OPINIÃO

Você já ouviu falar de alguma travesti que se aposentou?

Eu não tenho a perspectiva de me aposentar. Raramente pessoas trans ultrapassam os 35 anos de idade no Brasil.

04/05/2017 10:40 -03 | Atualizado 04/05/2017 10:40 -03
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Transgêneros sofrem com discriminação no mercado de trabalho.

Eu tô com esta pergunta na cabeça há alguns dias. Fui pra rua no dia 28, faço textos constantes aqui e no Facebook e participo de conversas informais sobre as reformas da Previdência e trabalhista. Estou quase que o tempo todo falando sobre o quanto isso é absurdo.

Ao mesmo tempo tenho visto alguns textos de amigos e amigas, pessoas trans, dizendo o quanto a nossa luta ainda é grande, pois ainda estamos lutando pra sermos inseridos no mercado de trabalho e quem sabe, algum dia, termos a perspectiva de nos aposentar.

Eu sou uma exceção. Vocês que me acompanham, mesmo que apenas online, devem saber que eu sou um ponto fora da curva. Infelizmente. Estou num emprego formal, tenho renda fixa, atualmente trabalhando num lugar considerado de prestígio. "A primeira mulher trans na Câmara Municipal do Rio", "A primeira travesti num gabinete municipal carioca". Eu não sou nada. Eu apenas estou.

E mesmo apenas estando, ainda assim é um lugar de privilégio. Mais de 90% das pessoas trans estão fora do mercado formal de trabalho no Brasil. Não é 51% por cento, é mais de 90%! A essas pessoas restam pouquíssimas alternativas, senão a prostituição como a mais provável.

Porque até no emprego informal, podem acreditar que existem entraves. Quem compraria bala de uma travesti dentro do ônibus? Quem compraria um doce feito por um homem trans, sabendo que ele é homem trans? Você compraria? Você compraria algo que veio da mão de uma travesti? Sim? Sim? Que ótimo! Então por que você não dá emprego pra uma travesti? Então por que você não ajuda a dar emprego pra uma pessoa trans? Por que quando abre vaga de emprego na empresa que você trabalha não é especificado que pessoas trans são bem vindas?

Afinal, não faltam relatos de pessoas trans que foram fazer algum processo seletivo, estavam indo super bem, mas...ops, descobriram que ela ou ele é uma pessoa trans. Descobriram que o "nome de verdade" não é o que ela se identifica, mas o que está no documento. Aí não importa se a pessoa estava sendo a melhor até então, não importa a garra, os estudos, a vontade. Desclassificado! Desclassificada! A vida trans é a prova de que meritocracia não existe. O que existe, raras vezes, na sorte, é o acaso.

É tudo muito nebuloso, porque são muitas lutas. Eu não tenho a perspectiva de me aposentar. Raramente pessoas trans ultrapassam os 35 anos de idade no Brasil, então é quase impossível você ver uma que se aposente, pois mesmo rompendo essa triste expectativa de vida, essa pessoa dificilmente terá um emprego.

Eu entendo que a luta de classes é a base das lutas. Entendo que quanto mais pobre for a pessoa, mais ela vai sofrer nesse mundo cão. A travesti rica sofre; mas certamente eu sofro mais que ela; e acertadamente a que se prostitui, e que não tem a certeza de um teto pra morar, sofre mais que eu.

Por entender que a luta de classes deve acompanhar todas as outras lutas, que eu vou pra rua sempre que puder, em defesa e apoio das pessoas manterem seus direitos trabalhistas. Direitos esses que garantem alguma qualidade de vida e alguma dignidade num sistema tão desigual como o nosso. Vou pra rua contra qualquer retrocesso. Vou pra rua contra a reforma da Previdência, mesmo tendo expectativa quase zero de me aposentar. Porque não é só sobre mim, é sobre nós.

Mas não posso deixar de lembrar vocês: mesmo que os direitos permaneçam, mesmo que a reforma da Previdência não se concretize, ainda assim vocês não verão uma pessoa trans se aposentando por tempo de contribuição. Vocês não verão uma mulher trans, uma travesti ou um homem trans que se aposentou depois de décadas de trabalho com carteira assinada. Não verão. Eu não verei.

Pra vermos isso, e pra vivermos isso, é preciso primeiro se perguntar: onde estão as pessoas trans na empresa em que você trabalha? Onde estão as pessoas trans nos lugares que você frequenta? Onde estão as pessoas trans nas lojas do shopping? Onde estão as pessoas trans na empresa da sua família, por menor que seja? Onde estão as pessoas trans nas farmácias, padarias, bilheterias, órgão públicos, multinacionais... Onde estão as pessoas trans?

As pessoas trans não estão. E as pessoas não ligam, não se importam. Estão mais preocupadas com suas lutas, lutando individualmente ou nos seus pequenos grupos.

As vivências e as opressões podem ser individuais, e muitas vezes são mesmo; mas não perceber que o inimigo, na imensa maioria das vezes, é o mesmo é um erro. E esse inimigo tem nomes: patriarcado, burguesia e sistema.

Enquanto a coleira capitalista os impede de olhar pros lados, e observar outras realidades, seguimos nessa onda, onde a luta dos trabalhadores muitas vezes não parece a luta das pessoas trans, já que pessoas trans não são consideradas nem dignas de trabalho.

Assim, com isso tudo entalado, eu passei o último "dia do trabalhador", onde eu tive o privilégio de ao menos me ver incluída.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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