OPINIÃO

Os nobres deputados brasileiros e o estranho medo de transexuais e travestis

20/05/2016 12:11 BRT | Atualizado 26/01/2017 22:31 BRST
Agência Brasil

Definitivamente não está fácil acompanhar as notícias do que tem acontecido no Brasil.

É Ministro da Saúde dizendo que a saúde não é um direito universal, é a previsão do aumento de impostos, é atriz defendendo o fim vergonhoso do Ministério da Cultura, é o novo Ministério da Educação fazendo cortes em importantes projetos de financiamento estudantil, é o novo líder do governo na Câmara dos Deputados sendo investigado por tentativa de homicídio.

Se tudo isso que está acontecendo não é um golpe, fica quase impossível entender então o que seria um golpe à democracia. Se isso não é golpe, nada é golpe.

A última novidade (pelo menos enquanto escrevo esse texto, pois qualquer outra bomba pode aparecer) é o fato de que 29 deputados de dez partidos (incluindo PSDB, PSB, PV, PSC e DEM) protocolaram um pedido para suspender um dos últimos atos de Dilma Rousseff na presidência da república: o decreto que garante o uso do nome social a transexuais e travestis que trabalhem no serviço público federal.

O ato de Dilma, como eu disse aqui não foi nenhum favor. Foi uma jogada política. Uma cartada de última hora para tentar conseguir mais apoio e mobilização da esquerda. Caso Dilma realmente estivesse preocupada em dar direitos às pessoas trans, ela poderia ter feito isso há muito mais tempo. Mas, mesmo com ideais puramente políticos, Dilma fez. Isso é indiscutível.

Agora, pouco mais de uma semana após o afastamento da presidenta, os deputados tentam acabar com essa migalha de direito que foi entregue para a população trans. Quando paro para tentar analisar essa nova jogada do Congresso de Conservadores, vêm duas perguntas iniciais na minha cabeça: esses deputados não tem o que fazer? O Brasil não possui demandas mais urgentes e mais justas do que tirar o pouco de dignidade que foi dado para transexuais e travestis?

A proposta de acabar com esse direito recém adquirido é de autoria do deputado João Campos (PRB-GO). O nobre deputado é também responsável por outro projeto igualmente tosco e igualmente sem fundamento racional: a Emenda Constitucional que garante às igrejas o poder de questionar a constitucionalidade das leis no Supremo Tribunal Federal. João Campos, o nobre deputado, também foi autor do ridicularizado projeto de Cura Gay, que acabou caindo depois da pressão popular.

É deprimente como achamos absurdo o jeito que a política e a religião se envolvem de forma suja e ameaçadora em alguns países do Oriente Médio, e aqui estamos indo pelo mesmo caminho.

O Estatuto da Família, que visa definir como família apenas a união entre homem e mulher, ignorando a realidade da maioria das famílias brasileiras (casais gays, mães solteiras, pais solteiros, crianças criadas pelos avós, etc), é outra amostra de como o nosso legislativo não e só corrupto - como o mundo inteiro sabe. Mas é também frouxo, ignorante e deprimente.

Nossos nobres deputados parecem ter muito medo dos LGBTs, principalmente das transexuais e travestis. Eles não medem esforços em anular, perseguir, silenciar e legitimar a violência sofrida por nós. Virou moda falar sobre a "ideologia de gênero", algo inventado apenas para assustar e alienar a parcela ignorante da população que vota nesses políticos e os elege.

Falar da "ideologia de gênero", que não existe, é o que eles mais gostam de fazer. É como diz a própria Bíblia, em Mateus 12:34: "a boca fala do que está cheio o coração".

Essa semana o Canadá deu mais um exemplo de como busca ser um país cada vez mais inclusivo e progressista, ao apresentar um projeto de lei que garantirá plenos direitos à população transgênera.

O projeto foi idealizado pelo próprio primeiro ministro canadense Justin Trudeau, e ao que tudo indica, provavelmente será aprovado pelos legisladores de lá. Enquanto isso, por aqui, apenas regressão. Apenas agressão institucional de onde deveria vir o exemplo maior de civilidade.

O que os nossos deputados temem? Existe algo a temer? Será que a sexualidade deles é assim tão frágil? Será que o uso do nome social por travestis e transexuais afeta algo na vida deles? O que os deputados temem nos LGBTs? O que eles temem perder quando nós ganhamos direitos?

Nobres deputados, ao contrário de vocês e do que vocês fazem, nós pessoas transgênero não queremos tirar direitos de ninguém. Apenas queremos viver nossas vidas, e termos nossas vidas plenamente respeitadas. Vocês não tem motivos reais para nos temer, mas nós sim. Nós temos pavor de vocês, nobres deputados.

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