OPINIÃO

Princesas para uma nova era

12/02/2014 09:24 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Ao descobrir que o novo filme da Disney era uma história sobre irmãs, não perdi tempo em ir assistir com a minha, que é 11 anos mais nova -- e, portanto, uma ótima desculpa para ir assistir um desenho animado em um sábado à tarde. Esperando só uma nostalgiazinha dos filmes da minha infância, e após uma certa decepção com a história de "Valente", fui sem grandes expectativas. Afinal, era só mais um filme de princesa.

Minha surpresa não poderia ter sido maior. "Frozen" é um marco no segmento filmes de princesa. Não porque seus personagens sejam particularmente originais ou porque seja uma história subversiva, mas é o primeiro filme auto-irônico da Disney, em que o tema de mais de 70 anos de filmes de princesa é questionado.

As adaptações da Disney sempre subtraem, adicionam e alteraram tanto os contos de fada originais que podemos deixar de lado um pouco as mensagens simbólicas e o inconsciente coletivo que carregam essas histórias através dos séculos. Vamos falar das imagens mais claras que esses filmes vêm transmitindo, principalmente nas relações homem/mulher, ou príncipe/princesa. E vamos definir "Princesa da Disney" como aquelas que vão aparecer nas mochilas de menininhas antes mesmo que elas aprendam a falar.

Lembro-me da primeira vez que tomei consciência de que talvez esses filmes não passassem as melhores mensagens do mundo: estava assistindo "Cinderela" com a minha irmã, então um toco de gente, e ela me solta: "Yayá, eu quero um 'píncipe' desses pra mim". Por que uma menininha de fraldas deveria querer um príncipe? Um príncipe que nem nome tem. Mas, apesar de não ter nome ou, por sinal, personalidade, esse até que não era dos piores. Pelo menos ele havia dançado e (supostamente) conversado com a Cinderela durante o baile. Eu havia crescido com princesas que, no melhor dos casos, abandonavam seu mundo, sua origem e até sua voz por um cara que conheceram durante 30 segundos e, no pior dos casos, beiravam necrofilia e síndrome de Estocolmo.

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Não que a Disney não tenha feito progresso desde 1937: Jasmin não quer ser objetificada, Pocahontas nunca deixa de ser quem é, Tiana tem seu sonho empreendedor, Rapunzel toma as rédeas da própria vida, e ninguém chega aos pés de Mulan em níveis de girl power. Mas no final, todas encontram seu "amor verdadeiro", seu príncipe.

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Com "Valente", a Disney deu uma chacoalhada nos conceitos, mas o júri ainda está decidindo quem, afinal, era a protagonista daquela história. Em "Frozen", a luz no fim desse túnel brilha mais forte. A protagonista começa seguindo a linha clássica de se apaixonar pelo primeiro homem bonito que vê. Mas então o filme dá uma reviravolta e tira sarro da própria situação. Casar com alguém que acabou de conhecer? Beijo de amor verdadeiro? Príncipes?

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Esse é o primeiro filme de princesa da Disney a mostrar que amor verdadeiro não necessariamente é entre homem e mulher, e que você não precisa deixar de ser o que é para ter o que quer.

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Será que viverei para ver princesas lésbicas? Ainda tem muito chão para a Disney alcançar um conteúdo realmente moderno (se é que se pode esperar isso), mas por enquanto, fico feliz por ter ido ver um filme de princesa com a minha irmã com uma mensagem mais profunda do que Cinderela.