OPINIÃO

A Chape sonhava mais alto a cada vitória

30/11/2016 19:20 -02 | Atualizado 30/11/2016 19:20 -02
Heuler Andrey via Getty Images
CHAPECO, BRAZIL - NOVEMBER 29: A young fan pays tribute to the players of Brazilian team Chapecoense Real who were killed in a plane accident in the Colombian mountains, at the club's Arena Conda stadium in Chapeco, in the southern Brazilian state of Santa Catarina, on November 29, 2016. Players of the Chapecoense were among 81 people on board the flight that crashed into mountains in northwestern Colombia, in which officials said just six people were thought to have survived, including three of the players. Chapecoense had risen from obscurity to make it to the Copa Sudamericana finals scheduled for Wednesday against Atletico Nacional of Colombia. (Photo by Heuler Andrey/Getty Images)

Peguei o caminho da minha antiga casa na manhã desta quarta-feira (30). Viajar para a terrinha sempre foi um momento feliz. Não era o caso hoje. A vida foi sacudida na madrugada da última terça-feira como nunca.

A cada minuto que passa um pedaço da tragédia se processa dentro de mim. É o falar que faz tudo se transformar em realidade. Ontem alguém disse, não recordo o autor infelizmente, que a gente pode torcer para o time que for, mas na vida somos todos como a Chape. No cotidiano da maioria de nós brasileiros, nada surge de graça. É preciso lutar para conquistar. Ficamos teimando contra esse destino que parece não querer nos deixar ir além. Remamos contra a maré. A Chape realmente vinha mostrando o valor de quem acredita e trabalha. Também foi assim que minha mãe, Eloir, ensinou seus filhos em casa, a sonhar com os pés no chão.

O atual time da Chapecoense tinha um tempero disso. Queria deixar para trás a pecha de "time pequeno". Levava ainda um tanto da experiência administrativa de pequenos e médios empresários da cidade misturada a esse jeito de encarar a vida numa cidade do interior. O toque final sempre ficou pelo amor da torcida. Não à toa, o hino que nós cantamos diz que o time "leva consigo o coração de uma cidade".

Todos que nos deixaram ontem tinham a Chape cravada no peito. Com todo o respeito às gerações anteriores que vestiram a camisa verde e branca, o grupo de 2016 foi um dos que mais encarnou esse espírito. A velha alma aguerrida dos índios kaigang, simbolizada no nosso mascote, o índio condá. Do roupeiro à diretoria, todos se dedicaram intensamente nos últimos cinco anos para que o trabalho chegasse a esse momento de conquista.

A cada vitória, sonhávamos mais alto. Nas inúmeras mensagens solidárias que recebi desde ontem, amigos cariocas e paulistas lembraram que conheceram a Chape por mim. Acho que nem eu mesma conseguia ver o tamanho da minha empolgação. Devo ter sido absolutamente irritante quando a Chape aplicou aquele 5 a 0 no Palmeiras, no ano passado. Ou ainda pior na goleada de 5 a 1 em cima do Inter, em 2014.

Esse clima de união aproximou todos e transformou as relações profissionais em laços mais profundos. Quando a Chape conquistou o Campeonato Catarinense em maio, a festa de comemoração em uma boate da cidade reuniu as nossas famílias. Jogadores, funcionários, parentes, todos. Crianças corriam pelo salão em meio ao samba tocado pelos pais. A festa era comandada pelo atacante Kempes e pelo zagueiro Rafael Lima. Todos cantaram felizes ao longo daquela madrugada como se não houvesse amanhã.

Festa semelhante aconteceu há apenas sete dias, quando a Chape conquistou a vaga para a final da Sul Americana no jogo contra o San Lorenzo. Ninguém conseguia dormir. Já estávamos comprando passagens, organizando viagens e planejando a grande final em Curitiba, no dia 7 de dezembro. Quem como eu cresceu frequentando as arquibancadas do estádio, nunca imaginou que esse dia ia chegar assim tão rápido. Pode não parecer, mas foi. Foi tudo muito rápido.

Era a coroação do trabalho da diretoria coordenada pelo Sandro Pallaoro, presidente da Chapecoense. Um homem simples que reuniu uma equipe competente para dar profissionalismo ao clube. Realizou o sonho do meu pai, Cezar, ao deixá-lo estruturar os trabalhos na categoria de base e permitir à Chape desenvolver novos talentos.

Todos os que estavam naquele avião fizeram muito por esse time. Deixaram um vazio que jamais será preenchido novamente. Porque dá para substituir jogadores e técnicos, mas não se substitui uma família e a família da Chape perdeu muito ontem.

Temos agora o dever de seguir em frente para honrar a memória deles que tanto fizeram jus ao hino do clube: "nas alegrias e nas horas mais difíceis meu furacão tu és sempre um vencedor".

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