OPINIÃO

Um encontro com Timothy Ray Brown, o único homem do mundo curado do HIV

03/02/2016 17:33 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
T.J. Kirkpatrick via Getty Images
WASHINGTON, DC - JULY 24: Timothy Ray Brown, known as the 'Berlin Patient' and the only person to have been cured of AIDS, holds a press conference to announce the launch of the Timothy Ray Brown Foundation at the Westin City Center hotel on July 24, 2012 in Washington, DC. 'I wouldn't wish this on my worst enemy,' Brown said of the treatment process that eventually cured him. Planned to launch during the International AIDS Conference being held in Washington, the foundation will work to focus efforts on finding a cure for HIV and AIDS. (Photo by T.J. Kirkpatrick/Getty Images)

Era 28 de janeiro. Eu saía do metrô quando notei que o céu começava a clarear, depois de uma manhã de vento e chuva. O termômetro da cidade marcava 12 graus. Dobrei a segunda rua à direita, e alcancei o Culturgest, prédio da Caixa Geral de Depósitos de Lisboa. Vesti o crachá que me entregaram na recepção e atravessei o saguão de carpete vermelho-sangue.

À minha volta, os stands dos fabricantes de medicamentos antirretrovirais. Bristol-Myers Squibb, Gilead, Janssen, Merck Sharp & Dohme, ViiV Healthcare e AbbVie — esta última, fazendo propaganda do Kaletra, o primeiro antirretroviral que tomei, logo após o meu diagnóstico positivo para o HIV, em outubro de 2010. Impossível não lembrar de seus terríveis efeitos colaterais, vômitos e diarreia que perduraram incessantemente pelos quatro meses seguintes e me fizeram perder um total de 15 quilos. Só vim a melhorar com meu novo médico infectologista, o Dr. Esper Kallás, que, logo em nossa primeira consulta, recomendou a imediata troca do coquetel antirretroviral para outra combinação, e os efeitos colaterais cessaram totalmente.

Agarrei um copo de café e entrei no auditório, a tempo da mesa redonda sobre o ebola, vírus que trouxe preocupação para Portugal, um pequeno país com considerável imigração africana, oriunda especialmente de regiões que foram colônias no passado, e territorialmente próximo à África. O Prof. Dr. Amadou Sall, do Institut Pasteur de Dakar, Senegal, falava sobre a razão dos surtos de ebola não terem sido contidos em seus estágios iniciais: foi por puro medo da doença que médicos e sanitaristas negavam-se a se dirigir às regiões afetadas, atrasando assim uma resposta imediata ao controle do vírus, a qual, ensinava o doutor, é fundamental para conter a epidemia.

A história dos surtos de ebola traz alguma semelhança com o começo da epidemia de aids, quase totalmente negligenciada nos Estados Unidos até 1986, quando o então presidente americano Ronald Reagan finalmente veio a falar publicamente sobre o HIV, exatamente quando a doença começava a seguir para além da comunidade gay, alcançando os heterossexuais.

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Cartaz de 1987 da organização Act Up.

 

Também aprendi que não é de todo incomum que profissionais de saúde que cuidam de pacientes com ebola acabem contaminados. E este era precisamente o caso do Dr. Craig Spencer, médico do Columbia University Medical Center, de Nova York, que subia ao palco logo em seguida para contar sua experiência como sobrevivente do ebola, infectado enquanto trabalhava para a organização Médicos Sem Fronteiras nas regiões mais afetadas pelo surto do vírus, em 2014. Spencer disse ter sempre seguido todos os protocolos de segurança ao cuidar dos pacientes e, inclusive, acabou conhecido por sua constante atenção aos procedimentos de segurança entre seus colegas, os quais, segundo ele, acabavam relaxando nestes mesmos procedimentos depois de alguns meses. Spencer acredita que foi contaminado fora do hospital, com alguém que carregava o vírus sem saber, talvez, sem ainda apresentar sintomas. Ele mesmo só percebeu que carregava a doença quando estava de volta à Nova York, onde, graças ao tratamento imediato e adequado, sobreviveu.

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Mas esse assunto todo não era o que me levava a estar ali, nas 10as Jornadas de Actualização em Doenças Infecciosas do Hospital de Curry Cabral. A palestra a respeito da pesquisa da cura do HIV é o que mais me interessava. Contava com o Prof. Daniel Kuritzkes, do Brigham and Women's Hospital e Harvard Medical School, de Boston, Estados Unidos, e, por fim, Timothy Ray Brown, por muito tempo conhecido apenas como o "Paciente de Berlim", o único homem no mundo até hoje considerado curado do vírus da aids.

Timothy foi diagnosticado positivo para o HIV em 1995, um ano antes do surgimento do coquetel antirretroviral, quando ainda vivia em Berlim, na Alemanha. Em 2006, foi diagnosticado com outra doença, em nada relacionada com o HIV: leucemia mielóide aguda, enquanto ainda morava em Berlim. Seu médico hematologista, Dr. Gero Hütter, colocou-o em quimioterapia logo no dia seguinte. Timothy desenvolveu pneumonia e teve de interromper a quimio em decorrência de sepse, uma reação inflamatória do organismo que pode levar à morte. Foram colocados tubos em seu coração.

Apesar de tudo isso, Timothy sobreviveu, e o câncer parecia estar em remissão — pelo menos, até 2007, quando ele foi novamente diagnosticado com leucemia. As novas tentativas de quimioterapia não foram bem sucedidas e um transplante de medula óssea se mostrou a última e viável opção. O Dr. Gero Hütter teve então uma ideia inovadora: procurar, dentre os doadores compatíveis, algum que fosse portador de uma mutação genética chamada CCR5delta32, comum em apenas 1% da população europeia. A principal característica daqueles que são homozigotos — isto é, quando os alelos que se aglomeram e codificam uma determinada característica genética são iguais — é que suas células CD4 do sistema imune, as mais afetadas pelo HIV, não possuem o conector CCR5, a principal porta de entrada usada pela grande maioria das cepas do vírus da aids para estabelecer a infecção. Sem esse conector, o vírus não consegue entrar nas células, e as pessoas com essa mutação acabam por ser naturalmente imunes ao HIV. A ideia do Dr. Gero era a de que o transplante de medula óssea com um doador que possuísse essa característica não só curasse a leucemia de Timothy, mas também o tornasse imune ao HIV. Por sorte, esse doador foi encontrado. E, três meses depois do procedimento, já não havia mais qualquer sinal do vírus no organismo do Paciente de Berlim.

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Receptor CCR5

 

Porém, o mesmo não poderia ser dito sobre sua leucemia, que retornou em 2008 — depois de meses de extensos testes para que pudessem confirmar a veracidade de sua cura para o HIV. Nestes testes, examinaram seu cérebro, linfonodos, intestino, coluna vertebral e "qualquer lugar que pudessem pensar em enfiar uma agulha para retirar sangue ou tecido", contou Brown, mais tarde naquele mesmo dia. No meio de tantos exames, os médicos acidentalmente deixam uma bolha de ar em seu meu cérebro, deixando-o completamente paralisado e delirando. Timothy perdeu a visão, teve que reaprender a andar e a falar. Por um ano, entrou e saiu do hospital diversas vezes.

Quando as complicações foram controladas, o mesmo doador de células-tronco voou novamente até Berlim, e o transplante de medula óssea foi repetido. "Graças a Deus, eu tive um doador muito generoso", contou Brown, que foi curado da leucemia e, até hoje, nove anos depois do procedimento, continua sem qualquer sinal do HIV em seu organismo. Timothy viria a aprender só depois, em uma conferência sobre terapia genética em St. Louis, na Washington University, que sua chance de sobrevivência beirou os 5%.

Outros pacientes com HIV e leucemia receberam o mesmo tratamento, mas não tiveram a mesma sorte. Alguns simplesmente não foram curados do HIV. Outros, como Eric Blue, um jovem soropositivo de Louisiana que corajosamente concordou em se submeter a um transplante de células-tronco — semelhante ao que Brown fez, mas, em seu caso, usando o sangue do cordão umbilical —, faleceram, razão pela qual a cura de Timothy Ray Brown mostrou-se irreproduzível em larga escala, e ainda lhe deixou algumas sequelas.

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Timothy Ray Brown

 

Não foi difícil identificá-lo no meio ao saguão da conferência: um homem magro e alto, que caminhava com os ombros contraídos e flexionava os joelhos com certa dificuldade. Olhei mais atentamente e não tive dúvidas: era Timothy Ray Brown. Os primeiros repórteres logo começaram a se aproximar. E não demorou para que todos os demais jornalistas, que naquela altura circundavam o Dr. Craig Spencer, sobrevivente do ebola, abandonassem o médico e viessem correndo em direção ao Paciente de Berlim.

Timothy era a verdadeira estrela do evento. O assedio era tanto que foi organizada uma sala em reservado, onde alinhou-se uma fila com os repórteres. Todos queriam uma entrevista exclusiva, mesmo que as perguntas fossem, em sua maioria, exatamente as mesmas. Timothy não reclamou. Repetia sua história incansavelmente e posava para as câmeras. Coloquei-me ao final da fila e, pouco mais de uma hora depois, chegou a minha vez.

Jovem Soropositivo — Quando eu fui diagnosticado positivo para o HIV, em 2010, sua história foi uma das primeiras que li a respeito do HIV...

Timothy Ray Brown — E isso te trouxe uma sensação de esperança?

JS — Sim.

TRB — Que bom!

JS — Você hoje tem 49 anos de idade, certo? E mora em Palm Springs, na Califórnia?

TRB — Sim, tenho quase 50 anos. Quase meio século de idade! Faço aniversário em 11 de março.

JS — Você está livre do vírus?

TRB — Sim.

JS — Quantos testes você fez para confirmar isso?

TRB — Muitos, muitos, muitos! Por algum tempo, morei em São Francisco e ia a um médico especializado em HIV, no San Francisco General Hospital, bastante conhecido: Dr. Steven Deeks. Depois, visitei o Dr. Jay Levy, da University of California, San Francisco (UCSF). Eles tiravam tanto sangue de mim que tiveram que checar as diretrizes da Food and Drug Administration (FDA) a respeito dos limites permitidos para retirada de sangue de um único paciente. Meu sangue foi levado do San Francisco General Hospital para o National Institutes of Health (NIH), onde fizeram testes muito precisos. E... essa história é engraçada: eu estava na International Aids Conference (IAS) em Washington, D.C., em 2012, e conheci um cientista de Rotterdam, que me disse:

"— Eu conheço você intimamente!"

Ao que eu respondi: "— Mas você me parece ser hetero..."

"— Sim, mas eu tenho 8 mil cópias do seu sangue no congelador do meu laboratório."

Meu sangue é igual ao... Você já ouvir falar das "células HeLa"? Foram descritas num livro biográfico publicado há alguns anos, chamado A Vida Imortal de Henrietta Lacks, a respeito de uma mulher que tinha câncer cervical. Seus médicos em Baltimore, nos Estados Unidos, retiraram parte de seu colo do útero. Então, eles perceberam que as células desse tecido, mesmo fora do corpo de Henrietta, multiplicavam-se tanto que foi possível dissecá-las e fazê-las multiplicar em outros lugares, permitindo que fossem usadas em pesquisa sobre câncer cervical no mundo todo! Meu sangue é mais ou menos assim também.

JS — Então, os cientistas conseguem replicar suas células? Será que vão fazer um outro Timothy Brown?

TRB — Uma réplica de mim seria ótimo! (Risos.) Talvez seja o que eles querem dizer quando falam que vão replicar a cura no futuro!

JS — Me lembro de assistir a uma declaração sua em que dizia que estava doando seu corpo à ciência. Por que você decidiu fazer isso?

TRB — Primeiro, eu queria de fato provar ao mundo que a minha cura é esterilizante, e não apenas funcional. Mas outra razão importante é porque eu queria que houvesse mais pesquisa, para que os cientistas pudessem encontrar uma cura para mais pessoas. Eu não acho que o método que me levou à cura é o melhor, porque foi muito arriscado e eu quase morri várias vezes, durante os diversos procedimentos.

JS — Doar seu corpo para que outros alcancem a cura é generoso da sua parte.

TRB — Obrigado. Sim, é verdade. Mas eu tenho um pouco de "culpa do sobrevivente". O que quero dizer com isso é que eu não apenas sobrevivi ao HIV, que matou muitas pessoas — e isso me deixa muito triste —, enquanto eu estou vivo e, como se não bastasse, estou curado! Eu realmente não quero ser o único curado.

JS — Você pensa que existe alguma razão para ser o único curado?

TRB — Eu... Eu acho que sou apenas sortudo. Uma parte de mim quer acreditar que eu fui escolhido para isso, pelo fato de ser uma pessoa generosa. Mas no fundo eu não acho que isso é verdade. Acho que é por acaso que sou muito generoso e que a cura aconteceu à pessoa certa.

JS — Nas suas entrevistas aqui, antes de chegar a minha vez, escutei você dizer que é difícil ser o único curado do HIV. Por que você sente isso?

TRB — Porque existe muita pressão sobre mim. Eu andei por aí dando entrevistas como essas e acabei sentindo que precisava ser um certo tipo de pessoa. Hoje, me sinto mais livre: moro em Palm Springs e sinto que posso fazer o que eu quero fazer. No começo, eu impunha alguns limites a mim mesmo, a respeito do que eu poderia fazer, mas depois eu rejeitei esses limites.

JS — Nas entrevistas anteriores, você disse que não acreditou que estava curado de imediato, e que foi um processo acreditar na sua cura. É isso mesmo?

TRB — Sim, foi um processo. Eu não acreditei logo de cara. O Dr. Gero Hütter foi o principal médico que trabalhou no meu caso e que teve a ideia de fazer o procedimento que me levou à cura. Ele mandou um relatório do meu caso para o New England Journal of Medicine, mas o artigo foi rejeitado. Então, eu pensei que deveria haver um motivo para o artigo ter sido rejeitado. Pensei: "talvez eu não esteja curado!" Mas algum tempo depois eles finalmente aceitaram o artigo, que foi publicado.

JS — Você só acreditou na sua cura quando o artigo foi publicado?

TRB — Sim, exatamente.

JS — O que você sentiu quando percebeu que era a primeira pessoa curada do HIV, em toda a história da epidemia?

TRB — Eu fiquei feliz. E há uma certa quantidade de orgulho nisso. Porém, eu sou muito humilde e não gosto de expressar orgulho.

JS — Quando leio os comentários dos meus leitores no blog falando a respeito da possível cura, percebo que, na maioria deles, existe a sensação de que a cura os traria alívio. Você sentiu isso?

TRB — Sim. Senti uma quantidade enorme de alívio, por não ter que tomar nunca mais os medicamentos para o HIV. Você deve saber que parei de tomar os remédios no dia do meu transplante e, desde estão, nunca mais os tomei.

JS — Como é estar livre dos antirretrovirais?

TRB — É muito bom! (Sorrindo.)

JS — Você sofria com efeitos colaterais?

TRB — Eu tive alguns. Tomei Crixivan (Indinavir) e fiquei com a "Crix belly" (apelido para lipodistrofia abdominal causada pelo Crixivan) e lipoatrofia na face. Mas eu estava na Alemanha e lá eles têm um ótimo sistema de saúde: eu nunca paguei por nada. Nunca! Nem mesmo quando um cirurgião plástico retirou gordura da minha barriga e aplicou nas minhas bochechas. Foi tudo gratuito. Bastou o pedido médico indicando que era preciso fazer a cirurgia.

JS — Você disse aqui aos outros jornalistas que nunca sofreu com estigma.

TRB — Muito pouco. Berlim tem uma mente muito aberta. Na época do meu diagnóstico, eu trabalhava num café e contei para meus colegas de trabalho e para os meus chefes. Ninguém demonstrou qualquer estigma. Acho que esse é um problema mais comum nos Estados Unidos e em outro lugares.

JS — E hoje, você sofre algum tipo de estigma?

TRB — Não. Minha mãe é cristã, muito conservadora, e contou minha história para vários amigos dela. Mesmo eles têm se mostrado muito receptivos. Uma vez, fui a um encontro na igreja dela e fui muito bem recebido por todos.

JS — Será que eles acreditam que foi Deus quem te curou?

TRB — Sim. Até certo ponto, sim.

JS — Você paga algum preço pela cura?

TRB — Quero que meu corpo volte a funcionar tal como funcionava antes de tudo isso começar. Antes, eu conseguia patinar no gelo, patinar com rodinhas, até mesmo andando de costas. Hoje, se subo em cima de qualquer tipo de patins, eu caio. Mas ainda quero conseguir patinar novamente. Desde que fui curado do HIV ainda não tentei, mas também quero voltar esquiar — esse era meu esporte preferido.

JS — Além de não ter que tomar mais os antirretrovirais, quais são os benefícios de ter sido curado do HIV?

TRB — Essa é uma boa pergunta. (Pausa.) Poder ser uma voz que traz esperança às pessoas.

JS — Atualmente você toma algum tipo de medicamento diário?

TRB — Eu tenho problemas com diarreia. Então, tenho que tomar pílulas antidiarreicas.

JS — Você ainda faz algum acompanhamento médico da sua saúde?

TRB — Faço, a cada seis meses. No último exame, a contagem do meu CD4 estava em 1.200. E a carga viral, claro, nada — mesmo com os testes precisos, de menos de 20 cópias. Aliás, no que diz respeito ao tratamento como prevenção para quem tem HIV, li que abaixo de 100 cópias é considerado indetectável e, assim, é impossível de transmitir o vírus a outras pessoas.

JS — O que você pensa a respeito das novas abordagens de prevenção ao HIV, como: tratamento como prevenção (TasP), profilaxia pré-exposição (PrEP) e profilaxia pós-exposição (PEP)?

TRB — Acho muito positivo. Acho que qualquer coisa que previna mais pessoas de contrair o HIV é importante. Os números de novas infecções precisam cair. Por isso, acho importante que as pessoas façam o teste, porque muitas das novas infecções vêm de pessoas que não sabem que são soropositivas e fazem sexo desprotegido com outras pessoas. E acho que a PrEP pode certamente ser considerada como sexo seguro.

JS — Você considera o tratamento como prevenção (TasP) como sexo seguro?

TRB — Sim, definitivamente. Quisera eu saber disso no passado! As coisas teriam sido muito mais fáceis. (Suspiro.)

JS — Você se lembra do dia em que recebeu o diagnóstico positivo para o HIV?

TRB — Era um dia cheio: eu estava terminando a inscrição em um programa para poder estudar na Alemanha. Ir buscar o resultado do teste na clínica atrapalhou tudo! Em geral, eu não processo as coisas no coração, e sim na cabeça. E, mentalmente, foi difícil. Mas decidi que ia continuar a fazer o que eu estava fazendo: estudar na Alemanha, ir à universidade e seguir com a minha vida. E fiz isso, mesmo depois do parceiro que sugeriu que eu fizesse o teste de HIV — pois ele tinha testado positivo — dizer para mim: "Você sabe que temos só mais dois anos de vida, não sabe?" Quando ele disse isso, eu fiquei assustado, fiquei chocado! Mas respondi: "Ok, mas mesmo assim eu vou continuar a seguir os meus planos."

Por sorte, os inibidores de protease foram lançados em 1996, e comecei a tomá-los. Então, o número de alternativas de medicamentos antirretrovirais cresceu exponencialmente. Depois, surgiu o teste de carga viral e descobri que eu estava indetectável — eu não tinha vírus no meu sangue. Só vim a saber mais tarde que, se não estivesse indetectável, os médicos não teriam feito o procedimento que me curou e nem permitido que eu interrompesse o tratamento antirretroviral antes do transplante de medula.

Aliás, essa história é engraçada: meu parceiro àquela época, Michel, não queria que eu tomasse os antirretrovirais durante a recuperação da cirurgia. Ele achava que isso poderia prejudicar o crescimento das células-tronco no meu corpo — o que hoje eu sei que não é verdade. Mas, naquela altura, eu não sabia, e os médicos me apresentaram o protocolo que deveria ser seguido nos dias seguintes à cirurgia, e incluía manter os antirretrovirais. Então, eu disse aos médicos o que o meu parceiro pensava a respeito disso e disse a eles que eu não faria o transplante se tivesse que tomar os antirretrovirais. Isso fez com que o Dr. Hütter tivesse uma reunião emergencial com o time de médicos e, no dia seguinte, trouxe um novo protocolo, dizendo que eu poderia interromper os antirretrovirais. Ou seja: foi tudo graças ao meu parceiro, Michel. Se eu tivesse continuado com a medicação, por muito, muito tempo ninguém saberia que eu não tinha mais HIV em meu organismo. Então, provavelmente foi bom que aconteceu dessa forma.

JS — Você tem uma fundação em prol da cura do HIV. Então, presumo que você acompanhe de perto os estudos a respeito da cura. Qual você acha que é hoje a abordagem mais promissora, que vai nos trazer a cura?

TRB — Eu penso que a abordagem da Sangamo é a mais próxima da cura. Mas talvez eu esteja sendo orgulhoso, pois eles usam um método para remover o CCR5, que é a razão pela qual eu estou curado — embora ainda haja muito debate sobre o que de fato me levou à cura. Você sabia que eu sou heterozigoto para o CCR5? Isso quer dizer que ou meu pai ou minha mãe é imune ao HIV. Eu não sei qual deles, também não insisti que minha mãe fizesse o teste e nunca conheci meu pai. Mas é possível que a minha cura tenha a ver com a minha genética.

JS — Você acha podemos ter esperança quanto à cura?

TRB — Sim. Meu caso é uma prova de conceito de que o HIV pode ser curado e que vai ser curável. Espero que isso aconteça em meu tempo de vida.

2016-02-03-1454471054-1321472-Timothy_1.jpg "Eu não vou ser o único curado" — Timothy Ray Brown

 

Timothy deu então mais um pequeno gole de sua garrafa d'água, algo que fizera por diversas ao longo da entrevista — e seria natural mesmo que o fizesse, afinal, há horas ele o único que ali falava! Só comigo, foram 25 minutos. Ainda assim, esse último gole fez parecer que ele bebia água demais, mais do que uma pessoa que concedeu tanto tempo de entrevistas precisaria. No inverno úmido de Lisboa, o ar tampouco estava seco.

Era como se ele estivesse muito cansado e fosse um esforço tremendo estar ali, embora muito bem disfarçado. Dito isso, me ocorreu que o jeito de falar de Timothy, sempre pausando entre cada frase, cada raciocínio e cada palavra, algumas vezes confuso, talvez não fosse apenas sequela do intenso tratamento que o levou à cura e nem somente resultado do acidente médico que lhe deixou uma bolha de ar dentro do cérebro. Naquele momento, me pareceu que era sua saúde que estava mesmo frágil. Algo irrecuperável, como o preço da batalha que um herói experimenta, antes de retornar com a vitória.

Timothy deitou a garrafa na mesa e levantamos das poltronas — movimento que ele fez cuidadosa e lentamente —, antes de apertarmos as mãos. Mas nosso cumprimento de despedida foi interrompido pela organizadora do congresso, que, de supetão, adentrou na sala. "Ele está a dar entrevistas até agora?!", exaltou a senhora, em claro tom de preocupação. Em seguida, os dois homens de terno e gravata que a acompanhavam, vestindo crachás da organização do evento, abriram as portas para o famoso Paciente de Berlim, escoltando-o para o palco do auditório onde em breve ele faria seu discurso. No caminho, algumas últimas e breves interrupções para fotos, de pessoas ali presentes e dos repórteres retardatários. Timothy concordava, sempre com o mesmo sorriso no rosto.

Seguindo a pequena comitiva que formava-se atrás do Paciente de Berlim, fomos levados ao grande auditório, que estava todo e completamente lotado. Sentamo-nos na primeira fileira e, depois de algumas apresentações e discursos dos outros que estavam no palco, chegou a vez de Timothy Ray Brown. Fez-se silêncio. Então, ele se dirigiu ao púlpito, sacou os óculos pretos de um bolso do paletó e, doutro, tirou um papel com anotações. Antes de começar lê-lo, preveniu a plateia de que era homossexual e pediu desculpas antecipadamente, se porventura qualquer coisa que viesse a dizer pudesse a ofendê-los.

"Gostaria de dizer que é uma honra para mim estar aqui hoje, na conferência portuguesa de doenças infecciosas. Pouca gente sabe que a identificação do vírus HIV-2, publicada em 1986, foi resultado de uma estreita colaboração entre pesquisadores portugueses, daqui de Lisboa, com pesquisadores franceses do Instituto Pasteur.

Mas eu não quero reconhecer apenas o trabalho deles. Quero também reconhecer, em especial, todos aqueles que estão hoje na linha de frente da pandemia do HIV/aids.

Desde que assumi publicamente que sou o Paciente de Berlim, costumava pensar ler meu discurso, pois achava que ficaria petrificado diante da plateia, estragar tudo e me esquecer de algo importante. Depois, decidi memorizar o discurso. Contudo, hoje estou diante de outro desafio. Chama-se: 'estou tão apaixonado por Lisboa que não consigo falar!'

Esta é a segunda vez que eu tenho o prazer de visitar Lisboa. A primeira vez foi quando eu tinha 24 anos de idade. Eu era um homem gay, orgulhoso e assumido. Minha companheira de viagem conheceu um rapaz, e nossos planos de ficar aqui por apenas alguns dias se transformaram em uma semana. Ah, o amor! Então, acabei eu por também conhecer um rapaz bonitão. Eu amo Lisboa!"

O Paciente de Berlim prosseguiu contando que, em 2014, a CNN teria dito que esta é a cidade mais legal da Europa. E eu compreendi perfeitamente o que ele queria dizer: não é difícil apaixonar-se por Lisboa, tampouco encontrar pessoas caminhando por suas ruas que sentem exatamente dessa mesma forma. Cheguei a conhecer um homem que havia trocado um bom emprego em sua cidade natal para trabalhar com telemarketing na capital portuguesa — e o fez, dizia ele, por pura paixão por Lisboa.

"— Essa cidade tem esse poder, não tem?", me disse Timothy, alguns dias depois do congresso, quando brindávamos com uma cerveja, sentados num bar rebuscado de art déco, que ocupa todo um andar de um dos pequenos edifícios do bairro do Chiado. "Eu realmente amo essa cidade", repetiu ele, já sem qualquer resquício da aparência de fraqueza que tanto sobressaía no dia anterior.

É possível que seu visível cansaço não fosse nada além de puro jet lag, aquela estafa tão comum depois de voos longos, especialmente os que atravessam demasiados fusos horários. Algo que eu mesmo experimentara na primeira manhã do congresso. O fato é que, fora daquele ambiente, o Paciente de Berlim parecia muito mais bem disposto. Sua fala fluía muito mais facilmente e seu modo de andar já não parecia ser sequela de um procedimento tão dramático.

"— Mas eu gostaria de conhecer o Brasil, também. Sabe... aquele rapaz que conheci na primeira vez em que vim para Lisboa era um brasileiro, do Rio de Janeiro. Me lembro bem dele!", me confidenciou Timothy. "Mas acabamos perdendo contato. Voltei para Berlim, onde fiquei até depois do transplante. E nunca mais soube desse brasileiro."

Tim, o homem que o acompanhava desde o congresso, voltou à mesa, trazendo-nos uma segunda rodada de cervejas.

"— E vocês?", perguntei, "onde se conheceram?"

Os dois deram as mãos, e se entreolharam, carinhosamente.

"— Pela internet, num aplicativo de relacionamento chamado Scruff", respondeu Tim, que vive com HIV desde 1989. "Eu o reconheci pelas fotos. Disse que queria conhecê-lo. Então, acabamos ficando juntos."

Indaguei se Timothy era reconhecido nas ruas. Encostado no muro da parte de fora do bar, entre uma tragadela e outra de seu cigarro — e sob olhar de reprovação de seu parceiro —, o Paciente de Berlim me disse que não.

"— Por algum tempo, pensei que as pessoas estavam interessadas na minha história porque sou uma aberração, resultado de um experimento científico que funcionou. Porém, pessoas do mundo inteiro me dizem que a minha história é uma história de esperança."

"— Você fala bastante sobre esperança", disse eu, pouco antes de nos despedirmos, já depois de horas a conversar durante o jantar, na saída do restaurante para o qual fomos em sequência ao bar.

Foi quando Timothy parou por um instante. Ali, na porta do restaurante, vestiu vagarosamente seu casaco, como se refletisse profundamente sobre o que acabara de escutar. Em seguida, virou-se para mim. Tinha o olhar de alguém ávido por uma opinião sincera. Então, perguntou, sério:

"— Jovem, você acha que é falsa esperança?"

Me lembro de sentir um leve frio na espinha. Percebia ali que o próprio Paciente de Berlim, o único homem do mundo curado do HIV — e, por isso, a mais alta prova de que a cura para todos os soropositivos é uma possibilidade real —, tinha lá uma discreta dúvida. Discreta, sim, mas havia. Se não era uma dúvida, no mínimo era uma leve hesitação, suficiente para por em cheque todo meu próprio sentimento de esperança, nutrida desde o meu diagnóstico, em outubro de 2010.

Contudo, o frio que senti na espinha não aumentou, não cresceu em nada. Tampouco se transformou em medo. O que se deu foi que, naquele exato instante, me dei conta de que estava diante de um homem como qualquer outro, com seus medos e anseios, assim como todos nós. Então, a cura me pareceu ainda mais próxima. Afinal, se ela foi possível para alguém tão semelhante, tão comum e tão humano, pensei, ela certamente será possível para todos nós, em algum dia que não deve tardar. Foi com isso em mente, que respondi:

"— Não. Não acho que é falsa esperança. Acho que veremos a cura em nosso tempo de vida."

Timothy sorriu, me deu um forte abraço, um beijo na bochecha e disse:

"— Que bom! Eu acho isso também!"

De fato, a cura não vem de um único homem e, talvez exatamente por isso, o mesmo se passa com a esperança. É como se fosse preciso que a troquemos uns com os outros, espalhando-a entre as pessoas que mais precisam dela. No fim de seu discurso, ainda no palco das 10as Jornadas de Actualização em Doenças Infecciosas, Timothy não poderia ter sido mais preciso:

"Juntos, podemos transformar esperança em ação — a qual, então, vai nos levar à uma cura. Mas, temos que trabalhar em conjunto. Eu aprendi que temos uma escolha. Você tem uma escolha. E é muito inspirador saber que vocês, aqui, escolheram continuar a lutar contra esta doença, assim como no início da epidemia, mais de 30 anos atrás.

Meu nome é Timothy Ray Brown — e costumavam me chamar de o 'Paciente de Berlim'. Eu prometo a vocês aqui, hoje, que vou continuar a dedicar o meu corpo, minha mente e minha alma para encontrar uma cura para o HIV/aids. E eu não vou te decepcionar."