OPINIÃO

O mundo dos homens

13/05/2014 09:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Estadão Conteúdo

Há um ano, sentava diante do computador para escrever sobre as fanpages anti-homofobia e anti-sexismo no futebol e sobre as mais diversas reações dos amantes do esporte quanto à criação destas. Do apoio a repulsa, da aprovação à reprovação, saltou aos olhos o preconceito e suas mais diversas "modalidades".

Quando resolvi divulgar o trabalho, não consegui enumerar quantos narizes se torceram a mim e ao tema. A preocupação maior dos torcedores era sobre que pensariam os rivais e não o intuito do movimento. Eu, mulher e jornalista, vivi o preconceito por não fazer distinção de pauta. Os clubes, quando procurados para falar, preferiram não se pronunciar ou somente se posicionaram como contra qualquer forma de preconceito.

Na matéria de maio de 2013, os criadores das fanpages reforçavam que o desejo com a criação das páginas não se limitava aos movimentos anti-homofobia, mas também ao anti-sexismo, era uma causa contra a exclusão no meio futebolístico por qualquer que fosse o motivo. No futebol esporte do povo, espaço para todos, independendo de orientação sexual ou gênero.

O impacto da presença da bandeirinha Fernanda Colombo, nos últimos dias pelos campos de futebol do Brasil, mais precisamente na sua atuação no clássico entre Atlético x Cruzeiro, foi destaque nas redes sociais e meios de comunicação.

Após cometer um erro, a auxiliar aspirante da Fifa foi lembrada em um comentário de um dirigente de futebol. O dirigente que creditou o erro à beleza de Fernanda, em fevereiro, chamou de retrocesso e covardia a atitude dos torcedores do Real Garcilaso contra o jogador Tinga, em um jogo da Copa Libertadores da América.

Nas redes sociais, muitos homens se manifestaram contra a atitude do dirigente de futebol, mesmo sem deixar de pontuar os atributos físicos da catarinense. Impossível não se lembrar de Ana Paula Oliveira, que ao final da década de 90 também chamou atenção em muitos estádios não por seu profissionalismo e conhecimento, mas por sua beleza, e que após aceitar o convite para posar nua viu seu futuro na arbitragem ser comprometido.

O escritor francês Poulain De La Barre, no século 17, escreveu que "tudo que os homens escreverem sobre as mulheres deve ser suspeito" por serem os homens parte e suspeitos ao se referirem as mulheres. Será que se pode cobrar excelência profissional quando o destaque na matéria sobre o profissional é a pose indiscreta em que foi clicada trabalhando?

Seria a indignação com o preconceito no mundo e principalmente no meio esportivo cerceada à cor somente? É atribuída a mulher a culpa por ser molestada. Usam contra os rivais, características femininas para os diminuírem. Enchemos nossas páginas de protestos sobre a violência e preconceito, mas velamos o mesmo preconceito quando é contra a mulher, com elogios à beleza feminina.

Esse preconceito que acontece em diversos cantos do mundo, por diferentes motivos, que dói em nossa consciência quando vira manchete, mas que permite o uso de pejorativos femininos e piadas machistas, nos posiciona como quem violenta e acoberta. Violentamos nossas filhas, mães e irmãs e somos violentadas muitas vezes com condescendência.

Na década de 40, já afirmava Simone de Beauvoir, "no momento em que as mulheres começam a tomar parte na elaboração do mundo, esse mundo é ainda um mundo que pertence aos homens. Eles bem o sabem, elas mal duvidam".