OPINIÃO

Sobre ser Travesti e Comunista

Viver não é uma tarefa simples, mas parece que algumas realidades são mais vulneráveis que outras. E realmente são.

19/04/2017 17:29 -03 | Atualizado 20/04/2017 12:56 -03
Reprodução/Facebook
Colunista detalha as dificuldades de ser trans em um contexto capitalista.

A vida é luta. Quando se é homem trans, mulher trans ou travesti, não demoramos muito a perceber isso. Assim como quando se é pobre, negro ou negra - ou quando se possui essas características quase todas juntas.

Viver não é uma tarefa simples, mas parece que algumas realidades são mais vulneráveis que outras. E realmente são.

Vivemos num sistema extremamente opressor, que é o capitalismo. Esse sistema precisa, como se sabe, que sempre existam muitas pessoas servindo, para que algumas poucas sejam servidas. E não é difícil perceber que quem não for homem cisgênero e branco, sempre estará nas posições mais precarizadas.

Enquanto mulher trans ou travesti (as duas nomenclaturas me abrangem e me acolhem), foi muito importante pra mim me perceber enquanto comunista. Aliás, foi um desafio. Apesar de todas as críticas que sempre fiz ao sistema em que vivemos, eu não parava de me perguntar: como ser comunista num sistema capitalista?

Ao meu ver as lutas tendem a se tornar cada vez mais individuais. Cada um lutando pela sua causa, especificamente. Cada um vivendo sua dor, sem ao menos tentar, muitas vezes, ter empatia com as dores dos outros.

É como se as particularidades de cada um estivessem alheias à ferramenta maior de opressão, que é esse sistema de constante lucro em que nos encontramos. E se alguém está lucrando, outros estão perdendo. É uma regra bem básica, mas que muita gente não se dá conta ou não se questiona sobre.

Nós, pessoas transexuais e travestis, estamos sempre reivindicando melhores condições de vida, diminuição das opressões que vivemos, e um pouco mais de dignidade. Dignidade essa que nos é tirada diariamente, ao nos negarem empregos, ao não sermos minimamente bem tratadas nos espaços que conseguimos adentrar, e inclusive ao não termos acesso a muitos desses espaços.

O espaço definido e aceito como o lugar para a mulher transexual e a travesti geralmente é o lugar da prostituição. Homens trans também, cada vez mais, acabam entrando nesse ciclo de usar o próprio corpo como a maneira de se manter e sobreviver, já que também são vítimas do desemprego e do subemprego compulsórios.

E é estranho não se dar conta de que essas violações e opressões podem ser aliviadas, mas jamais serão superadas na realidade política e econômica atual.

O capitalismo precisa que pessoas estejam à margem do que é considerado o sucesso, à margem de direitos, à margem de uma qualidade mínima de vida. Enquanto travesti, eu sei que eu - e pessoas como eu - estaremos sempre nesse grupo, sujeito a todo tipo de marginalização e violação.

O ativismo gay, ao longo dos anos, se baseou no capitalismo para conseguir ter alguma credibilidade diante da sociedade heteronormativa. O chamado pink money, criou a imagem do "gay padrão bem-sucedido", que com o passar do tempo se tornou o "aceito". Enquanto isso quantos gays periféricos (na maioria negros) continuaram e continuam sendo excluídos e marginalizados?

Nós, que vivemos as opressões no dia a dia, precisamos entender que as ferramentas capitalistas não vão nos deixar avançar. Vão apenas criar uma ilusão, usando sempre a ferramenta da meritocracia, por meio da qual algumas pessoas são dignas de viver plenamente suas vidas (e assim se tornarem aptas para consumir seus produtos), enquanto outras jamais serão.

Ser uma travesti comunista num sistema capitalista, e cada vez mais neoliberal, não é esperar por uma revolução do povo. É buscar pensar em ferramentas e meios para que cada vez mais pessoas percebam que a opressão em que vivem não é algo isolado. Não é mero acaso. É parte de um sistema sólido e complexo, que usa vidas para se manter. E também faz uso das lutas para se promover, e assim vender mais, lucrar mais, explorar mais.

E os explorados eu não preciso lembrar quem sempre serão.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

LEIA MAIS:

- Travesti não é bagunça

- Como é ser uma pessoa soropositiva em um mundo preconceituoso

Calendário transgênero