OPINIÃO

Adiantou ter derrubado Dilma Rousseff?

Desde a queda do PT, a inflação caiu drasticamente, a taxa de juros está em queda e há perspectiva de drástica redução no desemprego.

17/04/2017 01:54 -03 | Atualizado 17/04/2017 02:08 -03
Nacho Doce / Reuters
Protesto de 13 de março de 2016 antecedeu aprovação de prosseguimento de impeachment de Dilma na Câmara.

17 de Abril de 2016. Por 367 votos a 137, a Câmara dos Deputados considerou admissível a denúncia contra a presidente Dilma Rousseff. Apesar dos ataques do governo, de setores da imprensa e – até os 45 do segundo tempo – da oposição, os esforços de mais de um ano de manifestações gigantescas, de uma marcha até Brasília, de um acampamento em frente ao Congresso Nacional e de uma verdadeira operação de guerra para pressionar deputados e senadores havia finalmente dado resultado. Hoje, faz exatamente um ano desde a grande vitória que levou ao impeachment de Dilma. Será que valeu a pena?

Vamos lembrar dos rumos que o País tomava durante o último governo petista. Após a histórica manifestação do dia 15 de Março de 2015 – na qual, é importante ressaltar, apenas o Movimento Brasil Livre defendia o impeachment, sem o apoio de outros movimentos e muito menos da oposição –, os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria-Geral) participaram de um pronunciamento oficial no qual disseram que as manifestações atestaram o estado de "normalidade democrática" do Brasil e que, em resposta, o governo lançaria um "pacote anticorrupção".

Na época, a Operação Lava Jato estava revelando o protagonismo do PT no petrolão. O partido institucionalizou um esquema de assalto aos cofres públicos para submeter o Legislativo ao Executivo, ou seja, acabar com a tripartição do Poder e governar praticamente sem oposição. Isso é justamente o contrário de um estado de "normalidade democrática", é uma ditadura da propina.

Tratou-se de uma nova versão do mensalão, mas na casa dos bilhões de reais. Como bem diz o ministro do Supremo Gilmar Mendes, se o Mensalão fosse julgado hoje, iria para o juizado de pequenas causas.

Parece piada, mas, no explodir do mensalão, Lula fez a mesmíssima coisa que Dilma: lançou um "pacote anticorrupção".

Além disso, o tripé macroeconômico dos governos petistas – gasto público, bancos e empreiteiras – estava aumentando a miséria, a desigualdade social, o desemprego, e corroendo o poder de compra da população, principalmente dos mais pobres.

2015 fechou com uma queda de 3,8% do PIB, taxa de desemprego de 8,5% -- que, posteriormente, aumentou ainda mais – e uma monstruosa inflação de 10,67%, a maior desde 2002.

Apesar da narrativa governista de que era tudo culpa da "crise internacional", no mesmo período, a maioria dos países da América Latina cresceu e melhorou a qualidade de vida de seus cidadãos.

Estávamos nos tornando uma Venezuela. O Judiciário e o Ministério Público fechavam os olhos para as atrocidades cometidas pelo governo, o Legislativo estava quase que absolutamente comprado e o Executivo estava nas mãos do PT. Faltava liberdade econômica, faltava liberdade política, faltava... liberdade.

Quem foi às ruas pelo impeachment impediu que o Brasil tivesse um destino trágico. Apesar daqueles que berram aos quatro ventos que um processo previsto na Constituição, com rito definido pela Corte Constitucional e votado pelo Congresso é "golpe", o fato é que as manifestações de 2015 e 2016 fortaleceram a nossa democracia, salvaram a nossa economia e nos deram uma perspectiva de futuro. Todos que participaram desse processo devem se orgulhar disso.

Outra narrativa absolutamente esdrúxula que acólitos do petismo tentam difundir é a que de o impeachment fez a corrupção aumentar e concedeu o poder para o verdadeiro responsável pelos assaltos aos cofres públicos: o PMDB.

Ora, todos os escândalos que estão sendo revelados pela Lava Jato ocorreram durante os governos petistas, quando somente Lula e Dilma tinham a chave do cofre. Sem a anuência deles, nenhum partido conseguiria roubar um centavo sequer da Petrobras. O PMDB e os outros partidos da base foram meras linhas auxiliares do projeto de poder do PT.

Desde a queda do PT, a inflação caiu drasticamente, a taxa de juros é significativamente cortada a cada reunião do Copom, há, com a cada vez mais próxima aprovação da reforma trabalhista, a perspectiva de uma drástica queda no desemprego, e o País voltou a crescer.

Hoje, o presidente da República faz de tudo para não transgredir a lei. Não porque seja honesto, mas porque sabe que a população está atenta e que, apesar de, devido ao parágrafo 4º do artigo 86 da Constituição, não poder ser investigado por atos estranhos aos exercícios de suas funções – como crimes que pode ter cometido durante os governos petistas –, pode ser derrubado caso cometa algum crime enquanto ainda for presidente.

Além disso, vários ministros do governo Temer envolvidos na Lava Jato caíram – não devido à virtude do presidente, mas em razão da pressão popular –, enquanto que no governo Dilma, Lula quase foi nomeado ministro-chefe da Casa Civil para garantir foro privilegiado para si e articular contra a Lava Jato.

A Lava Jato, aliás, segue firme e forte, investigando, como deve, políticos dos principais partidos: PT, PP, PMDB, PSDB, DEM, PSC etc.

Apesar do inegável saldo histórico e positivo do impeachment, é importante prestar atenção para o fato de que as condições para que outro petrolão aconteça ainda estão aí. Não importa quem esteja no poder, enquanto o governo mantiver monopólios estatais, como a Petrobras (e, portanto, completamente suscetíveis a negociatas), e utilizar burocracia para proteger oligopólios privados, como fez com a Odebrecht e outras empreiteiras, partidos que alcançarem o poder poderão fazer esquemas idênticos ou até maiores.

A Lava Jato não é -- e nem deve ser – uma instituição. Ela, por si só, não representa uma mudança estrutural no País; afinal, como toda investigação, tem começo, meio e fim. Se não promovermos mudanças profundas nas nossas instituições, daqui a dez anos políticos já terão se esquecido da operação e do impeachment e se sentirão confortáveis novamente para executar outros petrolões.

O impeachment não resolveu todos os problemas do País porque nada é capaz de fazê-lo. Não existe solução mágica. A luta pelo fortalecimento da República e pelo fim da pobreza é árdua e ainda vai durar algumas dezenas de anos. Apesar disso, sem você, caro leitor, que lutou pelo impeachment, ela não teria sequer começado.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

LEIA MAIS:

- 'Impeachment não resolveu crise e resultou em governo desastroso', diz José Eduardo Cardozo

- Governo Temer decepcionou, avaliam senadoras do PMDB um ano após impeachment na Câmara

Protestos pró-impeachment