OPINIÃO

Travesti não é bagunça

06/06/2016 17:07 BRT | Atualizado 06/06/2016 17:07 BRT
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JACK GUEZ via Getty Images
Scottish actor, author, and activist Alan Cumming (R) dances alongside Israeli drag queens on a truck during during the opening event of the annual Gay Pride parade in the Israeli city of Tel Aviv, on June 3, 2016. A carefree and cosmopolitan crowd of tens of thousands of homosexuals, transsexuals and supporters took part it the Gay Pride in Tel Aviv, deemed one of the largest in the world where amid the crowd, tourists waved large flags of their country of origin to signify their presence in a city known as a rare oasis for LGBT (lesbian, gay, bi-sexual and transgender) in the Middle East. / AFP / JACK GUEZ (Photo credit should read JACK GUEZ/AFP/Getty Images)

No dia 29 de maio, ocorreu a 20ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do país. Esse ano, o tema do evento foi "Lei da identidade de gênero já! - Todas as pessoas juntas contra a transfobia", com foco no Projeto de Lei João W. Nery que visa garantir plenos direitos à população trans e que se encontra congelada na Câmara dos Deputados.

Apesar de muitas pessoas irem à Parada apenas para se divertir, o que também é válido, é importante destacar que para nós, travestis e transexuais, uma movimentação que pede o fim da transfobia e que clama por mais direitos para nós, é de extrema urgência.

De todas as siglas que envolvem o movimento LGBT, a letra T é a mais invisibilizada e é a mais violentada. Há quem diga, com certa razão, que a letra T da sigla é de Transparente. Pois é dessa forma que somos tratadas pela grande maioria da população, e até por muitos gays, como seres transparentes que não precisam de absolutamente direito algum.

Além de sermos constantemente ignoradas, os dados sobre essa parcela da população, da qual eu faço parte, são alarmantes. Cerca de 90% das travestis se encontram na prostituição, pois afinal quem dá emprego para travestis? Não temos a nossa identidade respeitada, e até usar nome social tem se tornado uma constante e árdua luta.

Somos tratadas como meros fetiches por parte das pessoas cisgêneras, que não conseguem muitas vezes enxergar nossa humanidade. O Brasil é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Nossa expectativa de vida é de 35 anos de idade. A maioria de nós morre de forma violenta. Extremamente violenta. Ou seja, pedir pelo fim da transfobia é uma urgência vital para nós.

Protestar contra os conservadores e fundamentalistas que embarreiram o avanço de direitos sociais e a aprovação do PL Lei João W. Nery, não é capricho. É uma necessidade.

Um ano após ser "crucificada" durante a Parada LGBT, a travesti Viviany Beleboni desfilou mais uma vez de forma emblemática, criticando novamente o fundamentalismo religioso, que de forma direta ou indireta, ajuda a perpetuar preconceitos e a violência sofrida por LGBTs, principalmente trans e travestis. "Eles são uma vergonha, e não a gente", disse Viviany sobre os religiosos que propagam preconceitos.

Em meio a esse cenário desfavorável, onde a fé é usada como jogo de poder e de manutenção de preconceitos existentes, e criação de outros novos; é cada vez mais importante os pequenos passos que são dados no campo político. As iniciativas do prefeito paulista Fernando Haddad, como o Transcidadania, e sua recente declaração de que não deixaria de apoiar o público LGBT por causa de cálculo eleitoral, são muito significativas, pois mostram que nossa cidadania não pode estar à mercê de jogos políticos.

No Brasil de 2016 todos possuem deveres, mas ainda falta uma grande parcela da população ter direitos. E isso não cabe apenas para nós, trans e travestis, mas as mulheres cisgêneras e a população negra também sofrem uma grande limitação em seus direitos básicos. Nossa sociedade é patriarcal, cisgênera, hetera e branca. O que foge a alguma dessas regras está sempre numa linha tênue entre a invisibilidade e o perigo.

Nós estamos cansadas de ter que lutar por coisas são simples, como apenas "ser". Mas a luta está apenas começando, sabemos. Mulheres trans, travestis, homens trans, pessoas não-binárias, nós não somos bagunça.

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