OPINIÃO

Oscar 2016: Nas lentes das câmeras, os reflexos do sexismo

22/01/2016 20:02 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Max Mumby/Indigo via Getty Images
(EMBARGOED FOR PUBLICATION IN UK NEWSPAPERS UNTIL 48 HOURS AFTER CREATE DATE AND TIME) Tessa Thompson attends the European Premiere of 'Creed' on January 12, 2016 in London, England. (Photo by Max Mumby/Getty Images)

Está dando o que falar a falta de diversidade entre os indicados ao Oscar de 2016. Mas além da nítida ausência de negros e representantes de etnias minoritárias, é muito clara também a disparidade de gênero. O audiovisual, supostamente uma área descolada e "prafrentex", é um campo onde o ato criativo e as decisões ficam nas mãos de homens. Ao resgatar as indicações aos prêmios de Melhor Diretor do BAFTA, Globo de Ouro e Oscar deste ano, é possível notar um perfil quase uniforme dos indicados. Steven Spielberg, Ridley Scott, Alejandro G. Iñárritu (único latino da lista), Todd Haynes, Adam McKay: todos bons diretores, todos homens e brancos.

Fica impossível levar as cerimônias a sério com a ausência de mulheres nos prêmios mais prestigiados. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas não divulga informações demográficas sobre seus membros, mas, segundo um levantamento do LA Times, é composta de aproximadamente 6.028 eleitores. São eles que escolhem os filmes que serão indicados. Do total de votantes, 76% são homens na média de 63 anos, e 94% deles são brancos.

Segunda-feira, dia 18, Cheryl Boone, primeira mulher a presidir Academia, se mostrou desapontada quanto às indicações. "Existe esta urgência de inclusão em todos os aspectos: Gênero, raça, etnia e orientação sexual", disse em nota oficial. A premiação não é a culpada, apenas reflete uma cultura na qual o fazer cinematográfico é permeado por funções vistas como masculinas.

Representatividade para metade do mundo

Dos top 250 filmes de 2014, apenas 7% foram dirigidos por mulheres. O relatório é da Universidade de San Diego e também aponta que somente 11% dos roteiristas e 23% dos produtores destes top filmes são mulheres. A participação delas em funções de prestígio é um pouco maior nos filmes independentes, mas ainda muito aquém do ideal.

No universo das séries televisivas não é diferente. A DGA (Directors Guild of America) divulgou, em agosto de 2015, que das 277 séries levantadas, as mulheres dirigiram apenas 16% dos episódios.

Sarah Gravon, que dirigiu o filme As Sufragistas, comentou o sexismo existente nesta indústria.

"Nós somos 51% da população mundial, compramos mais da metade dos ingressos. Existem tão poucas indicações ao Oscar de filmes com protagonistas mulheres, é assustador o modo como é um clubinho de garotos".

Sarah Gravon para o The Guardian

Também não deveria ser natural que entre os filmes mais esperados a cada ano, poucos sejam dirigidos, criados ou produzidos por mulheres. A campanha #52filmsbyWoman, lançada pela Woman in Film, é uma tentativa de dar visibilidade às muitas diretoras pelo mundo, e sugere que as pessoas assistam pelo menos uma vez por semana, durante o ano, um filme dirigido por uma mulher .

Sem pensar muito, tente enumerar 5 diretoras.

Muitos dos participantes da pesquisa feita pela organização não conseguiram nomear sequer uma diretora mulher, mesmo existindo mais de mil na The Director List, e 54 cujos filmes obteveram lucros de mais de 24 milhões de dólares.

Por trás das câmeras, o sexismo

Mesmo as mais conhecidas, como Sofia Coppola, Katherine Bidgelow e Anna Muylaert, não são colocadas no mesmo patamar dos grandes diretores contemporâneos. Existe uma impressão equivocada de que as mulheres não são talentosas ou experientes. Poucas diretoras conseguem emplacar filmes de alto orçamento. Patty Jenkins, que vai dirigir Wonder Woman, com estreia prevista para 2017, será a primeira mulher a ter um filme com orçamento de 100 milhões de dólares.

A diretora do filme Pariah, Dee Ree, levou 12 anos até conseguir dirigir dois longas. Em entrevista ao New York Times, ela comenta que mulheres são vistas como incompetentes, enquanto diretores brancos são sempre capazes até que se prove o contrário.

"Eu olho para a carreira do Woody Allen, com 30 ou 40 filmes. Adoraria poder trabalhar com um filme por ano. Nós não nos beneficiamos da expectativa, principalmente mulheres negras".

Dee Ree, diretora.

É ainda mais difícil para diretoras não americanas, visto que somente 7 dos 81 filmes pré indicados à categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar foram dirigidos unicamente por mulheres. No Brasil, dos 1211 nacionais lançados de 1995 a 2014, aproximadamente 16% deles tiveram direção feminina. Os filmes delas ocupam no máximo 34 salas de cinema, contra 56 salas ocupadas por filmes deles.

Por que isso importa

De acordo com a New York Film Academy, a cada 5 homens trabalhando em filmes, existe apenas uma mulher. A falta de representatividade das mulheres na indústria audiovisual reflete em personagens femininos estereotipadas e sem profundidade. Entre os top 500 filmes de 2012, apenas 30% das personagens femininas tinham falas, e 28% delas ficavam seminuas.

Existe também o senso comum de que filmes mais direcionados ao público feminino ou com mulheres protagonistas não são lucrativos, mesmo quando Mad Max, Jogos Vorazes e Malévola já provaram o contrário. Até estes filmes são dirigidos por homens, enquanto diretoras raramente são escaladas para dirigir filmes de ação, por exemplo.

Roteiristas e produtoras como Shonda Rhymes (Scandal, How to Get Away With Murder), Jenji Kohan (Orange is the New Black) e Kathleen Kennedy (Star Wars: O Despertar da Força, Jurassic Park) fazem sucesso e geram montanhas de dinheiro, mas mesmo assim o sucesso de mulheres nesta indústria é visto como uma anomalia.

Ava DuVernay, a primeira mulher negra a ser indicada ao Globo de Ouro e a ganhar o prêmio Sundance de Melhor Direção pelo filme Selma, começou dirigindo comerciais.

"Somos ditas o que pensar, como pensar e como apresentar nossos pensamentos ao mundo. Mesmo se eu quiser só contar uma história de amor boba. Toda história que eu conto, enquanto mulher, é um ato político. O fato de que isso existe sob o meu olhar é radical em si mesmo".

Ava DuVernay para a revista Cosmopolitan

Dizer que as mulheres não tem interesse em participar da produção de peças audiovisuais é um absurdo construído. É justo e necessário que elas tenham representatividade e ocupem espaços nesta indústria tradicionalmente machista, e mostrar que podem contar histórias e construir visões mais verdadeiras do que é ser mulher.

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