OPINIÃO

Carta de uma transexual a Michel Temer

18/04/2016 18:54 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Getty Images/Reuters

Olá sr. Michel Temer, atual vice-presidente do Brasil e pelo que parece, futuro presidente. É com grande tristeza que lhe escrevo e com essa mesma tristeza que lhe dou os parabéns por conseguir algo que vai ficar para sempre marcado em sua historia: um golpe à nossa democracia, ou como o senhor e seus apoiadores gostam de chamar, um processo de impeachment contra a presidenta que está no poder, mas que sobre a qual, até hoje, não paira nenhuma denúncia de desvio de dinheiro público ou corrupção.

Quero deixar claro que não escrevo para lhe agredir, lhe ofender, nem lhe acusar de nada. Lhe escrevo para pedir, para suplicar e até implorar. Queria ter a honradez de não precisar fazer isso, mas não consigo. Sou uma mulher transexual, e portanto faço parte de um segmento da sociedade que tem sido historicamente ignorada, humilhada e invisibilizada, assim como outros segmentos, como o povo negro das periferias, as mulheres cisgêneras e os indígenas. Somos violentados e violentadas diariamente na nossa vivência. Diante disso, gostaria de te pedir que olhasse por nós, que nos enxergasse, que reconhecesse nossos direitos, nossa existência.

Não, eu não acredito que o senhor irá nos enxergar, mas acho que não custa tentar. A vida é feita de tentativas para se alcançar as vitórias desejadas, e o cenário político atual é uma prova disso. Tento chamar sua atenção não só por mim, mas sobretudo pelas minhas irmãs e irmãos que são mortos diariamente, fruto do preconceito da sociedade e do descaso do governo. Irmãos e irmãs que não possuem essa oportunidade de escrever, de se expressar, de reivindicar.

E mesmo tentando, aproveitando esse espaço para lhe implorar por algo quase impossível, sou tentada em não acreditar na sua boa vontade e na sua generosidade. Sigo incrédula - apesar de suplicante - porque observei o processo de votação na Câmara dos Deputados que deu o aval para o segmento do processo de impedimento da presidenta Dilma Rousseff, e pude ver os tipos de deputados que foram a favor desse golpe (ou impeachment, caso o senhor prefira chamar assim). Pude ver que na imensa maioria, os deputados que votaram a favor da continuidade desse processo eram homens, brancos, héteros e cisgêneros. A maioria era da bancada religiosa, que tem tentado a todo custo nos aniquilar e nos marginalizar. Muitos deles, representantes da elite do país.

Vendo esse cenário, suponho que os LGBTs continuarão a ter seus direitos limitados. Mais do que isso, temo que os poucos direitos adquiridos sejam tirados de nós. E olha que esses direitos são pouquíssimos, principalmente para nós pessoas trans.

O senhor, Temer, é um mistério. Não só para mim, quanto para a maioria dos brasileiros. Desconhecemos seus posicionamentos sobre uma dezena de coisas, como o uso do nome social por transexuais, a dificuldade que temos para trocar nossa documentação, o casamento homoafetivo, o direito ao aborto, os homicídios de jovens negros nas periferias, a situação de abandono do povo indígena, etc. Mas sabemos muito bem quais são as opiniões de quem lhe apoia, como Cunha e diversos outros integrantes de seu partido, o PMDB. E esses posicionamentos nos assustam, nos amedrontam.

É verdade que o senhor estava de forma justa na linha de sucessão do governo. Eu não votei na presidenta Dilma na última eleição, mas quem o fez sabia muito bem que o senhor era o vice. Mas normalmente, quando se vota num presidente, não se espera que ele saia ou seja destituído no meio do mandato. O vice, normalmente é visto apenas como uma figura de apoio.

A presidenta Dilma Rousseff fez muito pouco por nós. Nos ignorou, mesmo com o movimento LGBT, assim como diversos movimentos sociais, lhe dando apoio para se eleger e reeleger. Muitos de nós nos sentimos traídos e traídas. Mas, apesar de praticamente não avançar, a presidenta não recuou nem aboliu direitos que já existiam, e esse é o nosso maior medo em relação ao senhor e à sua futura equipe caso o senhor consiga essa proeza de realmente se tornar presidente da república.

Por isso lhe escrevo, lhe peço: não tire o pouco que nós temos, e mais que isso, tente olhar para nós que somos cidadãos e cidadãs como tantos outros. Essa não vai ser sua prioridade, tenho certeza, mas saiba que enquanto presidente o senhor também será responsável pelos milhares de transexuais e LGBTs que são mortos todos os anos no Brasil.

O senhor, enquanto for o maior governante do País, também terá que responder pelas mulheres mortas em clínicas clandestinas de aborto, e pelos assassinatos do povo negro que é vítima recorrente de abusos policiais e da famigerada guerra às drogas.

Nosso sangue e nossos corpos estarão em suas mãos e sob a responsabilidade de sua caneta e das decisões que dela vierem.

Atenciosamente,

Lana Jones.

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