OPINIÃO

Por que eu não quero optar entre ser mãe e ser médica

O governo federal está propondo mudanças na regulamentação de empresas privadas que vão dificultar tremendamente meus esforços para trabalhar e criar filhos no Canadá.

21/09/2017 17:34 -03 | Atualizado 21/09/2017 17:35 -03

Sou médica de família. Dois meses atrás completei uma década de estudos e treinamento. Agora, quando finalmente cheguei ao ponto onde poderei começar a trabalhar para saldar uma dívida educacional de centenas de milhares de dólares, o governo federal está propondo mudanças nas empresas privadas, mudanças essas que vão dificultar tremendamente ou impossibilitar meus esforços para trabalhar e criar meus filhos no Canadá.

O fato de os médicos funcionarem como empresa privada nos permite pagar por nossos funcionários, equipamentos, materiais, fichas digitais, computadores e tantas outras despesas, além de sustentar nossas famílias e ainda economizar um pouco para pagar por licença por doença, licença-maternidade, aposentadorias e despesas médicas. As mudanças propostas nos regulamentos significam que médicos e outros microempresários não vão mais poder poupar o dinheiro que ganham em contas de pessoa jurídica para sua aposentadoria ou suas próprias emergências médicas.

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Com as mudanças propostas, os médicos canadenses não poderão mais dividir sua renda com seus cônjuges para criar seus filhos. Para muitos médicos, as mudanças impõem escolhas difíceis, como reduzir seus funcionários, equipamentos e horas trabalhadas. Em última análise, significa que terão que atender menos pacientes. Alguns médicos estão se sentindo tão encurralados que estão pensando em deixar a profissão ou mudar-se para outro país.

Essas mudanças vão atingir especialmente as médicas mulheres, já que elas representam uma parcela crescente dos profissionais de clínica geral: 64% dos médicos de medicina familiar com menos de 35 anos são mulheres. As médicas dependem de suas microempresas para lhes garantirem uma licença-maternidade (geralmente de curta duração). Tirar isso delas é um tapa na cara das mulheres que prestam atendimento médico à população no Canadá e forma um contraste nítido com o feminismo ao qual o primeiro-ministro Justin Trudeau declarou apoio – da boca para fora.

Nós, médicos canadenses, financiamos a infraestrutura nacional de saúde com o dinheiro de nossos próprios bolsos.

Tenho duas filhas pequenas, uma que está começando no jardim de infância esta semana e outra que acaba de aprender a calçar os sapatos. Sou a única fonte de renda de minha família. Devido aos anos de nos mudarmos para diferentes cidades para eu fazer faculdade, cursar escola de medicina e fazer a residência médica, meu marido precisou sacrificar suas metas profissionais. A realidade da prática médica significa que não temos opções para cuidar de nossas filhas. Não existem creches disponíveis 24 horas por dia, sendo que eu fico à disposição de meus pacientes dia e noite. A contribuição feita por meu marido, como pai que cuida da casa e dos filhos, é completamente ignorada pelas mudanças propostas aos impostos sobre as pequenas e microempresas. Sustentar homens que ficam em casa para cuidar dos filhos enquanto suas companheiras trabalham pela comunidade é uma mensagem profundamente feminista. O governo não deveria deixar essa mensagem ser perdida.

Como médica, recebo zero benefícios do governo federal: não recebo auxílio-desemprego, não tenho direito a férias, benefícios médicos ou licença por doença, e o governo federal não contribui nada para minha licença-maternidade, seguro por invalidez ou aposentadoria. Trinta por cento de minha receita é gasta com despesas fixas (aluguel, funcionários, papel higiênico, espéculo, telefones, ataduras, luvas e tudo mais, tudo comprado pelos médicos, não pelo governo ou os pacientes). Se eu não puder trabalhar por algum motivo – doença, por estar dando à luz, por uma morte na família – terei que pagar as despesas fixas, mesmo assim. Nós, médicos canadenses, financiamos a infraestrutura nacional de saúde com o dinheiro de nossos próprios bolsos.

Quando você vai ao consultório médico com um pequeno ferimento, o médico que lhe dá os pontos paga pela clorexidina usada como bactericida, a lidocaína que amortece sua dor, a gaze que estanca o sangue, as suturas que fecham o ferimento, os instrumentos que seguram a agulha, a bacitracina que evita infecções, a atadura por cima de tudo, a agulha e seringa que o protegem contra tétano, a folha de papel sobre a qual você se senta, a maca por baixo do papel, os produtos de limpeza para fazer a faxina do espaço quando você sai e o salário da pessoa que faz a faxina. Há também os muitos milhares de dólares pagos pelo privilégio de praticar medicina (taxas de licenciamento, seguro, taxas exigidas por órgãos provinciais, etc).

Não existe "brecha" de impostos. O direito de criarem sua própria pequena empresa foi concedida aos médicos pelo governo canadense no lugar de o governo aumentar a renda dos médicos, para que eles pudessem cobrir esses custos. Os microempresários primeiro pagam impostos de pessoa jurídica e depois os mesmos impostos que todo o mundo sobre sua receita de pessoa física, quando recebem de suas empresas. Por que o governo do Partido Liberal está atacando pequenas empresas que operam legalmente e pagam seus impostos, ao mesmo tempo em que deixa brechas enormes para executivos do setor financeiro de Toronto e oferece anistia à elite milionária que esconde dinheiro ilegalmente em paraísos fiscais e sonega montanhas de dinheiro?

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Há pouco tempo descobri que estou grávida, uma gravidez muito desejada. Mas a alegria de ouvir aquele coraçãozinho bater pela primeira vez foi prejudicada por eu saber que vou poder passar pouquíssimo tempo em casa com meu bebê antes de voltar ao trabalho, porque a mudança nas leis anunciada pelo governo significa que não vou conseguir economizar para me dar licença-maternidade e sustentar minha família. Além disso, durante qualquer tempo que eu ficar sem trabalhar, ainda vou ter que pagar muitos milhares de dólares de despesas fixas de meu consultório. Vou ter que pagar enquanto estiver dando à luz, enquanto estiver amamentando meu bebê e enquanto estiver lavando pilhas de roupa. Poucos meses atrás o governo Liberal disse que "nenhuma mulher no Canadá deveria ser obrigada a optar entre ser mãe e correr atrás do emprego de seus sonhos". Então por que o governo Liberal me está forçando a optar?

Meu medo é que as mudanças que Trudeau e seu governo estão propondo vão acabar com minha capacidade de fazer o trabalho que lutei tanto, por tantos anos, para poder fazer. Todas as noites que passei longe de minhas filhas pequenas enquanto fazia o parto de outras mulheres; todas as vezes que deixei minhas filhinhas chorando na janela enquanto eu abandonava o jantar sem comer e voltava ao hospital para auxiliar numa cirurgia; todas as noites que deixei de colocá-las para dormir enquanto trabalhava na sala de emergências. De que adiantaram todos esses sacrifícios se eu não puder pagar a montanha de minha dívida estudantil, se não puder tirar alguns meses de licença para completar minha família, se não puder economizar para pagar os estudos de meus filhos?

Peço seriamente ao governo que repense as mudanças propostas. O impacto será devastador para inúmeros médicos e pacientes canadenses.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost CA e traduzido do inglês.

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