OPINIÃO

O que fazer em relação à Coreia do Norte? Mantenha cabeça fria

A conclusão mais provável desse episódio será a manutenção de um status quo tenso e não satisfatório. Mas não chegaremos à guerra.

18/09/2017 19:00 -03 | Atualizado 18/09/2017 19:00 -03
Montagem
As três gerações de líderes Kim da Coreia do Norte têm elevado o tom com os Estados Unidos, mas nada fazem. O lado mais imprevisível é o comportamento de Donald Trump.

Tensões na península coreana não são uma novidade. Ao longo das décadas, as três gerações de líderes Kim da Coreia do Norte têm elevado o tom vis-à-vis os Estados Unidos e o mundo para, depois, a situação se acalmar.

Sendo assim, a situação atual, em alguns aspectos, não foge do padrão de comportamento histórico do regime em Pyongyang. Porém, é precária e possivelmente a mais perigosa desde o final da guerra da Coreia, nos anos 1950.

Em essência, isto se explica por dois fatores. O primeiro se trata dos aparentes avanços feitos pelo País no desenvolvimento de uma bomba nuclear. Se a Coreia do Norte for realmente uma potência nuclear, as opções que tem a chamada comunidade internacional são muito limitadas.

O segundo fator que deixa a situação atual mais perigosa são os respectivos lideres dos dois países. A influência sobre Kim Jong-Un e o seu comportamento é basicamente zero. De fato, do ponto de vista dele, tensões com os Estados Unidos é um elemento essencial para consolidar o seu poder e garantir a tranquilidade doméstica e a lealdade das forças armadas.

Nesse sentido, o lado mais imprevisível é o comportamento de Donald Trump. Como em vários outros assuntos, os sinais dados pelo presidente dos Estados Unidos são contraditórios. Uma hora, fala que não teria problema em conversar com Kim Jong-Un. Outra hora, joga todas as fichas na influência da China (que, aliás, parece limitada), mesmo esse país tendo outros interesses estratégicos em relação ao seu vizinho.

Agora, está ameaçando iniciar um conflito nuclear e punir qualquer país que negocie com a Coreia do Norte. Já que o principal parceiro comercial desse país é a China, isso teria consequências incalculáveis para a economia mundial. Em outras palavras, Trump não tem uma estratégia, ele age de forma impulsiva, o que significa que ele não é confiável.

Diante de tal cenário, as opções para a comunidade internacional estão bastante limitadas. Com as ameaças vindo do presidente americano, o foco agora está na tentativa de abaixar a retórica não somente da Coreia do Norte, mas de Washington também. O perigo é de um mal–entendimento levar a uma situação sobre a qual ninguém mais tem controle.

Tendo dito tudo isso, me parece que uma escalação até tal ponto ainda é bastante improvável. Em primeiro lugar, porque a Coreia do Norte certamente sabe que qualquer ataque contra os Estados Unidos, um dos seus aliados ou da Coreia do Sul, levaria a uma retaliação americana devastadora.

Tendo em mente que o principal objetivo do regime é a manutenção do seu próprio poder, uma escalação além de um "ponto sem volta" não deveria estar nos planos do jovem líder norte-coreano.

Ao mesmo tempo, já há sinais de que o sistema politico americano está se mobilizando contra as opções mais radicais lançadas por Trump. Ao contrário do presidente, o establishment político americano, me parece, tem um objetivo claro em relação à Coreia do Norte: manter a estabilidade, por mais que um arsenal nuclear nas mãos desse país seja visto com preocupação.

É provável que, assim como em outras ocasiões durante a presidência de Trump, o sistema trabalhe ignorando o seu comandante, alegando, com alguma razão, que ele não apresenta um objetivo claro, nem uma estratégia clara.

A conclusão mais provável desse episódio será a manutenção de um status quo tenso e, em muitos aspectos, não satisfatório. Mas ainda melhor do que as alternativas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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