OPINIÃO

Amar de verdade é deixar ir

05/12/2016 17:12 -02 | Atualizado 05/12/2016 17:12 -02
Fernando Frazão/ Agência Brasil

"Se você me ama, não deixa fazerem nada comigo. Me deixe ir em paz. Eu quero ir em paz", disse Ferreira Gullar para a esposa, a também poeta Claudia Ahinsa.

Um dos meus ditados favoritos é "Amar é deixar ir". Esse ditado se aplica a outras situações que não a morte. Na verdade, essa frase é pensada para a morte sentimental, a morte a que todos os relacionamentos estão sujeitos. Mas nesse caso, de uma morte física e carnal, ela também faz muito sentido.

Temos a constante tendência em querer prolongar o que possui prazo de validade. Ficamos empurrando tudo ao máximo, sejam os relacionamentos ou a vida propriamente dita.

Acho que isso está ligado ao imaginário de que o outro é sempre nossa propriedade. O outro não é nosso, nem de ninguém. Só dele mesmo. A vida também. Os amores também. Os sonhos também. Tudo é compartilhado, mas nada nos é pertencido. Pelo menos não como idealizamos muitas vezes.

Claudia Ahinsa parece ter entendido isso. A vida era dele, apenas dele. Assim como as dores e as vontades. Assim como as alegrias e as lembranças.

Amar é deixar ir. E Ferreira Gullar foi. Missão cumprida, afetos correspondidos e alimentados. Passagem feita. Ciclo concluído.

Vida que sempre segue. Morte que sempre chega. Poesia que sempre fica.

Ferreira Gullar vai, mas fica. Eterno.

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