OPINIÃO

Seu filho tem amigos? Se você não atrapalhar, já ajuda

13/02/2014 11:31 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

A notícia da mãe de Kalamazoo, em Michigan (EUA), que abriu uma página no Facebook para convencer as pessoas de que o filho, Colin, de 10 anos, é um cara legal e merece ter amigos que aceitem vir a sua festa de aniversário, me fez pensar.

colin

A mãe, Jennifer, queria fazer uma festa para comemorar o 11º aniversário do garoto, mas ele não quis: "Não tenho amigos para convidar", disse. Não sei detalhes sobre a vida de Colin, ele parece ser um menino bacana que, segundo se noticiou, tem um transtorno sensorial que torna o processo de socialização mais delicado. E, com certeza, a mãe está com a melhor das intenções. Mas a história me colocou a refletir sobre algumas questões que são comuns a todas as crianças.

Amizades são relacionamentos que a gente escolhe na vida -- e pelos quais somos escolhidos. É uma conquista que se faz fora do círculo familiar imediato. Sim, você pode (ou não) ser amigo de seu irmão, ter uma relação amigável com mãe e pai, os tios ou os avós. Mas eles são família, aquele núcleo no qual, em tese, você é aceito faça o que fizer.

Dia desses, em meio a uma pesquisa de trabalho, deparei com um capítulo sobre o tema no clássico "Meu Filho, Meu Tesouro" (ed. Record), do dr. Spock. Não, não é o personagem de "Jornada nas Estrelas" ("esse é o Sr. Spock, mãe...", diria minha filha). O dr. Benjamin Spock é um renomado pediatra norte-americano cujo livro já vendeu mais de 30 milhões de exemplares. Esse Spock foi considerado um dos responsáveis pelos levantes estudantis de maio de 68, por causa de suas teses liberais de educação, que teriam ajudado a criar uma geração rebelde. No livro, ele dedica um espaço para ensinar os pais a "ajudar a criança a ser sociável e querida".

Resolvi dar uma olhada. E percebi que não estava ajudando nada. Spock sentencia:

A felicidade do indivíduo na idade adulta depende, em grande parte, do modo como foi educado, em relação às outras crianças, quando era pequeno. Se os pais dão ótimo exemplo e demonstram ideais elevados, estes formarão seu caráter e se manifestarão. Mas se os pais não se sentem satisfeitos com a vizinhança e com as companhias do filho, se lhe dão a ideia de que é diferente das outras crianças e o desencorajam de fazer amizades, é possível que tudo isso se reflita em seu crescimento, e que ele seja, mais tarde, incapaz de fazer parte de qualquer grupo ou de levar uma vida feliz. Então, seus altos padrões de nada servirão, ao mundo ou a si próprio.

Soco no estômago.

Não gosto de sentenças tão definitivas. Afinal, enquanto há vida, há esperança (violinos). Mas admito que já me peguei dizendo à minha filha mais velha que é normal não ter amigos, que é difícil quando se é tão diferente etc. A intenção era botá-la no colo e reafirmar: aqui você é aceita. Ninguém, como a mãe do Facebook, gosta de ver o filho excluído, sofrendo. Nossa reação natural é ficarmos tristes ou bravas: como o mundo não enxerga que nosso filho é legal? Mas, voltando ao princípio, o mundo é um território diferente do familiar.

Pensava eu em todas essas coisas quando, ao chegar em casa, minha filha mais nova, de 5 anos, me presenteou com um desenho. E lá estava Rapunzel em sua torre. Na hora me lembrei de outro livro que adoro, "Fadas no Divã" (ed. Artmed), do casal de psicanalistas Diana e Mário Corso. Não nos iludamos: as bruxas dos contos de fada somos nós mesmas, mães. Ou, ao menos, facetas nossas, o lado negro da força. A feiticeira que tranca Rapunzel na torre nada mais é do que a mãe que quer a filha só para si, que não suporta vê-la crescer e tornar-se autônoma, cheia de outros interesses, com olhos só para o príncipe... Para o casal Corso, a bruxa é a mãe possessiva, que vê crescimento como abandono. "O pecado dessa personagem não é o de ser mais sedutora que a mãe, mas o de incluir alguém mais, o príncipe, numa relação que deveria ser completa, em que mãe e filha se bastassem."

rapunzel

Ilustração de "Rapunzel - Um Conto de Fadas Fabuloso"

Ontem mesmo resolvi (re)ler "Rapunzel" para a caçula e encontrei na estante uma edição que transpõe o conto tradicional para a época do maio rebelde: "Rapunzel - Um Conto de Fadas Fabuloso" (ed. Zastras). As ilustrações de David Roberts são um show à parte. Em uma delas, Rapunzel ouve um LP de David Bowie, único contato da garota com o mundo externo. É de Bowie a faixa "Space Oddity", que a compôs após ver "2001: Uma Odisseia no Espaço", de Stanley Kubrick, filme que entrou em cartaz exatamente em 1968, um ano antes de o homem pisar na lua. Um pedaço da letra: "Now it's time to leave the capsule if you dare/This is Major Tom to Ground Control/I'm stepping through the door/And I'm floating in a most peculiar way/And the stars look very different today/For here/Am I sitting in a tin can/Far above the world/Planet Earth is blue/And there's nothing I can do". Ou seja: "É hora de deixar a cápsula, se você tiver coragem/Aqui é o major Tom para a base/Estou atravessando a porta/E flutuando da maneira mais peculiar/E as estrelas estão muito diferentes hoje/E eu estou sentado em uma lata/Longe do mundo/A Terra é azul/ E não há nada que eu possa fazer".

De volta à Terra, major Tom. Minha filha mais velha chama-se Anna Carolina. Em casa, Carol. Na escola, Anna. Recentemente, apaixonou-se por animes e mangás, um universo que praticamente desconheço. Um universo que é dela, cujos códigos não domino. Neste ano, na escola, pela primeira vez em muito tempo, se disse contente com a classe e os amigos. Uma das amigas de quem ela mais fala também sabe tudo de quadrinhos e animações japonesas. Realmente, Carol, aliás, Anna, é uma criança (nem tão criança) diferente. Diferente da mãe e do pai, dos avós, ainda que parecida. Para achar seu espaço, teve de falar uma língua que não entendemos. Arigatô. É uma das três ou quatro palavras que sei em japonês. Anna já aprendeu mais de 60. Conversamos sobre matriculá-la no curso de japonês. Ela ficou de pensar no assunto, para ver se quer. Banzai, Rapunzel.

E que Colin se divirta na festa de aniversário, marcada para 9 de março. Como eu, a mãe dele quer o melhor para o filho.

PS musical:

"Though I'm past 100,000 miles

I'm feeling very still

And I think my spaceship knows which way to go"

Embora eu já tenha ultrapassado 100 mil milhas

Me sinto bem parado

E acredito que minha espaçonave sabe que direção tomar