OPINIÃO

Vazio Dia das Mães

09/05/2016 16:42 BRT | Atualizado 27/01/2017 00:31 BRST
rajesh bhand via Getty Images
mother & daughter enjoying sunset.

Este foi o primeiro Dia das Mães em que sou Lana, e não mais quem eu era antes. Ou quem eu tentava ser. E este foi o primeiro Dia das Mães, em 26 anos, que não estou com minha mãe.

Mães são seres cheios de amor, são donas do maior amor que alguém pode sentir na vida. Amor pela cria, amor por um ser que independente do tempo, será sempre visto, do ponto de vista delas, como frágil, como algo que precisa ser protegido. Essa é a maior beleza, mas é também o maior perigo que se encontram nas mães.

Infelizmente, desde que nascemos, as pessoas começam a fazer projeções sobre nosso futuro. Na verdade até antes disso. As expectativas começam a partir do momento em que descobrem nosso sexo biológico.

As famílias começam a fazer planos para nossas vidas, e as mães, mais do que ninguém, se enchem de expectativas bem delimitadas para os meninos e para as meninas -- que muitas vezes, por uma série de questões, nós não seremos capazes de atender.

Minha mãe desejou que eu estudasse Administração, e eu passei por alguns cursos até chegar no Serviço Social, que é onde tenho encontrado meu caminho.

Minha mãe desejou que eu jogasse futebol, mas eu gostava muito de bonecas e não suportava bola.

Minha mãe desejava que eu falasse mais, mas a timidez tomava conta.

Minha mãe desejava que eu fosse um bom menino, mas menino não sou.

Agatha Christie certa vez escreveu que "o amor de mãe por seu filho é diferente de qualquer outra coisa no mundo. Ele não obedece lei ou piedade, ele ousa todas as coisas e extermina sem remorso tudo o que ficar em seu caminho".

O problema de um amor tão grande, muitas vezes desmedido, é que ele pode se tornar algo perigoso, dolorido, e exterminar justamente a reciprocidade que esse sentimento pede. Não é fácil não estar com minha mãe no Dia das Mães, mas é menos dolorido do que estar junto e ficar de frente para os olhares e as palavras de decepção. Decepção que algumas vezes se transforma em humilhação, em negação da minha existência, da minha vida.

Diferentes especialistas, ente psicólogos e antropólogos, dizem que instinto materno não existe, mas que é na verdade uma construção cultural.

"Esses valores [ter filhos, constituir família] ainda estão muito introjetados nas mulheres. As mulheres sofrem pressão interna e externa para terem filhos. Ainda não é uma escolha legítima", disse a antropóloga e professora da UFRJ Mirian Goldenberg numa entrevista.

A sociedade não para nem um minuto sequer de impor o que as mulheres devem ou não devem fazer. E como resultado dessa imposição de "ter filhos para ser feliz" não é raro vermos relatos de pessoas que crescem frustradas pela relação que tiveram com suas mães, ou que na primeira oportunidade decidem se afastar, para assim parar de sofrer e não fazerem suas mães sofrerem com suas escolhas de vida.

Eu, que nasci exatamente num Dia das Mães, adoraria estar com minha mãe hoje. Mas eu prefiro que tanto ela quanto eu não nos machuquemos, e só por isso não estamos juntas nesse dia.

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