OPINIÃO

Não sei como lhe explicar que você deveria se preocupar com as outras pessoas

Nossa divergência não é apenas política, é uma visão fundamentalmente diferente do que significa viver em sociedade.

10/07/2017 12:44 -03 | Atualizado 10/07/2017 12:44 -03

Estou farta de política. Ou, para ser mais exata, não aguento mais discutir sobre política.

Não é que eu tenha esgotado pontos a discutir ou evidências relevantes que fundamentam minha visão política. Mas há um obstáculo em particular no qual tropeço sempre que tento fazer um gesto de busca de entendimento com o outro lado e ter aquelas "conversas difíceis" que tantos artigos de opinião recomendam.

O obstáculo é o seguinte: não sei como explicar a alguém por que ele ou ela deveria se preocupar ou se importar com outras pessoas.

Pessoalmente, não me incomodo em nada em pagar 4,3% a mais por meu hambúrguer de fast food, se isso significar que a pessoa que o prepara para mim vai ganhar o suficiente para alimentar sua família. Se você não se dispõe a desembolsar US$0,17 a mais por um Big Mac, você é uma pessoa fundamentalmente diferente de mim.

Eu não me importo em pagar impostos que vão financiar escolas públicas, apesar de não ter filhos nem a intenção de tê-los, porque todas as crianças merecem ter acesso a ensino gratuito e de boa qualidade. Se isso lhe parece injusto ou pouco razoável, então você e eu nunca vamos concordar.

Se for preciso que deduzam um pouquinho a mais de cada salário meu para garantir que meus compatriotas americanos tenham acesso a atendimento médico, tudo bem. PODEM ME INCLUIR NESSA! No país mais rico do mundo, ser pobre não deveria equivaler a uma sentença de morte. Se você acha tudo bem que milhares de pessoas morram de doenças tratáveis só para que os mais ricos entre nós possam acumular ainda mais dinheiro, então existe um abismo intransponível entre sua visão de mundo e a minha.

Não sei como convencer uma pessoa a sentir empatia, uma emoção humana básica. Não suporto ter mais uma conversa que seja com você, que se contenta em ver milhões de pessoas sofrerem desnecessariamente em troca de uma redução da qual, estatisticamente falando, você nunca vai se beneficiar concretamente. (Você ganha algo em torno do salário americano mediano? Menos? Então parabéns, a redução de impostos que estão propondo não vai se aplicar a você.)

Não consigo ter discussões políticas com essas pessoas. Nossa diferença de visão não é meramente política – é uma divergência fundamental em relação ao que significa viver em sociedade, ser uma boa pessoa e a razão por que tudo isso tem importância.

Há inúmeras razões práticas, que atendem aos interesses de todos nós, para que se eleve o salário mínimo (trabalhadores que recebem pagamento justo geralmente fazem um trabalho melhor), se financiem as escolas públicas (a segurança de todos é beneficiada quando o grande público sabe ler e pensar criticamente) e se garanta que todo americano tenha acesso à saúde (surtos de doenças evitáveis são indesejáveis).

Mas, se garantir que seus concidadãos recebam o suficiente para se alimentar, ter acesso ao ensino e possam ir ao médico não for razão suficiente para você ajudar a pagar por essas coisas, então não tenho mais nada a lhe dizer.

Não posso convencer uma pessoa com palavras a se importar com o que acontece com outros seres humanos, nossos irmãos. O fato de que uma crueldade tão indiferente ser tratada com tanta normalidade no discurso político de um certo partido político é assustador e me dá muita raiva.

A atitude de que "eu já tenho o meu, então você que se dane" é algo que a direita americana exala há décadas. Mas a atitude que vemos hoje, de praticamente se alegrar em aprovar leis que vão imediatamente prejudicar os setores mais vulneráveis de nossa população, é de meter medo.

Talvez sempre tenha sido assim. Sou (relativamente) jovem, então pode ser que apenas agora eu esteja tomando consciência dessa frieza inimaginável. Talvez a ascensão da mídia social apenas tenha tornado essa tendência asquerosa mais visível. É inacreditável ver centenas de contas de mídia social se manifestarem em defesa de políticas públicas que certamente vão dificultar a vida das pessoas.

Não sei o que mudou – aliás, não sei se alguma coisa mudou. E não tenho respostas fáceis a oferecer. O que sei é que já estou farta de tentar convencer essas multidões de pessoas egoístas e cruéis a olharem mais além do próprio umbigo.

Ficar travando uma luta inútil não deve fazer bem para minha pressão, e, do jeito que as coisas estão indo, daqui a pouco provavelmente não vou mais ter plano de saúde.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e foi traduzido do inglês.

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