OPINIÃO

Como é ser gorda

17/11/2014 14:48 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Kathleen Brooks

Eu sou gorda. Este fato é incontestável.

Eu também sou inteligente, educada e bem-sucedida. Se você me visse, jamais imaginaria que eu sou uma diretora bem-sucedida de uma grande corporação, ou que eu adotei uma criança, sobrevivi a uma insuficiência renal e a um transplante de rim que salvou a minha vida. Você provavelmente também não imaginaria que eu falo árabe e fui intérprete em uma escavação arqueológica na Síria. Será que você teria adivinhado que eu me casei duas vezes e que fui uma atleta realizada? Eu tenho muitas histórias, mas, porque eu sou gorda, pode ser que você nunca venha a descobrir essas coisas sobre mim.

Veja bem, eu, como muitas outras pessoas como eu, sofremos uma das poucas formas que restam de discriminação aceitável. Algumas pessoas podem me julgar pela minha aparência e presumir que eu sou estúpida, preguiçosa ou que eu como batatas fritas e sorvetes o dia inteiro. Eles também podem presumir que eu não me importo comigo mesma. Eles somente veem a gordura. Eles me tratam de outra forma, diferente da que tratariam as mulheres mais magras e atraentes. Eu sei disso porque nem sempre fui gorda. Eu também era alheia à realidade das pessoas gordas e até mesmo compartilhava alguns dessas ideias erradas e cruéis sobre elas. Quando eu morava em um corpo diferente, eu não sabia o quanto minha vida seria diferente, nem como eu me sentiria diferente em um corpo gordo.

Minha transformação foi notável. Eu era uma mulher divertida, confiante, inteligente e bonita e passei a ser uma versão semelhante só que mais temerosa e vergonhosa de quem eu era. Eu estou, de algum modo, perdendo meu lugar no mundo, tentando não ser vista e tentando não sentir vergonha de mim.

Agora, não me interpretem mal; eu não quero ser gorda. Eu quero me sentir como eu me sentia. Eu estou em dieta constantemente e provo cada nova dieta que aparece. Eu assisto os programas sobre perda de peso e fantasio. Eu faço exercícios com um personal trainer; eu fico obcecada com comida e em contar calorias. Eu sou criativa com legumes e vegetais e como uma tonelada deles. Eu fico desanimada e volto a me animar constantemente. Mas desde o transplante e os esteroides que eu tomo, que fazem com que meu corpo não rejeite o meu novo rim, eu não consigo perder o peso que ganhei depois da cirurgia que salvou a minha vida. Mas não se trata de perder peso.

Estou espantada em ver como eu me sinto inferior agora. Eu me sinto invisível. As pessoas evitam o contato visual comigo. Sou muitas vezes tratada de maneira rude ou sou rejeitada. Dia após dia tenho medo que o meu peso encabece a longa lista de medos que eu tenho e que agora governam todos os meus pensamentos. Eu temo coisas como ser demitida do meu trabalho porque "eu não represento bem a empresa", ou de nunca encontrar um homem que me ame de novo, porque eu não sou mais atraente. Eu me pergunto se as pessoas têm vergonha de serem vistas comigo. Temo que alguém possa dizer algo horrível para mim, como "fique longe dos donuts, sua gorda baleia", ou reclamar em voz alta que eles têm que se sentar ao meu lado no avião... de novo. E sim, o pior de todos, será que eu vou morrer jovem por causa da gordura do meu corpo?

Será que alguém sabe a vida incrível que eu vivi e a pessoa que eu fui um dia? Será que eles vão conhecer as aventuras que eu tive e as pessoas que eu conheci? Experiências incríveis como cavalgadas nas manhãs de sábado pelas pirâmides de Gizé, quando eu morava no Cairo; ser interrogada à mão armada na Síria; viver no Iêmen; minha mudança para o Egito aos 13 anos de idade, como uma americana; viver com lúpus e ter criado um filho sozinha. Temo que a resposta às minhas perguntas seja não. Assim também acontece com outras pessoas que são discriminadas pela cor de sua pele, muitas pessoas me rejeitam ou são rudes quando me veem neste corpo. Eles não querem saber de mim porque presumem que eu seja algo diferente do que eu sou. A diferença fundamental é que existem leis e pressão social contra a discriminação racial (que ainda é muito prevalente!). Discriminação contra as pessoas gordas ainda é socialmente aceitável e, de fato, acontece o tempo todo.

Meu sonho, é claro, é perder peso. Mas, se eu continuar a fracassar, será que vou ser vista e reconhecida novamente do jeito que eu era? Será que alguém deixaria de lado o que vê, para me ver de verdade, me conhecer, ou será que as pessoas vão continuar a ver apenas que eu sou gorda?

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

TAMBÉM NO BRASIL POST:

16 maneiras de aumentar sua felicidade