OPINIÃO

Pesquisa feita por fundação do PT mostra que a periferia é de direita

Estudo da Fundação Perseu Abramo feito em São Paulo conclui que mais pobres valorizam individualismo e meritocracia.

28/03/2017 18:51 -03 | Atualizado 30/03/2017 21:06 -03
Getty Images/iStockphoto
Trabalhador brasileiro da periferia valoriza individualismo e busca por ascensão social.

A Fundação Perseu Abramo, do Partido dos Trabalhadores (PT), realizou uma pesquisa qualitativa na periferia de São Paulo para entender a mente daqueles que votaram no partido do ano 2000 até o ano de 2012, mas não votaram nem em Dilma Rousseff em 2014, nem em Fernando Haddad em 2016. O resultado é claro: o pobre paulistano é de direita.

O estudo entrevistou homens e mulheres com mais de 18 anos e renda familiar mensal de até cinco salários mínimos. Além disso, 30% dos entrevistados são beneficiários ou ex-beneficiários de programas sociais, como o Bolsa Família e o ProUni.

Para o espanto da turminha revolucionária, os entrevistados não enxergam uma cisão entre a "burguesia" e a "classe trabalhadora".

Pelo contrário: eles acreditam que patrão e empregado estão no mesmo barco, ou seja, o sucesso de um está ligado ao sucesso do outro.

O conflito visto pela periferia é outro: Estado versus cidadãos. Nas palavras da própria pesquisa, "todos são vítimas do Estado que cobra impostos excessivos, impõe entraves burocráticos, gerencia mal o crescimento econômico e acaba por limitar ou sufocar a atividade das empresas".

A população tem a percepção clara de que paga impostos demais e não recebe nada em troca. Mais liberal do que isso, impossível.

Outro ponto interessante é que o valor mais profundo identificado, com muita clareza, pelos entrevistadores foi a meritocracia.

Os moradores da periferia querem mostrar que, apesar das limitações impostas pela condição social, eles também são capazes. Nada de baboseira rousseuniana: o indivíduo não é mero produto do meio em que vive, mas agente ativo na transformação da sociedade e da própria vida.

Esse pensamento está em absoluta sintonia com as ideias defendidas pelo vereador Fernando Holiday, que é coordenador do Movimento Brasil Livre. O parlamentar, que é negro, nasceu e foi criado na periferia, se posiciona contra as cotas raciais por acreditar que todos podem alcançar o sucesso por meio dos seus próprios esforços.

Ao contrário do que pregam as esquerdas, o pobre não quer viver de muleta estatal. O beneficiário do Bolsa Família não quer viver de programa social para o resto da vida.

Ele tem espírito empreendedor e aspira ascender socialmente por meio do próprio trabalho. Isso não significa defender a ausência do Estado; pelo contrário, o que ele cobra do governo é apenas aquilo que é o seu papel: garantir a segurança e condições mínimas de saúde e educação.

Mas essas condições não devem ser providas por serviços administrados pelo governo. Os entrevistados querem colocar seus filhos em escolas particulares e realizar exames em hospitais privados.

Mais uma vez, notamos absoluta compatibilidade com o liberalismo: o economista liberal Milton Friedman, que recebeu o prêmio Nobel em 1976, defendia o sistema de vouchers, no qual as famílias mais pobres receberiam vales para matricular seus filhos em escolas privadas e para pagarem por convênios de saúde privados. Financiamento público, gestão privada.

Outro ponto importantíssimo é a valorização da família. Para a periferia, a família é, como diz a pesquisa, "o grande alicerce e solução para problemas individuais e coletivos".

Ou seja, há uma evidente identificação com valores defendidos pelos liberais e pelos conservadores, afinal, para a esquerda, a família não passa de uma "construção social".

Mais: a família é identificada como a solução para a crise moral da sociedade. Em meio a uma gigantesca crise de representatividade, ao caos na segurança pública e à corrupção generalizada, tem-se a correta percepção de que essa turbulência social se deve à "presença excessiva de famílias desestruturadas".

Por fim, a pesquisa analisou a importância que a religião tem na periferia. O resultado é cristalino: os mais pobres veem nas igrejas um ambiente de comunidade, de solidariedade, lugares onde podem compartilhar seus problemas e ajudar aqueles que precisam.

Tem-se, então, uma péssima notícia não só para os petistas, mas para todas as esquerdas: a periferia está cansada de discursos demagógicos.

Ela acredita no potencial do indivíduo, defende a família e enxerga o valor da religião. No fim das contas, para que a esquerda brasileira vença as eleições de 2018, precisa deixar de ser esquerda.

Leia aqui a íntegra da pesquisa

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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