OPINIÃO

Diálogo, iniciativa e identidade catalã

A sociedade espanhola continua de ressaca da jornada mais rancorosa vivida em seus 40 anos de história.

07/10/2017 10:25 -03 | Atualizado 07/10/2017 10:32 -03
JFLA
Diante da mais completa incapacidade para o diálogo daqueles à frente dessa confrontação, urge exigir liderança.

A sociedade espanhola continua de ressaca da jornada mais rancorosa vivida em seus 40 anos de história. Nunca desde sua promulgação tínhamos visto questionada em fóruns internacionais e na imprensa estrangeira a maturidade e a solidez da democracia para administrar incidentes próprios de uma sociedade aberta e plural, mas provida de instrumentos precisos para encarar e gerir seus próprios conflitos.

No dia seguinte ao 1-O, amanhece, o que não é pouca coisa, e a Espanha parece afundada num poço de amargura, estupor e angústia que impregna o cotidiano, nossas interações individuais e nosso senso coletivo. A conversa na Espanha parece sequestrada pela síndrome invasiva da questão catalã. Na imprensa nacional e internacional, se multiplicam como nunca as manchetes e os artigos de opinião que jogam na nossa cara um "fracasso coletivo", de tons sombrios e cheio de imagens e cartazes que machucam tanto que queríamos tê-lo evitado. "Choque de trens!", soavam os alarmes anos atrás. "Mais madeira!", gritavam, como no filme No Tempo do Onça, os motoristas suicidas no rumo de colisão.

Domina a atribuição de responsabilidades aos que nos colocaram nesse beco sem saída, tomando como reféns milhões de cidadãos/ãs decepcionados pela falta de fé nas virtudes do diálogo da política e seus praticantes. Os atuais dirigentes secessionistas ficam desqualificados para qualquer solução de futuro. Com o abuso do mandato da Generalitat, violando a Constituição, o Estatut de Cataluña e seu próprio conteúdo, com grave desprezo à lei e ao (frágil) cimento que sustenta a convivência e a paz social, a sociedade catalã está se fraturando de forma sectária, calculada e dolosa. E, numa contaminação como nunca houve em nossa história democrática, graças aos danos colaterais, a sociedade espanhola por extensão está neurotizada por esse traumático teste de resistência da ordem constitucional, em uma prova desenhada com precisão de relojoeiro para certificar seu fracasso e sua disfunção.

Mas também fica desacreditado o governo do Partido Popular e de Mariano Rajoy, inábil, notoriamente sobrecarregado pela espiral de loucura desencadeada pelos secessionistas sem preocupação com os danos ou os custos: Ação! Inação! Reação! E, diante de cada inação, danos incalculáveis. Incompetente e impotente: assim vimos Rajoy vestir o manto de arminho do conto A Nova Roupa do Imperador, que na verdade estava nu. Foi patético seu exercício de solipsismo carente de empatia e conexão com a cidadania – catalã, espanhola – na noite do 1-O, em horário nobre.

Diante da mais completa incapacidade para o diálogo daqueles à frente dessa confrontação, urge exigir liderança.

Diálogo, diálogo, diálogo! Clamamos nós socialistas, com milhões de esperanças, dentro e fora da Espanha, de que ainda possamos fazer algo para evitar a catástrofe. "Se não podemos mudar de país, mudemos pelo menos de conversa", como resolveu James Joyce uma diatribe sobre a questão irlandesa. E essa nova conversa exige novos interlocutores.

Diante da mais completa incapacidade para o diálogo daqueles à frente dessa confrontação – esse "choque de trens" de afasias desconjuntadas, que agora ameaça com uma legalidade "kafkiana" assintótica, a da "Declaração Unilateral de Independência"(DUI) --, urge exigir liderança. Ou então: urge encontrar novas lideranças e cobrar responsabilidade de quem demonstrou não merecer estar à frente. Porque, se não, What's next?

Diálogo, diálogo, diálogo! Pontes de entendimento. Qualquer novo ponto de encontro exige o restabelecimento de um vocabulário comum, uma linguagem compartilhada que torne possível o intercâmbio de ideias e de posições, a busca ativa do outro em cada negociação, o acordo, a solução política.

E exige iniciativas! Tudo o que o governo do PP não mostrou nem um dia sequer a esse respeito. Agora é impossível ignorar o "Elephant in the room", o elefante na sala que até anteontem a sala de nossas casas.

Para ser viável, a iniciativa política tem de se desintoxicar: não pode exigir como premissa a anulação da pretensão de ser do outro interlocutor. Renuncie ao maximalismo!: nem "independência", pois, nem desobediência, mas tampouco imobilismo. E essa negociação, como condição existencial para sua credibilidade, exige reconhecimento prévio: reconhecimento da disposição tanto de renunciar à sedição facciosa (a ruptura unilateral) como de modificar o quadro constitucional e legal que acomode a Catalunha – de maneira singular – na Espanha e na UE.

Dois cenários assomam em nosso horizonte:

a) Um primeiro, mais sombrio porque mais iminente: as tensões envolvendo a aplicabilidade do artigo 155 (em um próximo artigo tratarei desse ponto com a atenção que ele merece);

b) Um segundo, sucessivo, carregado pelas exigências do rigor e dos tempos, mas não menos importante: apressar de uma vez por todas a reforma constitucional tantas vezes bloqueada pela inação do PP! Uma reforma que abra caminho para a reintegração federal do pluralismo identitário e simbólico. Por um novo federalismo, que seja finalmente o nosso, o federalismo de um "nós" coletivo e no qual caibamos todos juntos. O que nos faz falta: esse federalismo dos professores de Direito Constitucional que ainda não perdemos a fé e chamamos de federalismo de e para a reconciliação.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost ES e traduzido do espanhol.

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