OPINIÃO

Sobre Clarice Falcão, o clipe de 'Eu escolhi você' e feminismo

23/12/2016 17:39 -02
Alice Venturi/Divulgação

Uma das coisas que aprendi em 2016: as pessoas escolheram odiar arduamente tudo que vem do Gregório ou da Clarice.

Não só deles, mas as pessoas escolheram odiar tudo aquilo em que elas não se encaixam de forma exatamente igual.

Gregório é um homem hétero, cis e branco. Clarice é uma mulher (não sei se hétera ou bi), cis e branca. Os dois são ricos. Muita gente não se encaixa nessa realidade e nas vivências deles. A maioria não se encaixa. Eu mesma não me encaixo em boa parte. Eu sou uma mulher branca e hétera (até segunda ordem), trans e periférica.

Focando na Clarice, que foi o assunto da semana por causa do vídeo de "Eu Escolhi Você", acho importante sempre lembrar que ela não é a maior feminista que você respeita, nem a maior feminista que eu respeito. O feminismo dela conversa pouco com o meu, mas eu entendo totalmente que o trabalho e os posicionamentos dela possuem grande importância para as garotas que são como ela e que a seguem.

Essas garotas não vivem a realidade dura das mulheres negras e das mulheres trans, mas isso não quer dizer que elas não sofram opressão. Embora essas opressões muitas vezes sejam diferentes, claro. Fato é que não existe mulher nessa sociedade que seja uma vítima do machismo. E esse machismo se manifesta de diversas formas, do cara que bate na esposa e na guarda do clube, ao participante do MasterChef que diminui o tempo todo a colega de programa simplesmente por ela ser mulher.

Eu concordo totalmente com as críticas que dizem que o feminismo branco não dialoga com as demandas e lutas das mulheres negras. Acho que isso precisa ser visto e revisto, pra ontem. Lembrando que em dez anos o número de assassinatos de mulheres negras cresceu 54%, enquanto que os assassinatos de mulheres brancas diminuiu 10%. Isso é muito significativo, além de desesperador.

Acho que toda mulher que se diz feminista deveria se perguntar, vez ou outra, coisas do tipo "pra quem, além de mim, o meu feminismo funciona?" ou "por quem o meu feminismo tem lutado?". Lembrando também que muitas feministas não entendem mulheres trans como "mulheres de verdade", o que mostra o tamanho ainda gigante da nossa luta.

E as travestis? O seu feminismo abrange e abraça as travestis? Eu sou digna da sua sororidade?

Respondidas essas perguntas, acho que é necessário lembrar que o inimigo das mulheres não é a Clarice. Clarice é cantora, é artista. Sua arte vai ser sempre controversa, enquanto for isso: arte. Enquanto mulher feminista, tudo que ela fizer pode ser questionado por outras mulheres feministas, pois assim se articula a luta, e assim essa luta se aprimora. Mas é "chato pra caralho" (só pra fazer referência àquela página daqui do Face) odiar tudo que a Clarice faz porque não tinha gente assim ou assado no último vídeo dela.

Eu ficaria - e fico - muito ofendida se um trabalho sobre mulheres trans não contasse/conta com nenhuma mulher trans/travesti na sua realização. Mas a novidade é: o clipe da Clarice não era sobre mulheres trans. Nem sobre mulheres gordas, por exemplo. O clipe da Clarice não era nem sobre mulheres especificamente. Era sobre pênis e vagina. E era sobre as escolhas pra se ter prazer, que no fim do vídeo não se tratava nem de um pênis e nem de uma vagina, mas sim de um vibrador.

Eu costumo problematizar muitas coisas, e algumas vezes sou considerada chata por isso. Mas ainda não cheguei ao ponto de problematizar órgãos sexuais/genitais aleatórios. Prefiro problematizar quem tem sido os alvos mais usuais de boa parte a militância atual.

Toda crítica é válida, mas nosso inimigo é outro.

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