OPINIÃO

Sobre dois advogados

28/04/2015 16:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:02 -02
divulgação/montagem

Jimmy McGill e Nelson Murdock até que são parecidos, apesar de escolherem caminhos diferentes. Inclusive, sobre isso podemos falar sem spoilers: o primeiro se tornará Saul Goodman, um sub-advogado comicamente picareta; o outro se tornará Demolidor, o homem sem medo, um mascarado batendo em bandidos e lutando para transformar Hell's Kitchen em um lugar melhor.

Eles exercem a mesma profissão. Por algum motivo, em algum momento de suas vidas, ambos decidiram que iriam estudar as leis e utilizá-las para fazer alguma diferença no mundo. E eles tentam bastante, mesmo com a consciência de que a Justiça é falha, corrupta e ineficiente. Mas, cada um dá seu jeito.

McGill come o pão assado, amassado e triturado pelo diabo, mas não importa quantas vezes tome na cabeça, ele continua tentando. Sempre em busca de "fazer o que é certo", sua insistência e perseverança, na primeira temporada de Better Call Saul conseguem criar uma empatia que parecia impossível. Em Breaking Bad nós gostávamos do cara porque ele era um Agostinho Carrara no Novo México, arrumando as melhores saídas para as piores confusões. Agora, em BCS você esquece tudo isso e acaba gostando dele por motivos completamente diferentes e mais humanos. É uma pena que no final da temporada os eventos que fazem ele mudar sejam apresentados de forma um pouco apressada e o desencadeamento fique meio estranho.

Murdock, apesar de ter crescido como um menino órfão e cego, não parece ter a vida tão difícil. Quer dizer, apesar das condições, e de apanhar lutando contra bandidos, ele tem dois ótimos amigos, se relaciona com muitas garotas, e é cool. Eu não sei direito como ele paga as contas, já que na série só consegue dois clientes que não lhe rendem um centavo. Inclusive, ele só aparece no tribunal uma única vez.

A identificação com Murdock/Demolidor é bem mais distante da de McGill/Saul. Se o segundo nos ganha por ser alguém passando por situações semelhantes às de nossas vidas, o primeiro cumpre a função do herói -  aquele cara que vai sentir todas as dores e trilhar o caminho do desconhecido por nós.

Eu acho que Murdock e McGill seriam bons amigos. Mas, se o Demolidor estivesse dando um rolê em Albuquerque, com certeza já teria dado uma surra em Walter White, Jesse Pinkman e Saul Goodman. Porque a vida é essa coisa doida, em que pessoas aparentemente semelhantes, em situações também similares, escolhem caminhos completamente opostos, e se tornam seres completamente diferentes. Eles tem éticas diferentes, mas a moral de um é mais forte do que a do outro.

O ritmo lento e humano das séries nos faz entender bem as motivações, medos e dores de cada um. Inclusive, a equipe de Demolidor aprendeu muito com Vince Gilligan. Takes longos, filmagens de ângulos inusitados e cenários densos para atuações fortes estão no pacote de todos.

É curioso que na abertura das duas séries, a estátua da "Justiça" aparece, em algum momento, corrompida. Se em Demolidor ela é suja de sangue, em Better Call Saul seus pratos são usados com cinzeiro.

E esse é o bacana de nos aproximarmos tanto do aspecto pessoal de Murdock e McGill, enquanto a "Justiça" funciona apenas como um sistema falho em que estamos inseridos. No final, quem faz a diferença, para o bem ou o mal, é o indívíduo e não o meio. O sistema falho leva um a sair dando porrada e buscando justiça com as próprias mãos, enquanto faz o outro desistir e mudar de lado do balcão.

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