OPINIÃO

Coreia do Norte prova que privilégio de ser um homem branco não é universal

O caso de Otto Warmbier, morto no último dia 19, mostra que nem sempre o final é feliz para homens brancos.

23/06/2017 18:28 -03 | Atualizado 23/06/2017 18:28 -03

Sobre a Revogação do Privilégio dos Brancos na Coreia do Norte

"Isso é o que ele merece. Bem-feito!" Minha mãe havia pronunciado essas palavras em seu típico tom prático durante uma manhã enquanto assistia ao noticiário. "Ele" era Michael Fay, um jovem de 18 anos de Ohio que havia confessado ter vandalizado carros em Cingapura, sendo depois condenado a seis chibatadas com uma vara de bambu. Eu estava na sexta série e tudo o que podia imaginar era o quão horrível seria a dor. Minha mãe estava impassível em seu modo de pensar, reforçando: "Ele mereceu isso".

Pensei sobre as palavras de minha mãe há alguns dias, enquanto assistia a um vídeo de Otto Warmbier*, outro jovem de Ohio, de 21 anos, que em março do ano passado, foi condenado por subversão depois de ter roubado um pôster de propaganda da Coreia do Norte e condenado a 15 anos de trabalho forçado. Assim como no caso de Fay, fiquei chocada com a gravidade da punição. Tentei imaginar passar uma década e meia fazendo o que o estado da Coreia do Norte considera trabalho forçado e não pude. Não tenho mais 11 anos, e a cruel reação de minha mãe à sentença de Michel Fay é minha reação a outro jovem branco que foi a um país asiático e violou suas leis, aprendendo que o escudo proporcionado por sua identidade masculina branca do lado de cá na América não é um teflon no exterior.

Assim como o choque provocado pela sentença contra Warmbier, fico ainda mais chocada com o fato de que um homem adulto, um cidadão americano, não só tenha se voluntariado a entrar na Coreia do Norte como também tenha cometido o que tem sido descrito como "pegadinha de universitário". Esse tipo de comportamento imprudente é um infeliz efeito colateral de ser socializado primeiro como um menino branco e, depois, como um homem branco em seu país. Todo sistema social, jurídico, acadêmico e econômico neste país tem, por mais de três séculos, funcionado com a proposta implícita de assegurar que os homens brancos sejam os principais benfeitores de todos os privilégios. A arrogância criada por esse tipo de condicionamento é patogênico, fazendo com que seu hospedeiro desenvolva uma percepção subconsciente, ainda que não menos obnóxia, de que as regras não se aplicam a ele ou que, pelo menos, sua aplicação seja negociável.

Todas as manchetes destacaram que Otto Warmbier era estudante. Seu perfil no LinkedIn informa ele cursava economia com especialização em sustentabilidade global e era diretor-gerente de um "fundo de investimento alternativo". Um homem criado neste país que estuda o globo como parte de seu currículo de educação superior deveria estar pelo menos levemente consciente do relacionamento notoriamente tenso entre os Estados Unidos e a Coreia do Norte. Com certeza tinha lido as histórias de Jeffrey Fowle e Matthew Miller, outros americanos brancos presos na Coreia do Norte por "pequenos delitos", que foram posteriormente condenados a trabalho forçado.

Sim, estou disposta a apostar meu último dólar que ele estava ciente do clima político naquele país, mas o privilégio é uma droga maldita. O alto privilégio disse a ele que a história da Coreia do Norte de usar como exemplos cidadãos americanos que ousam desafiar seu rígido sistema legal, de forma alguma estava à altura de seu privilégio americano de alabastro. Quando vemos um homem branco levado ao Burger King com um colete à prova de balas depois de ter matado nove pessoas em uma igreja, aprendemos que o mundo sempre irá nos proteger.

Vindo de um país repleto de cidadãos que criticam duramente vítimas negras da violência sancionada do estado ao nos dizer que, se obedecermos à lei, não teríamos de enfrentar as consequências, Warmbier deveria ter ouvido. Se ele tivesse obedecido às leis norte-coreanas, agora estaria em casa. Na verdade, se tivesse seguido a forte recomendação do Departamento de Estado americano contra viagens à Coreia do Norte, agora estaria em casa. E, se Eric Garner deve ser o culpado por sua morte por vender cigarros soltos, ou se Sandra Bland está morta porque não conseguiu sinalizar quando estava mudando de faixa, então Otto Warmbier foi condenado a uma década e meia de trabalho forçado porque não teve bom senso e respeito pela autonomia nacional de um país cujo ódio e vingança contra a América foram demonstrados de forma muito clara.

E, embora eu não culpe seus pais por pressionar o Departamento de Estado para negociar sua libertação, imagino onde estavam quando seu filho estava planejando uma viagem à Coreia do Norte. Não conseguiram impressioná-lo com o clima hostil que o aguardava? Não o convenceram a respeitar a lei e a ordem? Não ensinaram a ele a importância de obedecer a autoridade?

Que momento decisivo deve ser ao perceber depois de 21 anos sendo colocado em um pedestal pelo mundo, simplesmente porque sua codificação de DNA produziu um fenótipo favorável, que tal favor não é absoluto. Que choque perceber que, mesmo o Departamento de Estado, com toda sua influência e poder, não pôde assegurar seu perdão. Que alerta perceber que suas lágrimas são vistas com indiferença.

Como eu disse, viver 15 anos executando trabalhos manuais na Coreia do Norte é inimaginável, assim como ir para um país onde sei que não sou bem-vindo e violar suas leis. No entanto, sou uma mulher negra. O medo desesperançado que Warmbier sentiu é minha realidade diária vivendo em um país onde homens brancos como ele são intencionalmente inconscientes do meu sofrimento, mesmo sendo cúmplices na manutenção das estruturas de poder que asseguram sua supremacia às minhas custas. Ele agora foi um outsider à mercê de um governo impassível por seus apelos por ajuda. Entendi.

* Otto Warmbier morreu no último dia 19, uma semana após voltar para Ohio. O laudo médico aponta como causa da morte um ataque do coração decorrente do uso de medicamento para botulismo. Na sexta-feira (23), o governo norte-coreano negou que ele tenha sido torturado. Ao libertá-lo, o governo de Pyongyang disse que o fazia por razões humanitárias. O porta-voz do governo, que não teve o nome divulgado, disse que, apesar do delicado estado de saúde, ele foi entregue vivo aos Estados Unidos.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US em março de 2016 e traduzido do inglês.

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