OPINIÃO

Quantas de nós ainda vão precisar morrer?

30/03/2016 15:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Peerayot via Getty Images
Human shadow with fire flame screen.

Não queria começar assim, mas não vejo outra maneira, lá vai: apenas nos primeiros 26 dias de 2016, cerca de 57 transexuais foram mortas no Brasil. Essas pessoas não foram vítimas de latrocínio, ou de bala perdida, que são tristes realidades brasileiras. Mas foram vítimas do puro ódio direcionado para elas, mortas apenas porque estavam vivendo suas vidas.

É importante ressaltar que esse número, de 57 mortes do dia 01 ao dia 26 de janeiro deste ano, é uma estimativa feita pelo Transgrupo Marcela Prado, ONG focada em defender os direitos de transexuais e travestis em Curitiba.

O levantamento foi feito levando-se em conta a cobertura da imprensa para esse tipo de crime, mas o número provavelmente é maior, já que muitos casos não são noticiados. No Brasil não existe uma maneira de saber com exatidão os números da violência cometida contra a população LGBT, até porque homofobia e transfobia não estão configurados como crimes no código penal.

Soma-se a isso o fato de que nossa polícia é extremamente despreparada para lidar com esses casos (assim como também é despreparada para lidar com as mulheres que sofrem assédio, e com a população negra que sofre racismo).

Os números com mais precisão sobre a morte de transexuais e travestis no Brasil são da ONG Transgender Europe, e são alarmantes. Segundo o mapa de monitoramento feito por eles, foram 546 assassinatos dessa parcela da população entre 2011 e 2015, o que faz com que o Brasil seja o país mais violento e que mais mata pessoas transgênero. O segundo lugar fica com o México, e a diferença é gritante. Lá foram contabilizados 190 casos no mesmo período.

Apesar dos números não serem precisos, é evidente o descaso do governo brasileiro (seja ele federal, estadual ou municipal) com a população LGBT, principalmente com as pessoas trans, que são as que mais sofrem preconceito e as mais vulneráveis dentro dessa sigla. Aliás, o fato de não se ter estatísticas oficiais sobre essa população já mostra por si só o abandono generalizado a que somos condicionados.

Na ausência de políticas públicas que ajudem a monitorar o grau de abandono a que a população LGBT está sujeita, iniciativas independentes se mostram cada vez mais necessárias e urgentes, como o mapeamento próprio da LGBTfobia no Brasil, desenvolvido pelo HuffPost Brasil e pelo Curso Abril de Jornalismo.

Esse monitoramento e mapeamento, dos tipos de violência a que estamos sujeitos, e os locais em que esses atos são mais recorrentes, é importante para a partir daí se buscar constituir políticas públicas que visem a diminuição do preconceito, estigma e violência a que estão sujeitos os LGBTs.

Mas infelizmente iniciativas como essa serão em vão, caso o governo e os políticos, de uma forma geral, não prezem por oferecer os direitos básicos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.

Enquanto o país foca na crise política, a bancada conservadora tem aproveitado para tentar avançar silenciosamente com projetos sujos e claramente inconstitucionais, como o Estatuto da Família, e a PEC 99/2001, que propõe que entidades de cunho religioso possam propor Ações de Constitucionalidade perante o STF. É o estado laico, e o mínimo de direitos conseguidos pelas minorias, ficando a um passo de irem pelo ralo.

E a pergunta que me faço, diante de tanta negligência e tanto descaso, e que acarretam em tanta violência e tanta invisibilidade, é quantas de nós vão precisar morrer?

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