OPINIÃO

Como os Estados Unidos reencenam a Guerra Fria e a Rússia reencena a Segunda Guerra Mundial

25/06/2014 11:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:45 -02
JOEL SAGET via Getty Images
Two 'Rafale' French fighter jets (R) and two polish Mig 29 (L) fly over the air base in Malbork, Poland on April 29, 2014. Four French Rafale fighter jets arrived in Malbork to participate in the NATO mission in the region. AFP PHOTO / JOEL SAGET (Photo credit should read JOEL SAGET/AFP/Getty Images)

Soldados russos se deslocam, jatos MiG sobrevoam navios da marinha americana, manobras de guerra da Otan, a capital de um país europeu sob o risco de invasão -- as manchetes do noticiário americano nos últimos meses parecem pertencer a outra era. O mesmo se pode dizer dos jornais russos, que atiçaram no país um frenesi nacionalista em reação a uma possível agressão do Ocidente.

Os americanos estão reencenando a Guerra Fria, enquanto os russos reencenam a Segunda Guerra Mundial -- guerras que cada lado pode alegar que ganhou. Nenhuma dessas eras tem muito em comum com o atual conflito na Ucrânia, mas referir-se a batalhas passadas para compreender e reagir aos adversários atuais tem consequências potenciais.

Alusões à Guerra Fria no noticiário e nos canais de mídia dos EUA fizeram uma reaparição dramática, enquanto a crise na Ucrânia se aquecia e dominava as manchetes. A linha de continuidade pode ser lida: Budapeste 1956, Praga 1968, Kiev 2014. Nesse aspecto particular, Putin está se comportando como o secretário-geral de um império soviético apenas ligeiramente reformado.

Na Rússia, quase não há menção a uma "nova Guerra Fria". Mas a retórica do nacionalismo, de invasores externos e a ameaça do fascismo tornaram-se parte de um modelo de racionalização para a oposição russa ao governo da Ucrânia, de orientação europeia. Estes são sinais para os cidadãos russos -- linguagem codificada pertencente à época da Segunda Guerra Mundial, quando invasores da Europa ocidental quase destruíram a Mãe Pátria.

A história sempre foi usada -- e muitas vezes manipulada com cinismo -- para informar as condições atuais e defender a tese de um determinado conjunto de metas e objetivos políticos. Sim, na atual crise ucraniana, os dois lados concorrentes se apropriaram de histórias diferentes. Ao afirmar suas vitórias, tanto o leste como o oeste estão reconfigurando o passado para se alinhar com as narrativas contemporâneas que têm origem mais na necessidade política do que nos livros de história. Em 6 de junho de 2014, o líder russo, Vladimir Putin, participou de uma comemoração ao 70º aniversário do Dia D nas praias da Normandia. A mídia russa minimizou a importância estratégica da invasão e, de modo mais geral, a contribuição dos aliados na Segunda Guerra Mundial.

A Mãe Pátria perdeu 20 milhões de pessoas na luta contra o fascismo, afinal, e a batalha ainda não terminou. Hoje, os fascistas na Ucrânia, como está implícito, mais uma vez ameaçam a paz. Enquanto isso, há poucas evidências que sustentem as alegações. Paradoxalmente, um apoio significativo na "Nova Europa" ao avanço das políticas russas pode ser encontrado nas fileiras dos partidos ascendentes de direita, considerados neofascistas por alguns.

Os Estados Unidos, por sua vez, parecem ter tirado a poeira do manual da era da Guerra Fria, enquadrando as circunstâncias muito complexas da crise na Ucrânia como instigadas por "agentes russos" em um "incrível ato de agressão" no estilo soviético, como resumiu o secretário de Estado John Kerry para o público americano. Kerry implorou a seu homólogo russo, Sergey Lavrov, para que resistisse a transformar a Ucrânia em um "peão" das atuais tensões russo-americanas. Mais de um quarto de século após a queda do Muro de Berlim, o conceito de guerras por procuração com a Rússia hoje está novamente em moda.

No entanto, apesar de toda a retórica, os alicerces da Guerra Fria -- concorrência ideológica, ameaça da Destruição Mútua Assegurada e equilíbrio de poder bilateral global -- não existem mais. Sem a amarga luta maniqueísta que via o comunismo como um vírus global e contagioso (com capacidade nuclear), as analogias da Guerra Fria com a Rússia atual parecem deslocadas ou, no mínimo, grosseiramente exageradas.

Reagir a períodos históricos que foram enormemente antagonísticos e sangrentos para conduzir a ação no campo de batalha emergente no leste da Ucrânia tem o potencial de causar uma escalada do conflito, alimentada por vitórias passadas e a memória de antigos choques.

Mais que apropriar-se de histórias particulares a serviço de objetivos políticos imediatos e provocar mais animosidade, o estudo de valores culturais e tendências sociais em longo prazo pode oferecer uma base para a compreensão de motivos e estratégias.

Se a história pode informar os atuais acontecimentos no leste da Ucrânia, a Rússia está agindo como sempre agiu -- como uma entidade nacionalista que transcende tanto a ideologia como o governante. Stalin compreendeu bem isso quando chamou a Segunda Guerra Mundial de "a Grande Guerra Patriótica". Seus soldados poderiam não lutar por ele, ou mesmo pelo comunismo, mas dariam suas vidas pela Mãe Rússia, como fizeram pelo czar Alexandre em 1812.

De parte dos EUA, a intervenção em assuntos e conflitos externos também poderia pertencer a uma tradição muito mais antiga que a Guerra Fria -- os 14 Pontos de Woodrow Wilson. A tendência idealista à promoção ativa da democracia, da autodeterminação e da transparência tem a capacidade de entrar em conflito com os interesses nacionais alheios, incluindo os russos, mesmo enquanto as expressões dos interesses geopolíticos da própria Rússia estão envoltos em uma retórica democrática semelhante.

A Rússia provavelmente sempre agirá dentro do que percebe como seu interesse geoestratégico, protegendo sua esfera de influência e sua originalidade eslávica/eurasiática. Os EUA também agirão em seu interesse percebido, que com frequência inclui de modo um tanto confuso ideologia e idealismo como manifestações da excepcionalidade americana.

A história nos informa sobre o passado e talvez seu significado, mas a memória e a retórica são usadas como instrumentos para validar os interesses dos Estados. Apesar de todas as diferenças no modo como a Rússia e os EUA representam o atual choque na Ucrânia, apontando exemplos históricos que não sustentam uma análise rigorosa, os dois países compartilham uma abordagem notavelmente semelhante do uso de episódios do passado como justificativa para a ação atual.

Embora isso não nos diga nada novo sobre a história, esclarece a maleabilidade das versões oficiais "do que aconteceu" e indicam os riscos potenciais de se explorar antigos conflitos gravados na psique coletiva de ambos os países, provocando antipatia, medo e possivelmente guerra.

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