OPINIÃO

O Brasil e os vermes

19/12/2015 01:44 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Uma das maneiras mais solertes e detestáveis de mentir é omitir uma informação de forma deliberada. Se a mentira, na sua expressão tradicional -- relatar algo que não aconteceu -- traduz, quase sempre, uma deformação moral, usar a omissão para distorcer a essência de um acontecimento é mesmo coisa de canalhas.

Depois da manifestação de 13 de dezembro, encontrei o cantor Ney Matogrosso numa lanchonete. Pedi para tirar uma foto. Ele topou. Eu o admiro desde que descobri a notável qualidade do trabalho dos Secos & Molhados, de que ele era o vocalista e a estrela.

impeachment

Nasci em 1996. Ney já havia saído do grupo havia 22 anos, tempo superior à idade que tenho hoje. Ouvi o que produziram, disponível no Youtube, e li algumas coisas respeito. Até consegui comprar um LP num sebo...

Fico impressionado que os Secos & Molhados tenham produzido algo com tanta qualidade em plena ditadura, na contramão do autoritarismo e da tosquice que tomaram conta do Brasil, à direita e à esquerda. Também foram um exemplo raro de trabalho de vanguarda que caiu no gosto popular.

Por isso tudo, pedi para tirar a foto e postei a imagem com a seguinte legenda: "Depois da manifestação de ontem, encontrei um grande ídolo e defensor do impeachment: Ney Matogrosso".

Quando Ney aceitou fazer a foto, eu usava uma camiseta amarela com a inscrição: "#Esse impeachment é meu".

Eu não estava inventando nada. Publiquei junto o link da entrevista que Ney concedera ao El País Brasil dois meses antes, dizendo-se favorável ao impedimento deDilma Rousseff.

Blogs petistas, especialmente aqueles que querem representar uma juventude hipster "paz e amor", mas também os vendidos às estatais, estão espalhando por aí uma foto cortada, adulterada, em que a inscrição na camiseta desaparece, na melhor pior prática stalinista, e ainda me acusam de mentir sobre o apoio do artista ao impeachment de Dilma. Também omitem o link da entrevista do artista ao El País.

Na entrevista, Ney vai além de expressar seu apoio ao impeachment. Chama ainda o governo de "ridículo" e arremata: "Toda essa gente tem que ir para a cadeia. Você não pode deixar no poder um governo que saqueia o país".

É claro que eu concordo com o Ney que deu a entrevista ao El País.

Segundo a blogosfera petista, depois que a foto começou a circular, o cantor me desmentiu e ainda me chamou de "imbecil".

Se Ney passou a ser contra o impeachment, então desmentiu a si mesmo, não a mim. Em nenhum momento eu disse que havia conversado com ele a respeito.

Apenas fiz referência a uma entrevista na qual ele havia se posicionado a favor.

Se é verdade que me chamou de imbecil, fazer o quê? É o Ney Matogrosso, oras! Pode dizer o que quiser.

Se ele mudou de ideia sobre o impeachment, então mudou de ideia. É um direito. Nunca coloquei palavras na sua boca. E não deixarei de admirar as que dela saíram no passado: "Um verme passeia na lua cheia..." No Brasil contemporâneo, há sentidos múltiplos aí.

Em suma, não fui desonesto porque nunca sou. Apenas lembrei uma opinião que ele deu há meros dois meses.

Pessoas públicas estão sujeitas a que o público lembre o que disseram e o que pensam. Ou dizem pensar.

Se eu pedir para tirar uma foto com Caetano, e se ele topar, não há incorreção nenhuma se eu publicar a foto com a seguinte legenda: "Eu ao lado de Caetano. Às vezes, ele se sente 'um liberal inglês'".

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