OPINIÃO

A Coreia do Norte está tocando a mesma música de sempre. Só que um tom acima

07/01/2016 16:14 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Bloomberg via Getty Images
A man watches a television screen showing a news broadcast on North Korea's nuclear test at Seoul Station in Seoul, South Korea, on Wednesday, Jan. 6, 2015. North Korea said it successfully tested its first hydrogen bomb, the fourth time it has detonated a nuclear device and a move that reignites tensions with neighbors including China after months of calm. Photographer: SeongJoon Cho/Bloomberg via Getty Images

São 8h de terça-feira, 12 de fevereiro de 2013. Estou na Estação Seul do metrô, a caminho do escritório. Trabalho como jornalista em Seul há algumas semanas e me acostumei à superlotação do lugar. Os sul-coreanos têm uma noção diferente de espaço pessoal.

Mas hoje todo mundo se movimenta mais devagar que o normal. As pessoas param em frente às TVs penduradas nas paredes. Elas assistem e conversam nervosamente, olhando para trás. Não entendo o que diz o jornalista, mas obviamente a notícia está chamando a atenção de todos - e causando ansiedade.

Entendo tudo assim que chego ao trabalho. A Coreia do Norte anunciou o teste de uma bomba nuclear, que seria um explosivo miniaturizado com grande poder destrutivo. No lugar do teste foi registrado um terremoto de 5,1 graus na escala Richter.

Na redação, tudo segue normal. A primeira página com a notícia do teste está sendo preparada, e outros colegas correm para publicar uma matéria no site. Mais perto da hora do almoço, o debate é entre comer sushi ou bulgogi. Fico estupefata. Afinal de contas, Seul está a apenas 56 quilômetros da fronteira com a Coreia do Norte - uma viagem curta para um míssil nuclear ou um bombardeiro.

Aí começo a refletir.

Nos jornais sul-coreanos, as palhaçadas da Coreia do Norte são notícia de primeira página quase todos os dias. Kim Jong-un ameaçou "guerra total" e "retaliação impiedosa" inúmeras vezes. Em algum momento, as pessoas vão parar de prestar atenção. Some-se a isso ao fato de que há muito ceticismo em relação ao programa nuclear norte-coreano. Aquela era a terceira vez que o país comunista anunciava um teste nuclear, mas nada confirmava os testes além dos tremores e da máquina de propaganda da República Popular Democrática da Coreia.

Acredita-se que o teste de 2006 tenha sido um fiasco, e ele veio três anos depois da primeira tentativa.

Estamos falando de um país que mal consegue alimentar sua população, em que os pacientes morrem de frio nos hospitais e até mesmo algo tão básico como a eletricidade parece ser escassa.

Depois, eu visitei a Zona Desmilitarizada da Coreia (ZDC), onde soldados dos dois países se alinham em seus respectivos lados da fronteira. A Coreia do Norte criou uma cidade de seu lado da ZDC, supostamente habitada por 200 pessoas felizes e prósperas. Mas, observando com binóculos, as ruas parecem sem vida. Os prédios são cascas vazias, as janelas não têm vidro. Me contam que as luzes se acendem automaticamente à noite, com um timer.

Essa é a história do país que vem contando mentiras há 60 anos, e os primeiros a parar de prestar atenção são os que estão mais próximos.

Desta vez, as ameaças da Coreia do Norte são dirigidas primariamente aos Estados Unidos. Eles ouvem, assim como boa parte do resto do mundo.

Tendo experimentado em primeira mão o medo e a vulnerabilidade provocados pelas ameaças da Coreia do Norte, eu seria a última a sugerir que não devemos levar a sério este teste mais recente. Mas é importante manter as coisas em perspectiva.

O poderio nuclear é um importante elemento de barganha para a Coreia do Norte, que teme uma invasão estrangeira. Mas eis a pergunta que não quer calar: O que aconteceria se o país decidisse usar uma bomba atômica?

Para além de um triunfo momentâneo, há poucas esperanças para um país economicamente enfraquecido e politicamente isolado. Na realidade, uma detonação poderia provocar a destruição do país. Se a Coreia do Norte disparar o primeiro salvo da guerra, por assim dizer, não pode ter esperanças de sobreviver à força militar do mundo ocidental.

A China já deixou muito claro que não apoia o programa nuclear da Coreia do Norte e condenou o teste da terça-feira. E poucos outros países ofereceriam ajuda aos norte-coreanos em uma disputa tão pouco equilibrada.

Acredito que esse seja o principal motivo para o ceticismo dos meus amigos sul-coreanos.

A elite política da Coreia do Norte pode realmente ter desenvolvido uma bomba de hidrogênio - apesar das dúvidas de Crispin Rovere, especialista australiano em política nuclear e controle de armas. "Os dados sísmicos recebidos indicam que a explosão é significativamente menor do que a esperada em um teste de bomba H", observou ele.

O consenso geral parece ser que algum tipo de teste nuclear efetivamente foi realizado, mas não há certeza de que tenha sido uma bomba de hidrogênio.

Mas de uma coisa tenho certeza: Kim Jong-un e seus parceiros ficariam mais felizes com pandemônio mundial do que com o teste em si.

Com uma economia em pedaços, uma população reprimida e uma cultura controlada pelo estado que é motivo de piada para o mundo inteiro, não há muitas alternativas.

Enquanto isso, a população da Coreia do Norte segue sofrendo - e aí está a maior de todas as tragédias.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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