OPINIÃO

Estupro: a história que não queremos contar

06/06/2016 16:42 BRT | Atualizado 06/06/2016 16:42 BRT
Anadolu Agency via Getty Images
SAO PAULO, BRAZIL - JUNE 01: Thousands of women holding banners and shouting slogans, attend demonstration against the government of interim president of Brazil, Michel Temer in the Paulista Avenue in Sao Paulo, Brazil on June 01, 2016. The demonstrators also protested against the new minister named Fatima Pelaes (PMDB-AP) that is against abortion, including in cases of rape. (Photo by Dario Oliveira/Anadolu Agency/Getty Images)

Que a história é permeada pela barbárie e pelo ódio todos nós sabemos; o que parece pouco explorado, até agora, é que essas questões tenham se manifestado, em muitos momentos, por meio da violência sexual praticada por um homem e contra uma mulher. Sexo sem consentimento por definição, o estupro assume papéis complexos nas teias da realidade: vivemos em uma sociedade cujas relações foram construídas sobre as estruturas de uma cultura que naturaliza e perpetua a violação do corpo feminino.

A mitologia clássica está repleta de estupros, muitas vezes praticados por um deus licencioso. Assim, Zeus estuprou Europa e Leda; Dionisio, Aura; Posêidon, Etra; Apolo, Evadne. É digno de nota que todos esses estupros tenham resultado em filhos, que, em vez de personificarem a vergonha, eram semideuses (Longe da Árvore, Andrew Solomon, pág. 556).

Ainda que a mulher não tenha ocupado a mesma posição histórica que o homem frente às grandes guerras, às guerras civis e aos conflitos no geral que abraçaram a humanidade no decorrer dos tempos - ele era protagonista por encabeçar a guerra ou por lutar em nome dela; ela cuidava, esperava, rezava pela sua volta -, a presença da mulher é notável, mesmo camuflada, em todos esses episódios. Ela foi usada como moeda de troca, pausa para o lazer, válvula de escape, forma de chantagem e de vingança.

Quando Eliane Brum refez, 70 anos depois, os 25 mil quilômetros percorridos pela Coluna Prestes, trouxe uma nova narrativa sobre o evento, em muito diferente da hegemônica que o revestiu de caráter heroico: contou a história do "povo do caminho", a população que vivia nos povoados e cidades pelos quais os homens da Coluna passaram, dentre elas, histórias de mulheres que foram estupradas pela tropa nesse percurso.

"Eu comecei a escutar histórias que eram muito diferentes das que eram contadas: histórias de estupro, de saque, de assassinatos, de tortura", contou a jornalista em entrevista a Antônio Abujamra no programa Provocações.

Na mesma entrevista, ela fala sobre um agricultor que ingressou na Coluna para encontrar e matar o homem que havia estuprado sua esposa. Sobre isso, é digno de nota: "historicamente, o estupro é visto menos como a violação de uma mulher do que como um roubo praticado contra o marido, ou pai, a quem essa mulher pertencia" (Longe da Árvore, Andrew Solomon, pág. 556).

A nova perspectiva trazida por Eliane Brum irritou grande parte dos setores da esquerda no Brasil: a narrativa em torno da Coluna Prestes, até então, era a de um movimento puro que exigia reformas políticas e sociais, que denunciava a pobreza e a exploração dos mais pobres. A possibilidade de tamanha hipocrisia trazida por Coluna Prestes: o avesso da lenda foi demais para que alguns revolucionários suportassem: a acusação, então, era de que a autora estava "a serviço da direita". Em documentário sobre a trajetória de seu pai, Luíz Carlos Prestes Filho justificou: "Um comandante que está comandando uma Coluna de 1.500 homens não pode ser responsável pelo comportamento de todos".

Dentre todos os exemplos passíveis de serem citados, a escolha da narrativa de Eliane Brum sobre a Coluna Prestes se dá pela quebra de paradigma. Com o estupro de uma menina de 16 anos por 30 homens no Rio de Janeiro, o debate sobre o tema volta à tona. A discussão, como qualquer outra no Brasil, logo se volta a uma rixa empobrecedora entre "direita" e "esquerda"; como se o combate ao estupro fosse pauta de um dos dois segmentos e não uma questão urgente que permeia nossa sociedade como um todo.

Os mais conservadores se apressam em clamar por políticas punitivas mais rígidas, por castração química para estupradores. Além de, é claro, jogarem a conta do estupro coletivo para a pobreza, já que a vítima frequenta bailes funks, é pobre e o crime aconteceu em uma favela. Os rapazes que se julgam mais libertários também se apressam: "não é todo homem...", "eu nunca...", "mas eu não...".

Do lado direito ou do lado esquerdo, quando o assunto explodiu só foram vistos homens querendo se distanciar de um sistema pelo qual há muito são beneficiados. Cada lado, dentro de suas limitações ideológicas, achou sua maneira para fazê-lo e o fez muito bem.

Quando esbravejam o discurso da castração química, estão tentando tornar este um problema médico, pontual, individual; quando culpam o ambiente em que o crime aconteceu, estão novamente relativizando a questão - aos que falam da pobreza, gosto sempre de propor uma pesquisa sobre os estupros que ocorrem com frequência na Faculdade de Medicina da USP -; quando se colocam como "diferentes", estão negligenciando ou pessoalizando o problema de gênero que perpassa todo nosso espectro de posicionamentos políticos e, por isso, todos os nossos indivíduos.

Em todos os discursos, reina o despreparo para aceitar: há séculos genitálias vem sendo usadas como armas em detrimento de suas funções biológicas, há séculos a ciência, a igreja e a política legitimam e incentivam esse uso - e há séculos não faz diferença alguma se essas genitálias pertencem a pretos, a brancos, a pobres, a ricos, a revolucionários ou a conservadores; se essas genitálias pertencem a funkeiros ou a eruditos, a deuses, semideuses ou a humanos.

O primeiro passo, como naqueles esquemas de reabilitação, é a aceitação. Mas não o tipo de aceitação que paralisa, que justifica, que nos coloca à mercê de algo que nos antecede. A aceitação da existência da cultura do estupro precisa vir como vontade de mudança, de luta e de transcendência (e olha que bonito: acabo de ler que transcender significa "superar algo por lhe ser superior").

LEIA MAIS:

- O simbolismo da primeira mulher a presidir o Brasil

- Fernanda Torres, fale por você

Também no HuffPost Brasil:

Por que o feminismo é importante