OPINIÃO

A teoria não deve ser temida pelas mulheres, mas dominada

Nós, mulheres, "compartilhamos um compromisso com a linguagem e o seu poder".

20/02/2017 15:44 -03 | Atualizado 11/03/2017 12:52 -03
Robert Alexander via Getty Images
A feminista Audre Lorde em 1983

Em tempos de ascensão de termos como "vivência" e "lugar de fala", a discussão acerca da relevância da teoria está sempre à mercê de uma suposta polarização entre teoria e prática. É comum, então, escutarmos por aí que a prática é mais importante do que a teoria ou que entre elas há um abismo. Não é difícil imaginar que essa ideia, que permeia inclusive meios universitários e movimentos sociais, esteja ligada à própria cultura acadêmica que, historicamente, sempre reiterou sua posição como um lugar de elevação frente às culturas populares e ao próprio senso comum. Não é difícil pensar, além disso, que esse abismo que imagina-se existir entre a teoria e a prática também provém de uma ciência que, no auge de seu iluminismo, não leva em consideração o que há de banal ou de complexo na vida cotidiana e está mais preocupada em trazer dados prontos do que questões em aberto.

Ainda que com a consciência de todas as problemáticas que envolvem a ciência, me deixa perplexa a forma como cada vez mais parecemos achar que a solução a elas é desprezar a teoria, e não ressignificá-la em nossas próprias vidas. No livro "Ensinando a transgredir: A educação como prática de liberdade", bell hooks fala sobre a teoria como um lugar de cura. "Vivendo na infância sem ter a sensação de um lar, encontrei um refúgio na "teorização", em entender o que estava acontecendo. Encontrei um lugar onde eu podia imaginar futuros possíveis, um lugar onde a vida podia ser diferente. Essa experiência "vivida" de pensamento crítico, de reflexão e análise se tornou um lugar onde eu trabalhava para explicar a mágoa e fazê-la ir embora". Mais do que isso, bell hooks escreve que "quando nossa experiência vivida da teorização está fundamentalmente ligada a processos de autorrecuperação, de libertação coletiva, não existe brecha entre a teoria e a prática", apontando para um processo recíproco em que uma capacita a outra.

Esta é, sem dúvidas, também uma razão a ser levada em consideração na investigação sobre os receios que temos em relação à teoria, assim como a questão racial e econômica.

Às mulheres é especialmente tocante a questão da academia como um espaço excludente. No ensaio Um teto todo seu, Virgínia Woolf narra um passeio no Museu Britânico cujo o objetivo é a busca pela verdade. "Se a verdade não for encontrada nas estantes do museu, onde, perguntei-me, apanhando um caderno e um lápis, está a verdade?", a escritora se pergunta com certa ironia, sugerindo não uma versão fácil de uma verdade presente fora dos museus, mas se colocando, quando cita o caderno e o lápis, como produtora de conhecimento em potencial.

"Vocês têm noção de quantos livros sobre mulheres são escritos no decorrer de um ano? Vocês têm noção de quantos são escritos por homens? Têm ciência de que vocês são talvez o animal mais debatido do universo? (...) O sexo e sua natureza podem muito bem atrair médicos e biólogos, mas o que era surpreendente e difícil de explicar era o fato de o sexo – ou seja, as mulheres – atrair também ensaístas agradáveis, romancistas ligeiros, jovens rapazes com título de mestre; homens sem título nenhum; homens sem qualquer qualificação aparente exceto a de não serem mulheres".

Quando se trata sobre a produção científica e literária acerca do sexo feminino, como ilustra Virginia Woolf, ela é majoritariamente feita e regulamentada por homens – mesmo hoje, quando este cenário começa a mudar. Esta é, sem dúvidas, também uma razão a ser levada em consideração na investigação sobre os receios que temos em relação à teoria, assim como a questão racial e econômica. Apesar disso, é entristecedor que estas estejam sendo colocadas mais como razões para ignorar a ciência em um discurso raso sobre a sua irrelevância perante a vida cotidiana do que como motivos para ocupá-la, para revolucioná-la.

Nós, mulheres, "compartilhamos um compromisso com a linguagem e o seu poder"

São infindáveis a beleza e a simplicidade da teoria como define bell hooks, como a possibilidade de entender o que está acontecendo. E isso não significa acatar o que já foi dito sobre nós, isso significa escolher qual teorização cabe em nossas vidas e qual não cabe, isso significa sermos nós mesmas as teóricas de nossas próprias histórias. Já foram tantas as narrativas tiradas de nós, não abdiquemos desta. Como nos diz Audre Lorde sobre a transformação do silêncio em linguagem e ação, nós, mulheres, "compartilhamos um compromisso com a linguagem e o seu poder, e também com a recuperação dela que foi usada por tanto tempo contra nós".

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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