OPINIÃO

O que precisamos falar para os homens

Eles podem fazer muita coisa pela igualdade de gênero, pelas mulheres e por eles mesmos.

31/10/2017 19:48 -02 | Atualizado 31/10/2017 19:48 -02
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Na foto, o modelo Matheus Dias, filho da articulista, posa com a namorada, Julia Menezes.

Homem não chora, não usa roupa rosa, não brinca com boneca, não lava a louça.

Meninos passam a infância inteira ouvindo que precisam fazer coisas de "macho" para aprender a ser homem, enquanto meninas precisam ser sensíveis, prendadas e mães.

É preciso educar as crianças para que tenhamos uma sociedade livre de sexismo, em que meninos e meninas tenham os mesmos direitos e deveres. Esse é o caminho para conquistarmos uma sociedade mais justa e livre de violência.

Sou mãe do Matheus, de 21 anos, e da Gabriela, de 18. Sempre procurei educá-los sem sexismo. Desde bem cedo, coloquei meu filho e minha filha para realizarem todas as atividades juntos: dança, futebol, luta, música, tricô, crochê, bordado. Tudo que uma fazia, o outro fazia também.

Fui muito questionada sobre a forma que escolhi para educar meu filho e minha filha por várias pessoas que eu conheço. Afinal, não falávamos com tanta liberdade sobre igualdade de gênero há 20 anos. O que mais chocava as pessoas era saber que eu condenava (e condeno) educação com castigos físicos.

Aqui, a conversa sempre foi olho no olho. Nunca os parabenizei por tirar boas notas na escola. Sempre deixei as camisinhas acessíveis, numa gaveta de remédios, na intenção de despertar uma curiosidade natural sobre o que seria aquilo. Falei sobre sexo. Falei sobre drogas, todas elas, principalmente o álcool que é a única legalizada e de facílimo acesso, não é?!

Em certo momento, decidi colocar Matheus para fazer tricô. E tive que lidar com a "preocupação" de alguns amigos e amigas sobre o risco que meu filho estava correndo, pois poderia "virar" homossexual. "Tricô é coisa de mulher"; "você não tem medo? "; "um negão desses fazendo tricô".

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Aliás, o fato de Matheus ser um menino negro potencializava a indignação das pessoas. Negro não pode ser delicado, sensível... Que dirá fazer tricô! É aquela mesma lógica de que mulheres negras são fortes, independentes e resistentes e, por isso, não precisam ser amadas. É a desumanização do corpo negro, como se ali não houvesse a possibilidade de sentimentos, de delicadeza e sensibilidade.

No auge de seu delírio homofóbico e sexista, um amigo disse que eu era louca de fazer aquilo com meu filho. Argumentou que eu o estava criando para apanhar de mulher e que ele iria sofrer quando crescesse por conta do seu comportamento "estranho". Até hoje não entendi e não quero entender o que ele queria dizer com ''comportamento estranho''.

Hoje, Matheus é modelo e estudante de Biomedicina. E gosta de gente! Namora uma menina linda e preta, Julia Menezes. Mas e daí se amanhã ele gostar de meninos? A decisão é dele. Tenho certeza que não teria nenhuma relação com as aulas de trabalhos manuais que ele fez quando criança, certo?

Devemos pensar em uma educação menos sexista para os nossos filhos e filhas. Não porque é legal ser "politicamente correto", mas para promover igualdade entre homens e mulheres e desconstruir o machismo que é danoso e impede a existência de uma sociedade verdadeiramente justa.

O machismo está muito presente nas nossas vidas, e todos e todas perdemos. Por lei, as mães têm direito a licença maternidade entre quatro e seis meses. Os pais, ainda que tão responsáveis quanto elas pela educação dos filhos e filhas, podem se ausentar do trabalho entre cinco e 20 dias, como está previsto na CLT.

Nos espaços públicos, é mais comum encontrarmos fraldários e trocadores nos banheiros femininos. É como se a criação das crianças fosse responsabilidade única e exclusiva nossa - das mulheres.

Há uma semana, a atriz Juliana Alves deixou sua filha recém-nascida, Yolanda, sob os cuidados do pai, para cumprir uma agenda de trabalho. Juliana foi duramente criticada nas redes sociais, fato que a levou a publicar um texto sobre o assunto.

O que acontece é que as pessoas não conseguem entender que o pai tem o dever de participar da criação da filha ou filho. Há momentos em que chegam ao ponto de perguntar pela mãe da criança, quando encontram o pai cuidando do filho sem a presença de uma mulher.

É sempre da mulher a responsabilidade de cuidar, abrir mão da vida pelos filhos, pela casa.

Certa vez, um amigo deixou de me avisar que eu tinha sido aprovada para uma excelente vaga de emprego em São Paulo. Durante muito tempo, fiquei péssima por não ter conseguido aquele trabalho que eu tanto desejava, queria muito a vaga. Eu estava desempregada e querendo voltar ao mercado de trabalho.

Após um ano, durante um bate-papo, esse amigo me revelou que, na época, ele não quis me contar sobre a vaga, porque eu estava recém-casada e o emprego podia acabar com o meu casamento. Eu fiquei muito revoltada, e ele indignado com minha revolta, claro! Imagina, ele só queria me proteger, proteger o meu casamento. Que ingratidão a minha.

A publicidade sugere diariamente que lugar de mulher é servindo a família, de preferência com um sorriso no rosto, mesmo se estiver infeliz. Parece que temos a missão de transmitir o amor e a felicidade o tempo todo, sem egoísmo, sem estresse, sem TPM, dopada e embriagada de felicidade sempre. Até o mundo acabar em amor e muitos corações de nuvens no céu.

Investem em propagandas nas quais, na maioria das vezes, propõem que realizar os serviços domésticos é praticamente uma prova de amor. Tanto que frases recorrentes das propagandas de leite em pó e derivados do leite, por exemplo, são "quem ama cuida", "uma família feliz", "igual carinho de mãe". Mas ficar servindo e levando leitinho na cama não tem nada a ver com amor. Eu não preciso servir o prato do meu filho (e não sirvo) para ele ter certeza que o amo.

Se quisermos realmente uma sociedade livre de violência motivada pelo sexismo e pelo machismo, vamos precisar caminhar juntos e juntas.

E aí eu te pergunto: você sabe quantas vezes seu filho lavou a louça, brincou com meninas e com "brinquedos de meninas"? Já perguntou se ele gosta de camisa rosa antes de oferecer a azul? Já impediu que ele fizesse aulas de balé? Já se decepcionou porque ele não gosta de UFC?

Criança precisa fazer coisa de criança para aprender a ser gente. Elas precisam do mundo encantado com todas as cores do arco-íris. Não temos o direito de limitar as cores do mundo de uma criança. Aceite e respeite o arco-íris. Como diz Mãe Rosa, "Yakekere do Ilê Opô Aganjú" (a criança vai aonde o adulto não pode ir).

Uma das perguntas que os homens mais me fazem é: o que podemos fazer pelas mulheres?

Eu sempre lhes digo para se preocuparem mais com a roupa lavada, a comida pronta, os cadernos das crianças revisados, em tirar o lixo, trocar a fralda, dar banho, pentear o cabelo da menina, levar a menina no futebol, ir nas reuniões da escola dos filhos, acordar de madrugada porque o menino tá com 39 graus de febre, conversar com a menina sobre sexo da mesma forma que se conversa com o menino, pagar a pensão em dia. Não esperar palmas e troféu toda vez que fizer a sua parte nos serviços domésticos ou quando pegar as crianças na escola, nunca dizer "eu ajudo a minha companheira nas tarefas domésticas da casa que eu moro". Entender de verdade que você não ajuda quando paga a pensão do seu filho ou filha.

Os homens podem fazer muita coisa pela igualdade de gênero, pelas mulheres e por eles mesmos. Comece assumindo seus deveres. Se a gente conseguir vencer essa etapa, já resolve muita coisa. Topa?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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