OPINIÃO

A Parada é LGBT, e não apenas 'gay'

A Parada, sucesso desde a sua primeira edição, é um bom momento para não apenas festejar, mas pensar nos pontos de diferença e de proximidade entre todos os integrantes do movimento.

16/06/2017 18:48 -03 | Atualizado 16/06/2017 18:48 -03
NurPhoto via Getty Images
É comum o apagamento das lésbicas, as dúvidas sobre os bissexuais, as generalizações sobre as travestis e transexuais e o desconhecimento total sobre intersexuais.

Neste dia 18 de junho, será realizada e 21ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, a maior do País e que já foi considerada a maior do mundo.

Há anos o evento reúne e mobiliza milhões de pessoas, não só da cidade de São Paulo, mas de todo o País. São gays, lésbicas, bissexuais, intersexuais, travestis e transexuais que se unem para celebrar o orgulho de ser quem são e para reivindicar mais direitos. Portanto é importante deixar algo bem claro: a Parada é LGBT, e não apenas "gay".

É comum que a sociedade confunda rotineiramente, e trate o evento (e vários outros do tipo) como sendo algo específico e exclusivo do público gay. Não faltam notícias, por exemplo, que insistem em englobar todo mundo na bolha gay, ignorando lésbicas, transexuais e demais pessoas da lista. Porém, LGBTs são diversos, assim como suas vivências e suas demandas.

Ao longo dos anos, a pauta LGBT foi resumida e protagonizada pelo "movimento gay", que abrange exclusivamente homens gays, mesmo que vez ou outra mencionem os demais grupos da sigla.

Detalhe curioso é o fato de que a Revolta de Stonewall ficou conhecida como o início da militância gay, quando na verdade a liderança daquele momento histórico ficou por conta de duas mulheres trans: a latina Sylvia Rivera e a negra Marsha P. Johnson.

Não é raro ver textos e publicações que falam de como os homens gays se apropriaram da sigla LGBT e que fizeram dela, na prática, a sigla GGGG, que contempla apenas gays. Assim como é comum o apagamento das lésbicas, as dúvidas sobre os bissexuais, as generalizações sobre as travestis e transexuais e o desconhecimento total sobre intersexuais.

Enquanto mulher trans, eu sei que não são raros os relatos de amigas e colegas de militância que falam sobre as opressões sofridas dentro do próprio movimento LGBT.

As diferenças entre todos os grupos que estão nessa famosa sigla - assim como entre os que não estão, como os intersexuais - são muito fortes e determinantes nas vidas de cada pessoa. Enquanto as lutas principais (ou pelo menos as que tiveram mais visibilidade) de homens gays são o casamento civil igualitário e a criminalização da homofobia, a luta mais básica de mulheres trans e travestis é poder usar o banheiro em paz, e ter seus nomes sociais devidamente respeitados.

Nós, trans, queremos antes de tudo podermos ser vistas como seres humanos, dignas de um banheiro e de um nome.

Vidas diferentes, demandas diferentes, e até lutas diferentes em muitos aspectos. Mas todas essas realidades se cruzam muitas vezes, até porque existem mulheres trans lésbicas, homens trans gays, pessoas trans bissexuais etc. Orientação sexual é diferente de identidade de gênero e por isso, sobretudo, a importância de se buscar certa comunhão nas militâncias.

A Parada, sucesso desde a sua primeira edição, é um bom momento para não apenas festejar, mas para se pensar nos pontos de diferença e de proximidade. Pensar no que nos afasta, e no que nos aproxima como coletivo.

A Parada do Orgulho LGBT é um momento de celebração e mesmo de renovação para as nossas vivências, particularidades e coletividades. Basta querer. Basta entender que a luta individual de cada um é importante, mas não é a única.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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