OPINIÃO

O sorriso da Monalysa que incomoda

Mesmo coroada como Miss Brasil, Monalysa Alcântara foi chamada de empregadinha por sua cor de pele.

28/08/2017 20:14 -03 | Atualizado 29/08/2017 11:38 -03
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E o terceiro é o caso da Miss Brasil Monalysa Alcântara que, mesmo coroada, foi chamada de "empregadinha".

Tenho a sensação que não sabemos ou não queremos saber o que é de fato o racismo. De vez em quando, vemos alguém se referir a um crime racial como bullying, preconceito ou até brincadeira.

Me tornei ativista social há, mais ou menos, 25 anos e posso afirmar que 90 % das pessoas que já me entrevistaram para falar desse assunto começam a entrevista com a seguinte pergunta : " você já sofreu racismo no Brasil?". Logo em seguida, pedem para que eu conte um caso de racismo que já tenha sofrido ou presenciado.

Eu sinto uma frustração nesse momento. Sempre acho que a terceira pergunta vai ser quem descobriu o Brasil e já fico com a resposta certa na ponta da língua : "Pedro Álvares Cabral", para não causar polêmica.

Me perguntar se eu já fui vítima de racismo, num país onde essa ideologia é institucionalizada é o mesmo que perguntar se existe violência doméstica, sabendo da existência da Delegacia da Mulher e a Lei Maria da Penha.

Na última semana, acompanhei três casos de racismo que me chamaram a atenção. O caso do ator Jonathan Azevedo, discriminado por uma internauta que diz que o único personagem que lhe cai bem é o de traficante.

Em uma segunda situação, uma outra internauta disse "desculpa, sociedade, mas eu tenho nojo de 70% da população que mora em comunidades. Não é discriminação nem racismo, é só pelo fato da ignorância de certas pessoas".

E o terceiro é o caso da Miss Brasil Monalysa Alcântara que, mesmo coroada, foi chamada de "empregadinha".

Na terceira Marcha das Mulheres Negras, eu presenciei uma cena que me chocou muito. Uma imagem me chamou a atenção na janela de um condomínio na praia de Copacabana. Era domingo, meio dia, sol quente e uma senhora negra, de uniforme branco pra não ser confundida, estava na janela saudando a marcha. E aí, você me pergunta: mas qual é o problema? Ela estava trabalhando...

Trabalhar não é a questão. No Brasil, mais de 60% das trabalhadoras domésticas são negras, o equivalente a seis milhões de mulheres nessa função. Insistimos no mito da democracia racial, ignorando totalmente o poder da mídia social, a velocidade da informação, da tecnologia...somos patéticos.

Por quê? Porque quando paro para ver a mídia estrangeira, sinto tristeza pela nossa mediocridade. O mundo sabe que o Brasil é racista e não adianta se esconder. Mulheres negras não desfrutam dessa democracia.

A prova disso é o concurso Miss Brasil, que foi fundado em 1954 e, até hoje, só elegeu três negras. Monalysa é a terceira Miss Brasil negra da história. O concurso elegia, costumeiramente, moças da sociedade brasileira tradicional da época. Ou seja, brancas, cristãs e heterossexuais. O Brasil ficou 30 anos sem ter uma representante negra. Isso te diz alguma coisa?

Se fizermos algumas continhas, chegaremos rapidamente à seguinte conclusão: não eleger negras é uma atitude racista, sim. Manter o negro fora da esfera econômica do País é um dos principais objetivos dessa ideologia.

Pela primeira vez, a busca por cabelos crespos no Google foi superior ao de cabelo liso. E, além disso, nos últimos dois anos, o aumento na procura por cabelos afros aumentou mais de 300% . Pois é, acho que essa informação, além de sinalizar o crescimento da auto-estima da mulher negra e empoderamento negro feminino, agrada à rica indústria da beleza. Afinal, essa indústria fatura muito no Brasil porque somos o terceiro maior consumidor de produtos de beleza no mundo.

Tá entrando muito dinheiro de "empregadinhas" nesse mercado, não é mesmo? A relação da população com o dinheiro é o que me interessa nesse debate. Não diga em que lugar as mulheres negras devem estar, por favor. Somos consumidoras da beleza e, por isso, temos o direito e dever de representá-la.

Mas por que será que ver uma mulher negra fora da cozinha e do serviço doméstico incomoda tanto? Quando afirmamos que todas as mulheres negras amam o serviço doméstico e que isso talvez seja um fator genético referente a esse grupo social, estamos declarando o nosso racismo. Raça e gênero não definem habilidades e faculdades. Definir a habilidade e capacidade intelectual de um indivíduo a partir de sua raça é RACISMO.

Além de pensarmos novas políticas para uma educação anti-racista é necessário, também, entender o feminismo negro urgente. Mulheres brancas ainda vêem nas mulheres negras a sua tábua de salvação. Ao longo da história do feminismo, mulheres negras não foram incluídas neste movimento. Mulheres brancas precisavam de alguém para cuidar da casa e dos seus filhos para que elas ocupassem os espaços de poder.

Outro dia assisti ao depoimento de uma feminista acadêmica branca e fiquei chocada. Ao falar da romantização da maternidade, ela citou uma época do Brasil colonial e patriarcal em que as mulheres, quando não queriam ser mães, podiam com facilidade burlar o tal instinto maternal. Bastava entregar a criança para a ama de leite. Não seria a "ama de leite" também uma mulher ? Isso é perpetuação da desumanização da mulher negra.

Como defensora da luta pela igualdade de gênero, sugiro que façamos o exercício da humanização da mulher negra. A sociedade civil brasileira precisa se incomodar com o nosso existente e invisível apartheid. Monalysa Alcântara representa um grupo étnico social que tem o cabelo mais procurado segundo o maior site de busca do mundo. Esse grupo consome mais de R$ 1,5 trilhão por ano. Como 54% da população brasileira é negra, é no mínimo ignorância desrespeitar meninas com a cara e o sorriso da Monalysa.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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