OPINIÃO

'Revolução da Expectativa' causa nervosismo no Chile, na Turquia e no Brasil

22/02/2014 09:30 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02

WASHINGTON -- A economia mundial está iniciando 2014 com sinais ainda ambíguos, mas que se tornam mais positivos para o curto prazo.

Houve algumas boas notícias. Em 2013, a economia americana cresceu mais do que as projeções consensuais haviam previsto. A China desacelerou um pouco na metade do ano, mas logo retomou o crescimento.

Na Europa, o Reino Unido finalmente começou a sair da recessão e houve uma retomada do crescimento, embora muito lenta, mesmo na zona do euro. As preocupações com as dificuldades generalizadas dos mercados emergentes que surgiram na esteira do sinal hesitante do Fed (Banco Central dos EUA) de probabilidade de queda em maio dissiparam-se na medida em que o Fed posteriormente esclareceu que a queda seria muito gradual. Em 18 de dezembro, esta abordagem bem gradual e cautelosa foi confirmada na ultima reunião do Fed presidida por Ben Bernanke. Ao contrário do que aconteceu em maio, os mercados globais reagiram positivamente. Acredito estar claro que realmente ocorrerá uma normalização gradual da política monetária dos EUA e, além disso, que essa normalização em si não vai criar grandes problemas para as economias avançadas ou emergentes.

Observando o cenário do ponto de vista das economias emergentes e em desenvolvimento, portanto, não deveríamos superestimar o problema de curto prazo que as taxas de juros em crescimento lento e a liquidez em queda gradual podem gerar. "Lento" e "gradual" são as palavras-chaves neste contexto. Mudanças repentinas podem acabar sendo desastrosas. No entanto, é improvável que as autoridades monetárias das economias avançadas permitam mudanças repentinas e ainda tenham os meios para garantir o gradualismo, particularmente se atuarem em conjunto. Uma crise potencial sobre a qual todos falam e procuram simular com muita antecedência geralmente não se transforma em crise. Isto não significa que alguns poucos países específicos com altíssimos déficits na conta corrente e baixas proporções entre reservas e dívida externa em curto prazo não possam apresentar problemas sérios.

No entanto, há outros problemas mais estruturais que os países emergentes terão que enfrentar e estes problemas estão disseminados. Esses novos desafios resultam das rápidas mudanças sociais ocorridas nas últimas duas décadas. São também produto da revolução das mídias sociais nos últimos anos.

O rápido crescimento das duas últimas décadas ocasionou o surgimento de uma classe média ou "quase média" considerável e, ainda assim, vulnerável em países como China, Índia, Brasil, Turquia, Chile e muitos outros. Centenas de milhões de pessoas conseguiram sair da pobreza e entrar na era moderna de consumo.

Carros, pequenos apartamentos, iPads e iPhones, além de pequenas férias longe de casa, tornaram-se mais que um mero sonho. No entanto, as receitas das famílias ainda são baixas e muitas delas só conseguiram obter esses produtos de "classe média" se endividando. Como a dívida do setor público em geral declinou, o uso do cartão de crédito pessoal e as hipotecas de médio prazo aumentaram rapidamente.

De maneira um tanto paradoxal, a maior estabilidade macroeconômica e menor dívida soberana incentivaram os empréstimos privados. No entanto, a dívida resultante é sustentável para as famílias apenas se sua receita disponível continuar crescendo rapidamente. Para uma família que teve crescimento de receita de 6% ao ano durante vários anos e aumentou seu coeficiente entre dívida e renda disponível de 10% para 40% ou 50%, uma desaceleração no crescimento da receita para, digamos, 2% ao ano poderia levar a sérias dificuldades, ao aumentar o coeficiente entre o serviço da dívida e a renda, de forma a exigir cortes de consumo, apesar da receita ainda em crescimento. Quando aumentam as taxas de juros reais, o problema se agrava.

A economia política de muitos países emergentes é tal que a estabilidade social exige crescimento rápido continuado. Em muitos países, uma desaceleração, mesmo que modesta de acordo com os padrões históricos, poderia criar problemas de sustentabilidade da dívida no setor familiar, com maior impacto nos setores financeiros. O fenômeno torna-se mais grave e premente pela "revolução da expectativa", incentivada pela tecnologia moderna de comunicação e o potencial de mobilização das massas possibilitado por essa tecnologia.

As sociedades em que a desigualdade de riqueza e renda é particularmente grande parecem especialmente vulneráveis à mobilização das massas do tipo que observamos em 2013, em países tão diversos como Chile, Brasil e Turquia, os quais têm dos maiores coeficientes de Gini do mundo (medida resumida da desigualdade em determinado ponto no tempo). Esses três países são muito diferentes, mas em cada caso os jovens e parte das novas e ambiciosas classes médias foram às ruas para pedir mais respeito, igualdade, menos corrupção e maior poder de opinião. Nos dois gigantes, Índia e China, também fica claro que, contanto que o crescimento seja muito rápido, as tensões sociais e as expectativas dos jovens poderão ser controladas. Se e quando o crescimento desacelerar em dois ou três pontos percentuais, a decepção e o descontentamento poderão se desenvolver rapidamente.

É esse o motivo pelo qual há grandes desafios pela frente para as economias emergentes. Para evitar pressões sociais e políticas sérias, o crescimento precisa ser não apenas rápido, mas também amplo e justo, no sentido de que, quando há aumentos de receita significativos para alguns acompanhando o crescimento rápido, estes aumentos devem ser percebidos como merecidos pelo esforço e a geração de empregos, e não como resultado da exploração de rendas ou de favores políticos.

De fato, acredito que o crescimento poderá continuar rápido, contanto que seja alavancado por uma nova onda de reformas focadas na atualização de técnicas, na administração pública transparente e mais eficiente, além da ênfase renovada à construção de infraestrutura para a economia do conhecimento do século 21. Não acredito que o potencial de crescimento "de recuperação" esteja quase exaurido, embora não seja tão fácil de alcançar, como no tempo em que a indústria manufatureira tradicional era o principal canal de aumento da produtividade.

Haverá muitas oportunidades para se chegar mais perto da tecnologia das "melhores práticas" em todos os setores da economia, inclusive recuperação interna, com as empresas menos eficientes caminhando para níveis de eficiência das empresas de alta produtividade dentro das grandes economias emergentes. Além disso, a linha entre o que denominamos manufatura e o que denominamos serviço continuará sendo cada vez mais imprecisa.

No entanto, o crescimento do PIB em si não será suficiente. Deverá ser suficientemente gerador de empregos e suficientemente bem distribuído entre os cidadãos e as regiões de um país para responder às grandes expectativas das novas e ambiciosas gerações. Com a nova tecnologia de comunicação e receitas não mais localizadas apenas no nível da subsistência, surgem uma nova conscientização e novas demandas de empoderamento e equidade.

Os países emergentes terão que canalizar esse forte impulso em direção à maior prosperidade compartilhada para uma energia positiva que ajude a construir as instituições e a confiança no futuro, além de gerar grandes economias e taxas de investimento. Os países em que a governança doméstica agir assim conseguirão florescer. Os outros poderão se defrontar com águas turbulentas.