OPINIÃO

A dor de Mariana: A lama cobre tudo. E o sofrimento também

06/11/2015 14:25 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
MÁRCIO FERNANDES/ESTADÃO CONTEÚDO

Viver em Mariana tem sido, neste ano e meio, mergulhar num outro Brasil.

Um lugar onde, domingo, vamos à praça ver palhaços se apresentarem ao ar livre. Ou levamos Cecilia para ver uma banda de música infantil.

Tem também as bandinhas (sociedades musicais, oras bolas) tradicionais que sempre tocam aos domingos. Às vezes sai o Zé-Pereira.

É assim... A gente vai, anda por ali, senta no chão, brinca um pouco, sobe no coreto, circula entre as pessoas, para pra tomar um café com leite, comer pão de queijo. Roda pelas igrejas, desce-sobe escada. Tudo ali/aqui, perto. Ao alcance.

Viver em Mariana parece me mostrar um Brasil onde o real nos toca o rosto, tem mais vida, mais tato.

As notícias são mais esparsas, demoram mais, conformando um real que percebo mais pelos sentidos que pelas mediações.

Mariana é pedaço de um País mais honesto nos gestos, mais simples no que vive.

Ando por Mariana e me deparo sempre com uma cidade sincera, que é aquilo que oferece: aquilo mesmo, sem mais nem menos -- poderia ser mais, mas o que se vê é o que se vive.

E vivemos o que vemos. É uma cidade de menos artifício, menos afetação. Mais afeto.

Me encanta essa franqueza citadina que não se esconde na feiúra ou no abandono e nem se amostra na grandeza primaz barroca. É.

E justo porque os afetos circulam sempre tão próximos a nós, uma tragédia como a desta quinta-feira (5) faz doer a cabeça, dói as costas, faz a filha chorar. Tudo é perto, tudo nos é caro. Tudo dói.

No bairro, que gira em torno dos caminhões de minério e dos ônibus de mineiros, quem ficou sob a lama pode ser nosso vizinho. Pode ser o rapaz que cumprimentamos quando levamos Cecilia à escola.

Na padaria, pode ser a senhora que se sentou ao nosso lado quando tomávamos café.

Da janela passamos a tarde a ver as ambulâncias, os bombeiros, os helicópteros. Da janela vemos o lugar onde quem perdeu tudo tenta encontrar abrigo e alguma força.

Tudo é perto demais.

Diante de uma dor dessas, que não é dos outros, é nossa, a cidade sente. O mercado está diferente. A universidade está diferente. O ginásio está diferente.

A lama cobre tudo e o sofrimento também.

Não sabemos quase nada a essa altura. Mas sentimos muito.

E ajudamos muito. Todo mundo ajuda, todo mundo quer ajudar.

Todo mundo quer tocar também essa dor da cidade que nos deixa tocar os afetos outros.

Viver no interior é isso. É estar mais longe do mundo e mais perto de um mundo.

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