OPINIÃO

Chamar estupradores de doentes é simplificar um problema maior

06/06/2016 16:25 -03 | Atualizado 06/06/2016 16:25 -03
ASSOCIATED PRESS
Rai de Souza, 22, a gang rape suspect is taken inside a police car to the police headquarters in Rio de Janeiro, Brazil, Monday, May 30, 2016. Police are searching for the more than 30 men suspected in the gang rape of a 16-year-old girl, a case that has rocked Latin America's largest nation and highlighted its endemic problem of violence against women. (AP Photo/Felipe Dana)

O dia 25 de maio de 2016 foi terrivelmente marcado por um acontecimento que chocou e mobilizou a internet e milhares de pessoas: o estupro coletivo de uma jovem de 16 anos, que foi dopada e estuprada por cerca de 30 homens.

Não satisfeitos com a atrocidade cometida, eles ainda divulgaram o vídeo, que teve incontáveis visualizações e compartilhamentos em diversas plataformas. Não bastou o ato em si, mas eles ainda sentiram a medonha necessidade de exibirem a vítima como um animal abatido numa caça.

Eu comecei a ver as pessoas falando sobre o ocorrido em alguns posts aleatórios* do Facebook, e fui direto para as páginas de alguns veículos para ver se eles tinham noticiado.

É engraçado como ainda hoje em dia, com todas as críticas e reservas que temos aos grandes e tradicionais meios de comunicação nacionais, ainda é comum pensarmos "se não está no O Globo, na Folha de São Paulo ou no Estadão, então não aconteceu".

Esse é um pensamento que acabamos naturalizando, mas que cada vez se mostra mais sem lógica.

Como é de se esperar, fui nas páginas desses grandes jornais e não aparecia nada. "Como assim 30 homens estupram uma garota, e não tem nada disso nos ditos principais veículos de notícia?", eu pensei.

Enquanto isso, os posts sobre o ocorrido não paravam de se multiplicar. Páginas feministas, e outras de causas consideradas "de esquerda" já relatavam o ocorrido.

Fui me informando e ao mesmo tempo me revoltando com o que aconteceu. Fui me revoltando com alguns comentários que li e que se referiam aos estupradores como doentes. Até desabafei num post, deixando claro porque estupradores não podem ser considerados doentes, e é sobre isso que quero falar.

Chamar estupradores de doentes é algo simples, que não dá o aprofundamento necessário do porquê desses homens, ao longo da história e ao longo de suas vidas, acharem que possuem direito sobre os corpos femininos. É claro que alguns homens podem sofrer de algum tipo de psicopatia e cometerem esses atos baseados por essa característica, mas esses são poucos, são raros.

A grande maioria dos homens que estupra, assedia e violenta as mulheres, o fazem porque acreditam que isso não é nada demais. Embora tenham plena consciência de que estuprar é algo errado, eles não veem aquelas mulheres que estão na condição de vítima como seres humanos, como alguém digno de algum tipo de consideração ou compaixão. Para eles, elas são meros objetos. Meros pedaços de carne prontos para serem devorados.

Essa visão dos homens sobre as mulheres é endossada pelo machismo cotidiano e pela cultura do estupro. A cultura do estupro nada mais é do que a naturalização que damos ao fato de os homens terem poder e privilégios sobre o corpo das mulheres. E isso acontece em diferentes níveis.

Acontece dentro de casa e na infância, quando os pais incentivam o menininho a passar a mão na coleguinha, e todos da família acham fofo. Acontece quando as meninas tem que sentar de pernas fechadas e se comportarem, para não serem assediadas (pois se isso acontecer a culpa é delas). Acontece quando na adolescência quando os rapazes são incentivados a serem pegadores, e a "comerem" o maior número de garotas for possível, para se exibirem para os amigos, e deixarem os pais orgulhosos.

Acontece no silêncio absurdo por parte de vários homens que se dizem pró-feministas, mas que são incapazes de repreender os amigos machistas. Acontece quando alguém comenta na internet que "mulher que fica em casa lavando a louça não é estuprada", e esse comentário recebe diversas curtidas em apoio. E acontece o tempo todo na mídia, nas cenas de estupro ou de abuso que são naturalizadas nas novelas e nas séries.

A cultura do estupro acontece quando os grandes meios de comunicação demoram demais para noticiar um estupro coletivo, algo que visivelmente é urgente. A cultura do estupro acontece quando esses meios de comunicação decidem enfim dar a notícia, mas tratam o episódio como "suposto", mesmo diante de fatos irrefutáveis, como o vídeo desse caso.

A cultura do estupro nada mais é do que uma das pernas do machismo. Essa engrenagem social que esmaga todos os dias mulheres, cis ou trans, e que serve de alavanca para outras formas de preconceito, como a homofobia.

Essa menina de 16 anos que sofreu essa barbárie, infelizmente não será a última a ter vivido algo assim. Infelizmente não será a última a ser ignorada por alguns veículos de notícia, e infelizmente o caso dela não será o último em que algumas pessoas tentam criar justificativas para o injustificável.

A cultura do estupro precisa ser combatida por todas nós, seja dentro de casa, ou seja na mídia que silencia e até naturaliza a violência rotineira contra nós.

*Post publicado em 26 de maio, às 13:18

Post publicado em 25 de maio, às 22:53

Post publicado em 26 de maio, às 11:56

LEIA MAIS:

- Nome Social é Direito: a Mobilização Trans Contra o Retrocesso

- Os nobres deputados brasileiros e o estranho medo de transexuais e travestis

Também no HuffPost Brasil:

Opiniões chocantes sobre estupro