OPINIÃO

Luz dos Olhos Meus: Destaque da 2ª Mostra Diversa em SP

Obra está retratada na exposição 'Luz dos Olhos Meus', destaque da 2ª Mostra Diversa em São Paulo.

23/06/2017 14:29 -03 | Atualizado 23/06/2017 14:29 -03
Imagem de divulgação na página do artista.
O artista Victor Grizzo é o destaque da mostra com sua obra infantil.

No dia 13 junho, estreou a 2ª Mostra Diversa no Museu da Diversidade Sexual, em São Paulo. Seu objetivo é apresentar um panorama contemporâneo de projetos culturais inovadores que tenham como tema a diversidade relacionada aos gêneros, às identidades de gênero e às orientações sexuais.

Novos artistas, novas propostas e diferentes expressões culturais compõem a exposição que cumprirá uma agenda de itinerância por diversos municípios do interior e litoral de São Paulo após a tenporada na capital.

Um dos destaques desta Mostra é o lançamento da exposição "Luz dos Olhos Meus", do artista plástico Victor Grizzo. O projeto começou com um livro voltado para o público infantil, mas acabou ganhando novos contornos que culminaram na exposição desenvolvida especialmente para o Museu da Diversidade Sexual.

A obra do artista plástico e escritor Victor Grizzo, "Luz dos Olhos Meus", é como um feixe luminoso a transcender a obscuridade a que é comumente relegada a temática das questões de gênero na infância brasileira. Eugênio, o menino como tantos outros que as páginas literárias insistem em esconder do universo infantil, não gosta de jogar futebol, preferindo a companhia da prima Saturnina, ou de suas amigas imaginárias de cílios-fósforos, com suas brincadeiras de boneca, teatro e dança. Era uma vez um menino que gosta de usar saia, como suas lúdicas companheiras, mas longe dos olhos de sua mãe.
Ela, a mãe, repreendia-o veementemente ao vê-lo trocar a companhia dos irmãos pelas tardes com a prima Saturnina.

A imagem da mãe, combinada ao ambiente tenebroso que se instala ao tê-la em cena na aquarela de cada página, a aproxima da velha bruxa dos contos de fadas. Desprezando o lugar comum e tocando num ponto fulcral da questão, a narrativa alcança a complexidade da relação maternal para uma criança que foge ao padrão sexista de desenvolvimento. A perversidade encarnada no ato de tentar castigar e humilhar o filho, colando fósforos em lugar de seus cílios para depois os acender, representa a mão forte do machismo produzindo a violência doméstica, a tentativa de enquadrar as crianças em um padrão repetidamente aceitável e truculento, ainda que pelo meio da mutilação.

Mas Eugenio, com ajuda de suas amigas, obteve o ponto de virada. Enquanto sua mãe dormia, costurou-lhe uma barba. Em frente ao espelho, ela se viu castigada pelos fios do destino devido ao seu comportamento com o filho. Eugenio precisou, portanto, tirá-la de seu lugar comum, desconstruir sua imagem como mulher, para que enfim fosse aceito.

Em tempos em que o poder público vigente deseja banir toda e qualquer menção aos assuntos de gênero em sala de aula, a obra de Victor revela sua dimensão. Não por ser didática ou educadora, longe disso, mas sim por estimular o respeito, aguçar o questionamento, e ser, potencialmente, um lugar de conforto para tantos Eugenios e Eugenias.

Victor, possuidor de um inefável talento em entrelaçar atmosferas sombrias com traços de delicadeza e ingenuidade, nos traz uma escrita aquarelável, provida de tantos tons e leituras quanto uma tela aos olhos infantis.

Sobre o Artista:
Victor Grizzo é formado em história pela Universidade de São Paulo e entre 2012 e 2014 frequentou a Oficina de literatura Grogotó ministrada pela escritora e filósofa Márcia Tiburi e o escritor Evandro Afonso Ferreira. Apesar da grande importância que a dimensão artística sempre teve em sua vida, foi só quando trabalhou no ateliê de Walmor Corrêa, em 2015, que descobriu o desejo de ter as artes plásticas como ofício. Desde então iniciou sua produção própria. Com uma estética lúdica e intensa relação com a literatura, suas pinturas, aquarelas e instalações exploram questões existenciais.
No início de 2016 foi um dos dez finalistas do concurso realizado pelo MIS por ocasião da exposição "O mundo de Tim Burton". O conjunto "Burtomirandas", foi criado inspirado pelo concurso, e possibilitou ao artista uma recriação da obra do cineasta que já influenciava Grizzo. A série de aquarelas cria um diálogo pitoresco entre os personagens de Burton e o imaginário brasileiro. A obra "Chá das cinco", finalista em universo com mais de 700 obras, foi selecionada para ser exposta no museu.
Em julho do mesmo ano, o artista teve sua primeira exposição individual. A casa de cultura de Jaú abrigou durante um mês a exposição "Interior em mim" como parte da programação do "25º festival de inverno". Com um espaço amplo e de visibilidade na cidade, 47 obras foram expostas, apresentando um panorama expressivo da produção do artista e instigando o público da cidade.
Ainda em 2016, no mês de outubro, o artista pode trazer uma parte significativa dessa exposição para a cidade de São Paulo ao fazer parte da programação da Semana Viver Metrópole organizada anualmente pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. A " Ocupação interior em mim" foi instalada nas escadas da tradicional faculdade, com a mesma proposta de apresentar o trabalho do artista e possibilitar sua apreciação estética e reflexiva. Em Março de 2017 foi convidado a participar da exposição "Uterotopias" do curador antropólogo Leonardo Bertolossi, no espaço cultural A Mesa no Rio de Janeiro, expondo sua obra Caprichos em Fio Livre, nesse mesmo ano participa da segunda edição da Diversa, no Museu da Diversidade Sexual em São Paulo, com sua obra "Luz Dos Olhos Meus"

http://victorgrizzo.wixsite.com/victorgrizzo

https://www.facebook.com/artevictorgrizzo/

2ª Mostra Diversa e Semana da Parada:

ABERTURA 13 de Junho às 17h até 30 de Setembro de 2017.

Museu da Diversidade Sexual

Rua do Arouche, 24, Estação República do Metrô (Piso Mezanino), São Paulo.