OPINIÃO

Eu odeio Donald Trump, mas votei nele: Eis o porquê

05/12/2016 12:51 -02
Ty Wright via Getty Images
CINCINNATI, OH - DECEMBER 01: President-elect Donald Trump speaks during a stop at U.S. Bank Arena on December 1, 2016 in Cincinnati, Ohio. Trump took time off from selecting the cabinet for his incoming administration to celebrate his victory in the general election. (Photo by Ty Wright/Getty Images)

No dia da eleição, acordei completamente incerta sobre meu voto, até mesmo se iria votar. Lembro de pensar que preferiria morrer a votar em Donald Trump, mas Hillary Clinton não era uma opção para mim. Sabia que votar em um dos partidos independentes seria jogar o voto fora, então tinha de escolher entre republicanos ou democratas.

No caso de Clinton, tenho fortes convicções morais contra corrupção política, e ela tem um longo histórico disso. Ela estava disposta a fazer o que fosse necessário para ganhar, e sua campanha foi financiada de alguma maneira pelos grandes bancos, a grande mídia e corporações.

Os números mostram a verdade. Por mais que queira ver uma mulher na Presidência, não seria Hillary Clinton. Me coloquei em situações de risco várias vezes combatendo a corrupção empresarial, e uma vez perdi o emprego por defender dezenas de funcionários.

De maneira nenhuma votaria nela e iria contra minha moral; muitas das políticas dela são contra todas as fibras do meu ser. Por outro lado, como vítima de ataque sexual, votar em Trump seria como votar em todo homem que me degradou. As palavras que saíam da boca dele me lembravam da minha dor.

Nunca achei que Trump fosse tão ruim como pintado pela mídia, mas não votaria em um homem que me lembrava todos os homens que já me machucaram.

Sabia que tinha de votar. Abster-me não era uma opção, mas estava muito dividida. Decidi fazer o que sei melhor como professora espiritual e coloquei a decisão nas mãos de Deus. Meditei e orei, evitando todo julgamento e verdadeiramente ouvindo a voz de Deus.

Sabia que minha dor pessoal e meus julgamentos não deveriam afetar a escolha que eu estava fazendo para o futuro deste país. Também sabia que Deus tomaria a decisão correta. Quando terminei de meditar, ouvi uma voz dizendo:

"Você tem de votar contra a corrupção; você tem de votar contra o sistema atual". Meus primeiros pensamentos foram: "OK, vou votar em Jill Stein ou escrever Bernie". Foi então que a voz suave, mas urgente, disse: "Você tem de votar contra o sistema".

Não conseguia reconciliar essa ideia com minhas crenças: "Você quer que eu vote em Donald Trump? Jamais!"

Foi então que a voz amorosa que me guia diariamente me levou ao meu carro e à igreja St. Mary, para fazer o impensável: votar em Donald Trump.

Saí de lá me sentindo livre. Me senti corajosa por contrariar a maioria e votar no homem odiado por metade do mundo, incluindo eu mesma, no dia anterior.

Parecia que estava recebendo um chamado para perdoar todo homem que me magoou, a fim de me curar. Minha cabeça estava um turbilhão. Será que tinha acabado de votar na próxima Guerra Civil?

Mas alguma coisa dentro de mim me dava esperança, como se houvesse um plano muito maior do que eu pudesse imaginar, algo que tinha me levado para a seção eleitoral naquele dia. Sabia no fundo da minha alma que estava agindo de acordo com minhas convicções, mas parte de mim achava que ele não tinha a menor chance de ganhar.

Naquela noite, fui para casa para assistir a cobertura na TV e, para minha surpresa, Trump estava vencendo. Enquanto metade do mundo vivia momentos de terror, senti uma paz enorme, sabendo que Deus estava no controle e que tudo estava na ordem divina. Fiquei acompanhando os resultado, sentindo meu propósito como professora espiritual se multiplicar a cada segundo.

Não consegui dormir aquela noite, pois tanto ódio e raiva de ambos os lados cobraram seu preço. O mundo parecia dividido. Senti meu propósito crescendo, sabendo que este seria o maior ponto de inflexão da história deste país e que eu teria de ser uma ponte em um mundo dividido. Passei os dias seguintes conversando com Deus e assistindo a fúria que se desenrolava na internet. Decidi parar de acreditar em tudo o que ouvia e me apoiei em meus sentimentos.

Me perguntei repetidas vezes por que isso estava acontecendo. E essa foi a resposta:

Esta eleição trouxe para a superfície nossa dor coletiva, não para causar mais dor, mas sim para curar. Para curar o mundo, temos de trazer todas as questões para a superfície. Esta eleição não deixou nada de fora.

Nossas questões coletivas relacionadas a racismo, sexismo, empregos, economia, corrupção e todo o resto são inevitáveis. Perante os olhos de Deus, um lado não é mais educado ou está mais certo ou mais errado. O problema é a divisão.

Quando as pessoas escolhem um presidente, escolhem baseadas o que lhes causa dor. O mineiro da Virgínia Ocidental não votaria da mesma maneira que a mulher preocupada com direitos reprodutivos. Suas dores não são as mesmas e, em alguns casos, sorte nossa que é assim. Não nos cabe julgar ou condenar, mas sim ouvir e respeitar o ponto de vista das outras pessoas.

Se seu tio votou em Donald Trump e você faz parte da comunidade LGBTQ, isso não significa que seu tio não te ame; significa que seu tio tem um medo em que Donald Trump tocou. Ninguém está votando para te machucar; estão votando para se ajudar ou para cuidar de suas próprias famílias. A mídia joga com essas inseguranças em nome de uma agenda do sistema.

Infelizmente, as mesmas pessoas que se sentem na mira de Trump também estão na mira dos líderes desse sistema corrupto. Tenha cuidado em relação ao que compra.

A única pessoa que entende a dor coletiva do mundo é Deus. Você nunca será capaz de entender os problemas ou medos de outra pessoa, e criticá-los te torna tão mau quanto Trump. Chamar de ignorante, racista e outros termos negativos uma pessoa que você não conhece nunca te trará paz.

A responsabilidade precisa ser colocada de novo na população. As pessoas precisam usar seus dons e talentos únicos, em vez de depender de um sistema corrupto. A única maneira de fazê-lo é arrasar o sistema e passar a responsabilidade da cura do planeta para as pessoas.

O sistema de governo atual só aumenta o governo, e aumenta sua dependência do sistema. Quanto mais você depende do governo, menos depende de Deus.

De certa maneira, esse processo todo parece o Julgamento Final. Não estou dizendo de maneira nenhuma que Donald Trump tenha sido escolhido para salvar o mundo, então não distorça minhas palavras.

Estou dizendo que os eventos durante a campanha e depois da eleição são exatamente o que precisamos para destruir o sistema. Donald Trump tem as mesmas escolhas que nós. Ele pode escolher criar ódio e divisão, ou então escolher ouvir a população americana e uni-la.

Posso assegurar-lhe que não votei porque sou racista, homofóbica ou o que você quiser me chamar. Votei pela cura deste mundo, e a única maneira de fazê-lo é trazer a escuridão para a luz; então aqui estamos. Quando votei em Trump, votei em você. Todos vocês. Para defender suas posições.

Para assumir responsabilidade pela sua vida e para parar de depender de qualquer sistema, especialmente um sistema corrupto, para escolher seu destino. Não sei aonde vamos, e as coisas podem piorar antes de melhorar, mas de uma coisa tenho certeza: este momento histórico será visto como a época em que a população dos Estados Unidos se ergueu das cinzas e acendeu o amor do mundo.

Todos temos uma escolha a fazer hoje. Podemos procurar culpados, escolher o ódio e xingar, ou então podemos buscar a mudança. Sei o que escolhi.

Como se disse de forma eloquente certa vez: "O planeta não precisa de mais gente 'bem-sucedida'. O planeta precisa desesperadamente de mais gente de paz, curadores, restauradores, contadores e histórias e amantes de todos os tipos.

Precisa de gente que viva bem em seu lugar. Precisa de gente com coragem moral disposta a participar da luta para tornar o mundo um lugar habitável e humano, e essas qualidades têm pouco a ver com sucesso, como ele é entendido em nossa cultura". Precisamos de compaixão.

Não temos de romper o teto de vidro; temos de romper o sistema. É hora de todos nós nos levantarmos.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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