impedimento só acontecia devido a natureza do site, que apesar da boa audiência, não sustentava exclusivamente nenhum dos jornalistas que o editavam. Sem os compromissos de audiência com anunciantes fica mais fácil fazer diferente, é a conclusão óbvia de se tirar, o que me remete a questão: a pluralidade de canais de informação que temos hoje. Notoriamente, é um ganho incalculável ter diversas opções para se informar, ainda mais se comparado com menos de 20 anos atrás, quando o que dava no Jornal Nacional era "verdade" inquestionável. Quanto mais veículos, mais autonomia pra cada um na hora de buscar e fazer a sua seleção rotineira de informação, certo?

Mas e como fazer com que estas iniciativas perdurem e possam, de fato, disputar a audiência de grande parte das pessoas que se informa pelas mídias tradicionais? O jornalismo moderno é fruto do alvorecer capitalista do século XVIII, e seus financiadores foram, principalmente, os partidos, naquela época (até meados do XIX) em que o jornalismo era em suma opinativo e ligado a política; e a publicidade, notadamente do final século XIX e todo o século XX, em que a objetividade serviu como garantia de uma suposta neutralidade necessária para aumentar - e depois manter - o esquema industrial de produção de notícias.

Hoje sabemos que o mundo é outro, que a publicidade por si só não paga o jornalismo na internet, e que, principalmente, o jornalista não está mais sozinho na produção de informação como em outros tempos. Muitas pessoas com o mínimo de acesso a internet podem cometer "atos de jornalismo" ao noticiar para milhares de pessoas em uma rede social, por exemplo, que um acidente de carro ocorreu em frente a sua casa. Neste cenário, como "premiar", que seja com a continuidade, as melhores iniciativas de pessoas que trazem informações importantes para a nossa vida cotidiana? Como sustentar e qualificar uma quantidade grande de produtores de informação para bancar uma "dieta saudável" de informação, não dependente apenas de notícias "industrializadas" e, não rara, carregadas de quantidades tóxicas de interesses disfarçados? Como promover a continuidade de um jornalismo que seja um pouco mais transparente em seus interesses, um pingo mais sincero em sua forma de comunicar e que consiga, ainda assim, ter condições de ir atrás de histórias interessantes e importantes para a nossa vivência diária?

Talvez o comparativo com a produção da agricultura orgânica e/ou familiar possa servir para apontar um possível caminho para o aumento do "ecossistema": pequenos produtores, menos (ou zero) fertilizantes, produção e consumo local, ecologicamente sustentável, menos intermediários, mais sinceridade no trato e menos cinismo. Talvez caminhar no fortalecimento dessa via seja uma boa coisa para a saúde desse ecossistema. Ou nos resta assumirmos que essas iniciativas que vem e vão são - nesse enquanto que o jornalismo tateia reinvenções - efêmeras, rotativas, e transformadoras dessa forma, no processo, no "foi bom enquanto durou", como é (foi) o caso do Impedimento.

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