OPINIÃO

70 anos depois de Hiroshima, o desarmamento ainda é vital

06/08/2015 18:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Universal History Archive via Getty Images
An aerial photograph of Hiroshima, Japan, shortly after the 'Little Boy' atomic bomb was dropped. Dated 1945 (Photo by: Universal History Archive/UIG via Getty images)

Em co-autoria com Ken Olum, professor pesquisador do Departamento de Física e Astronomia da Universidade Tufts.

Um pouco mais de 70 anos atrás nosso pai, Paul Olum, se posicionou com seus colegas no deserto perto de Alamogordo, no Novo México. Eles tinham passado os dois anos e meio anteriores projetando uma nova arma, a primeira bomba atômica, e estavam aguardando para ver se ela ia funcionar. Então a explosão pareceu preencher o ar, até resolver-se em uma enorme nuvem em formato de cogumelo. O projeto tinha dado certo. Eles tinham desenhado e construído a arma mais potente jamais vista na Terra.

Três semanas mais tarde, em 6 de agosto de 1945, os Estados Unidos atiraram uma bomba atômica sobre Hiroshima, e três dias depois, outra sobre Nagasaki. As duas bombas juntas mataram 100 mil pessoas instantaneamente, e outras 100 mil morreram mais tarde por exposição à radiação. Paul teve sentimentos ambíguos em relação ao bombardeio de Hiroshima. Parecia claro que isso encerraria a guerra rapidamente, mas o custo foi altíssimo em termos de vidas civis. Mas o bombardeio de Nagasaki ele considerou totalmente injustificável, porque três dias apenas não tinham sido prazo suficiente para a rendição do Japão.

O Japão anunciou sua rendição seis dias após o bombardeio de Nagasaki. A Segunda Guerra Mundial acabou, mas a corrida armamentista nuclear tinha começado. Paul Olum passou o resto de sua vida lutando pelo controle de armas nucleares e o desarmamento nuclear.

Na década de 1980, os Estados Unidos e a União Soviética, juntos, já tinham acumulado cerca de 27 mil bombas nucleares estratégicas "ativas", cada uma delas imensamente mais potente que as que destruíram Hiroshima e Nagasaki. Os arsenais de ambos os países eram suficientes para destruir a humanidade várias vezes.

Paul tinha apenas 24 anos de idade quando ele e nossa mãe, Viviam, foram a Los Alamos, em 1943. Depois da guerra, ele teve uma carreira honrosa como professor de matemática na Universidade Cornell e, mais tarde, como reitor da Universidade do Oregon. Mas, fosse o que fosse que estivesse fazendo, ele sentia que tinha a responsabilidade de falar às pessoas sobre o perigo das armas nucleares e a importância do desarmamento.

Em 1983, Paul e Vivian foram convidados a uma comemoração do 40º aniversário da abertura do Laboratório Nacional de Los Alamos, onde as bombas tinham sido projetadas. Eles não queriam festejar a fabricação dessas bombas, que levaram à formação de arsenais nucleares que podem destruir a raça humana. Paul redigiu um abaixo-assinado pedindo o fim da corrida armamentista nuclear e a eventual eliminação das armas nucleares. Ela foi firmada por 70 cientistas, incluindo cinco ganhadores do Prêmio Nobel, e amplamente divulgada. Os cientistas escreveram que estavam "profundamente temerosos pelo futuro da humanidade".

Os esforços de Paul e os de muitos outros levaram a uma virada na corrida armamentista.

Tratados entre os EUA e a União Soviética (e, mais tarde, a Rússia) começaram a reduzir o número de ogivas e removê-las do status de ativas. Quando Paul morreu, em 2001, o número total de ogivas nucleares estratégicas ativas tinha sido reduzido para cerca de 14 mil. Quando o novo tratado START de 2011 tiver sido plenamente implementado, os EUA e a Rússia terão ao todo cerca de 3.000 ogivas estratégicas ativas, mas esse número ainda é mais que suficiente para destruir a civilização.

Lamentavelmente, a ameaça das armas nucleares parece ter perdido espaço na consciência pública, possivelmente substituída pela preocupação com as mudanças climáticas. As mudanças climáticas são uma ameaça muito grave, mas uma ameaça de natureza diferente. As mudanças climáticas podem matar bilhões de pessoas ao longo de décadas e tornar partes do mundo inabitáveis. Uma guerra nuclear pode matar bilhões de pessoas imediatamente e tornar o mundo inteiro inabitável em consequência da chuva radiativa e do inverno nuclear (um esfriamento global grave gerado pela fuligem impelida para a estratosfera pela queima de cidades).

Portanto, é crucial que o desarmamento nuclear continue. Em vez disso, porém, os EUA e a Rússia parecem estar à beira de uma nova corrida armamentista nuclear. Os planos atuais dos EUA envolvem novas ogivas com novos mísseis, bombardeiros e submarinos para transportá-las, ao custo total de cerca de US$1 trilhão nos próximos 30 anos. E essa despesa enorme não torna a América um lugar mais seguro. Nosso arsenal atual supera de longe qualquer coisa que possa ser necessária para fins de dissuasão. Ao invés disso, ele eleva o risco de que essas armas venham a ser utilizadas algum dia, intencionalmente, acidentalmente ou por caírem em mãos erradas.

Já basta. Mais de 30 anos depois da petição lançada por Paul em Los Alamos, as armas nucleares ainda são uma ameaça à própria existência da raça humana. É chegada a hora de pormos fim a essa ameaça, para que, dentro de 30 anos, nossos filhos não precisem publicar um artigo começando com "cem anos atrás nosso avô se postou no deserto perto de Alamogordo...".

Joyce Olum Galaski é rabina emérita da Congregação Ahavas Achim, em Westfield, Massachusetts, e Ken Olum é professor pesquisador no Departamento de Física e Astronomia da Universidade Tufts. Este ano eles criaram o Fundo de Dotações Paul Olum, por meio do Fundo Ploughshares, para apoiar cientistas que trabalham em prol do desarmamento nuclear.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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