OPINIÃO

Entendam: Antes de tudo, Dilma é mulher

13/05/2016 17:54 BRT | Atualizado 27/01/2017 00:31 BRST
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Adriano Machado / Reuters
Brazil's President Dilma Rousseff reacts during a news conference at Planalto Palace in Brasilia, Brazil, April 18, 2016. REUTERS/Adriano Machado TPX IMAGES OF THE DAY

Eu não fiquei surpresa com a votação que deu início ao processo de impeachment no Senado, e que afastouDilma Rousseff da presidência da república. Fiquei desapontada, mas não surpresa. Depois da grotesca votação na Câmara dos Deputados, ficou muito difícil esperar outra coisa dos senadores.

Os coronéis fundamentalistas votaram, Dilma se retirou, Temer assumiu. Muito tem se falado e se escrito sobre o futuro do país. Futuro que quase todos acham incerto, mas que pra mim parece muito bem desenhado: o reacionarismo e a privação de direitos humanos vão se fortalecer.

"É incontestável que as forças que, a partir de hoje, se habilitam a dar sustentação ao governo interino, já anunciam iniciativas que, sob o pretexto de combater a crise econômica, consubstanciam-se, na verdade, em um ataque frontal aos direitos civis, políticos e sociais esculpidos na Constituição Federal de 1988", escreveu a ONG Conectas em uma brilhante e esclarecedora nota divulgada em seu site.

Diversas organizações da sociedade civil, movimentos sociais, grupos de defesa dos direitos do povo negro e LGBTs, todos e todas que são a favor da democracia, e da permanência e fortalecimento do Estado Democrático de Direito, estão se posicionando diante dos últimos episódios. Nas redes sociais, nas mais variadas páginas, fica bem claro que o movimento de apoio ao governo Dilma é grande. Não é uma minoria inexpressiva como a grande mídia tem feito parecer.

Mas eu tenho me perguntado muito: como estará Dilma? Não a presidenta eleita com 54 milhões de votos, mas a mulher Dilma. Como estará essa senhora, de 68 anos de idade, que apesar dos muitos erros, não merecia esse tratamento vergonhoso?

Estou, assim como todas as pessoas que conheço, preocupada com o país, e com o rumo que ele vai ter. Mas enquanto mulher, o que mais tem se passado pela minha mente quando paro para refletir sobre os últimos episódios da nossa política, é como a Dilma deve estar. Não a imagem de lutadora incansável que ela quer transparecer nos pronunciamentos, mas a mulher de verdade. A mulher por debaixo do título de presidenta afastada. Como ela estará?

Desde as eleições passadas, Dilma tem sofrido todo tipo de ataque. Não só político, que é entendível num regime dito democrático, mas sobretudo ataques pessoais. Sua aparência, sua família, seu jeito firme e rigoroso (que por ser mulher é visto como defeito), seu jeito de falar, tudo foi motivo para tirar sarro, para xingar, para atacar a mulher Dilma Rousseff.

Vivemos numa cultura tão machista que é visto quase que com naturalidade o fato de Temer ter escolhido apenas homens para seu time de ministros. Homens esses que são todos brancos, oriundos de famílias ricas e remanescentes de alguns dos partidos mais conservadores do Brasil.

Pelo menos sete desses novos ministros, escolhidos por Michel Temer, estão sendo investigados pela Operação Lava Jato. Mas quando a Dilma escolheu Lula como ministro, aí o Supremo Tribunal Federal embarreirou.

O que aprendemos com isso? Que uma escolha duvidosa de uma mulher é algo muito mais crítico do que sete escolhas erradas de um homem.

Muito me entristece o caminho que o país vai ter que percorrer. Me entristece igualmente ver o jeito que parte desse país escolheu tratar uma mulher democraticamente eleita.

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