OPINIÃO

Orgulho é o contrário de vergonha: Por que um Dia do Orgulho LGBT é tão necessário

É difícil resistir quando se faz parte de um grupo tão marginalizado e violentado.

28/06/2017 13:01 -03 | Atualizado 28/06/2017 13:03 -03
Getty Images/iStockphoto
Queremos ter o orgulho de poder usar o banheiro em paz, mesmo sob protestos.

Todo ano é a mesma coisa: heterossexuais e cisgêneros perguntando o por quê de se ter orgulho em ser LGBT. "Eu não posso ter orgulho em ser hétero?", é a pergunta mais comum em comentários nas redes sociais.

Sentir o tal orgulho não é simples ou fácil. Por isso existe uma data dedicada a ele, voltada para pessoas LGBTs.

Sou uma mulher trans e aprendi a vida inteira a sentir vergonha. Vergonha de ser quem sou, vergonha de falar o que sentia, vergonha até mesmo de pensar sobre meu gênero e minha sexualidade.

Sempre pensei que era errado não estar em conformidade com o gênero que me foi designado. "Tem algo de errado comigo, eu não sou normal", era o pensamento mais constante.

Vivemos em uma sociedade em que ser mulher é ser menor. Imagina-se que, quando se é uma mulher trans, quebra-se o "privilégio" da masculinidade, "rebaixando-se" ao lugar do feminino.

O tal privilégio da socialização masculina é algo que passou direto por mim. Durante a maior parte da minha vida, ele foi totalmente anulado e apagado. Não pude, de forma alguma, expressar minha personalidade. Em casa, na escola, entre amigos, família e durante relacionamentos. Foram anos em que pude ser eu. Algo que, por esforço, virou automático. Mas nunca natural.

Quando comecei a transição, depois de muita coragem, foi uma libertação. Um processo dolorido e lento que segue até hoje. Um processo que vai me acompanhar por toda a vida, mas que é a minha liberdade.

Aliás, preciso corrigir: a transição não foi um ato de coragem. Não foi uma escolha, ou uma opção. Era finalmente existir ou sucumbir, morrer. E para mim essa não era uma opção.

Cresci ouvindo, mesmo de outras mulheres, que travestis são bandidas, criminosas, perigosas. Cresci ouvindo que elas são violentas, não são de confiança. Quando finalmente ouvi sobre mulheres trans, o que se falava era que são doentes.

Depois se aprende alguns dados: vivemos no país que mais mata pessoas trans no mundo, e que é o mesmo país que mais consome pornografia com pessoas trans. Cerca de 95% das pessoas trans já passaram - ou vão passar - pela prostituição em algum momento da vida.

As mortes com pessoas trans são sempre violentas. Não é morte morrida, é matada. Dandara, Emanuelle, Samily, Laura, Thadeu, Day. A lista continua. É uma lista gigante e cruel.

Como ter orgulho de si mesma fazendo parte de um grupo tão marginalizado e violentado? Não é fácil. Mas muito pior é viver na sombra de algo que não se é. Muito pior do que estar à margem, é não estar. Não existir. Não ser. Não pertencer.

Por isso, uma vez que colocamos a cara no sol e nos permitimos ter vida própria, e voz própria, o orgulho acontece.

O orgulho de entender que a vida não é clandestinidade, mas é resistência. O orgulho de saber que meu corpo, tão violado, é na verdade um corpo político. O orgulho de amar e poder ser amada, apesar de tudo e de todos. O orgulho de sair na rua com a aparência que tenho. O orgulho de carregar meu nome e usá-lo onde puder. O orgulho de poder usar o banheiro em paz, mesmo sob protestos. Orgulho de conseguir escapar do lugar comum a que somos sujeitas.

Ser mulher trans, homem trans e travesti não é motivo pra vergonha. Não mais. Existimos, resistimos e temos orgulho.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

LEIA MAIS:

- A Parada é LGBT, e não apenas 'gay'

- Você já ouviu falar de alguma travesti que se aposentou?

As imagens da 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo