OPINIÃO

Prazer, eu sou o Kim!

12/01/2016 12:27 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ASSOCIATED PRESS
In this March 18, 2015 photo, anti-government protest leader Kim Kataguiri poses for a picture in Sao Paulo, Brazil. The grandson of Japanese immigrants, Kataguiri is a social media star whose quirky videos skewer Brazil's President Dilma Rousseff and the ruling party’s social welfare policies. (AP Photo/Andre Penner)

Dia desses, fui a uma festa com amigos e, ao passar por um grupo que quase cochichava, ouvi:

"Olha, é aquele cara de extrema direita, o Kim Kataguiri!"

Fui cumprimentá-los. Ficaram um pouco surpresos, mas foram simpáticos. Depois de uma breve trocas de "ois", uma menina me perguntou:

"Poxa, cara, por que você odeia pobres?"

Essa é a imagem que setores da imprensa pintam deste japonês que lhes fala. Imagem que pode ser qualquer coisa, menos verdadeira.

Meu pai já foi garçom, engraxate, entregador de jornal e trabalhou a maior parte da vida como metalúrgico. Hoje, tem 70 anos e está aposentado. Particularmente, eu adoro que ele tenha feito tudo isso. Quem aprende um pouco de tudo pode ensinar um pouco de tudo. Como ele, não sou um gênio em nada. Mas sei um pouco de algumas coisas.

Não debato política como vetor da minha classe de origem. Os esquerdistas devem saber que Lênin era filho de um poderoso funcionário do czar; Trotsky, de um latifundiário, e Stálin, de um sapateiro. Os três cometeram grandes atrocidades, mas todos sabem quem matou mais. Stálin não foi um homicida mais fanático porque oriundo da pobreza, mas porque respeitava ainda menos do que os outros dois a condição humana.

Eu não quero marginalizar os pobres e tornar a educação um privilégio das elites. A educação hoje já é um privilégio das elites. O que eu defendo é o sistema de vouchers no qual, falando a grosso modo, o governo paga bolsas para que famílias pobres possam matricular seus filhos em escolas particulares e, assim, equilibrar as oportunidades. Na prática, é um suposto sonho petista se tornando realidade: o filho do metalúrgico podendo entrar na universidade.

Mais um mito sobre esse Godzilla criado por narrativas governistas: Hitler e Mussolini não são meus heróis. Meu herói é o Goku. Eu quero voar, soltar kamehameha e comer tigelas de arroz. Eu não quero perseguir judeus. Pelo contrário: acho que Israel é um oásis de civilização e tolerância num mar de barbárie e retrocesso.

Também não tenho nada contra negros. A cor da pele é tão relevante quanto a cor do rim. Não sei se perceberam, mas eu sou um japonês preto. Acho bom. Posso tomar sol sem ficar vermelho.

Acho que o Estado não deve definir o que é casamento. Quem acha que o governo deve meter o bedelho na sua vida íntima é fascista. Eu sou um liberal. E isso significa defender que nenhum político encha o saco caso gays decidam se casar.

Se alguém agredir um homossexual, esse alguém deve ser severamente punido, da mesma maneira que seria se agredisse um heterossexual, um bissexual, o Faustão ou a rainha da Inglaterra.

Outra coisa: defendo a República, a tripartição de Poderes. E isso significa que não defendo e nunca defenderei golpes. Na ditadura militar, não havia República. E isso nem é uma opinião, é um fato. Ir para a Paulista e fritar num calor infernal dentro de um coturno e de uma roupa camuflada não vai mudar isso. Republicanos não defendem ditaduras, nem de esquerda nem de direita, seja lá como você defina essas duas posições.

Você pode ser contra intervenção militar e repudiar o PT ao mesmo tempo. Não há contradição. Golpe não se faz apenas com tanque na rua. É possível atentar contra os Três Poderes na base da propina, como no caso do mensalão e do petrolão. Também é possível golpear o Estado e a democracia cometendo fraudes fiscais e estelionatos eleitorais. Utilizar o STF para interferir nas prerrogativas da Câmara dos deputados também é outra forma de golpismo.

Golpe é golpe. A democracia pode morrer tanto pelo cano de uma arma quanto pela tinta de uma caneta.

Aliás, quem defende a dita intervenção militar costuma dizer que recebo dinheiro do PT ou do PSDB. A acusação é de tal sorte patética e absurda que eu só dou risada. Também me divirto lendo textos dos petistas, segundo quem recebo dinheiro de bilionários americanos. Esses dois exemplos só provam que o ridículo não tem ideologia.

Volto para a festa. Continuei conversando com o grupo e explicando todos os pontos de vista que já citei nesse texto. Fui o mais breve e descontraído possível, afinal, era uma festa.

Constantemente, diziam: "Nossa, mas eu nunca vi você dizer isso em lugar nenhum!". Pois é. Dizer, eu digo. Mas, geralmente, só publicam o que contribui para a narrativa petista. E é por isso que costumam publicar mentiras.

Enfim, acabei me tornando amigo do pessoal. Nem todos concordaram com as minhas ideias, mas e daí? A vida não é só política.

Então, da próxima vez que me vir em algum lugar, coleguinha leitor, pode dar um "oi". Apesar do que dizem por aí, estou mais para Jaspion do que para MacGaren.

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