OPINIÃO

Tenho HIV. Não posso entrar em 15 países (MAPA)

25/02/2014 11:41 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Com um tratamento que funciona perfeitamente e uma vida que é plenamente normal, o preconceito e a discriminação acabam por ser a pior parte da vida de um soropositivo. No entanto, pela minha experiência desde o diagnóstico, posso dizer que hoje eles são pontuais. E vou tentar apontar exatamente aonde estão.

Muitos juntam discriminação e preconceito num mesmo grupo. Mas aqui eu vou separá-los, por entender que existe uma diferença sutil entre as duas definições. Segundo o dicionário, preconceito é um "conceito ou opinião formados antes de ter os conhecimentos adequados". É o famoso "pré conceito", termo autoexplicativo. É até ingênuo, pois presume que o agente teve pouca matéria-prima para emitir seu parecer mas, por alguma razão, emitiu assim mesmo. Por sua vez, discriminar é "tratar de modo preferencial, geralmente com prejuízo para uma das partes". Em certo sentido, é mais grave, pois não é preciso falhar em ter os conhecimentos adequados. Na discriminação não há ingenuidade: é possível discriminar mesmo possuindo conhecimentos que sugiram o contrário.

As razões que levam alguém a discriminar me escapam. Entretanto, é o que acontece. E é situável geograficamente. Segundo o relatório da Unaids de outubro passado, 41 países ou territórios restringem o tempo de estadia, impedem a entrada ou deportam viajantes com HIV. Fazem parte deste grupo: Austrália, Cuba, Emirados Árabes Unidos, Egito, Israel, Líbano, Nova Zelândia, Paraguai, República Dominicana, Rússia, Singapura, Síria, Taiwan e o território britânico das Ilhas Turks e Caicos, entre outros.

Isso quer dizer que todo portador do vírus, seja com o intuito de turismo ou trabalho, não pode simplesmente comprar uma passagem e arrumar as malas. Antes disso, deve verificar em sites como o HIV Restrictions ou no último mapa compilado pela Unaids (abaixo) se o seu destino é um país em que ele ou ela é bem-vindo, permitindo a sua entrada e permanência pelo tempo desejado.

A ONU classifica essas medidas segregatórias como uma violação às Diretrizes Internacionais sobre HIV/Aids e Direitos Humanos. Segundo a organização, "qualquer restrição à liberdade de movimento ou escolha de residência com base na suspeita ou real status de HIV, incluindo triagem de viajantes internacionais, é discriminatória. Nos países que envolvem testes obrigatórios e falta de confidencialidade, há também a violação dos direitos à liberdade e privacidade. Muitos migrantes não são informados que estão sendo testados para o HIV, não são informados dos resultados, se informados não são aconselhados e não são encaminhados a serviços médicos -- um impacto devastador sobre a saúde e bem-estar".

Sobre o preconceito, o primo ingênuo da discriminação, há relatos de casos graves, especialmente no começo da epidemia. Já ouvi histórias de casais soropositivos que se viram obrigados a mudar de cidade. Crianças portadoras do HIV tiveram de ser tiradas da escola. Indivíduos que vivem com HIV, ao revelarem sua condição, perderam o contato com amigos e parentes.

Entretanto, nada disso se passou comigo. Foi apenas em dois únicos e pontuais momentos que senti em minha própria pele o que poderia ser o preconceito. No primeiro, um médico dermatologista já com seus 70 anos de idade, a quem visitei a certa altura após o diagnóstico. Uma vermelhidão que irritava a minha pele foi imediatamente diagnosticada pelo doutor como decorrente do HIV, assim que contei ser soropositivo. "É do vírus", disse ele, olhando de longe, sem me examinar ou tocar. O segundo caso foi com uma jovem estudante de 24 anos, com quem saí no ano passado. Quando contei a ela sobre o HIV sua reação inicial foi de pânico, que perdurou por uma longa semana. O final não foi tão feliz, com uma carta que deixou na portaria de meu prédio, recheada de palavras chorosas de despedida.

Por me enxergar como igual, um semelhante ao médico e à jovem, eu simplesmente não entendia por que a compreensão deles era tão diferente da minha. Afinal, não há HIV na superfície da pele -- aliás, com a alta eficácia dos antirretrovirais, o vírus mal está no sangue! Além disso, com camisinha e os conhecimentos médicos que descrevi em meu primeiro post, eu sabia que poderia me relacionar amorosa e sexualmente com qualquer pessoa sem oferecer risco algum de transmissão do vírus.

Dito isso, num insight, eu compreendi o que se passava: ambos o médico e a jovem sentiam medo, que é aquele sentimento que habita nos lugares sombrios da nossa mente. Para resolvê-lo, era preciso trazer luz -- e rápido, antes que este se tornasse maior. Era preciso esclarecer as coisas. Explicar e me fazer entender, com conhecimentos sólidos a respeito da realidade do HIV e mostrando a vida normal que um soropositivo tem hoje. E foi isso o que eu fiz.

Insisti com o dermatologista que ele estava errado, explicando que seu colega infectologista já havia descartado completamente a possibilidade da vermelhidão ter sido causada pelo vírus. Afinal, minha contagem de células CD4 do sistema imunológico e meu quadro clínico descartavam completamente a possibilidade de doenças oportunistas. Vencido pelos meus argumentos, o doutor finalmente decidiu me examinar e a pomada que terminou por me receitar, contra uma dermatite típica dos meses de verão, funcionou perfeitamente! A jovem, por sua vez, entrou em contato comigo alguns meses depois. Me contou que leu, aprendeu e confirmou o que eu havia dito a ela a respeito do estudo HPTN 052, o mesmo que citei em meu primeiro post, e sobre a abrangente margem de segurança oferecida pelo uso da camisinha. Com isso, ela estava disposta a me reencontrar. (Mas não continuamos o relacionamento por motivos que devo contar num outro momento.)

Com a conclusão dessas histórias, ficou evidente para mim que existe remédio para o preconceito. E esse remédio é a informação. Do mesmo modo, para a discriminação também há tratamento. Em 2012, 40 CEOs, presidentes, executivos e diretores de empresas se uniram na defesa dos portadores de HIV em nossa luta contra as restrições segregatórias de viagem. Nessa lista, diga-se de passagem, figuram representantes de empresas que são verdadeiros pesos pesados, como: Coca-Cola, Gap, Getty Images, Heineken, Johnson & Johnson, Levi Strauss & Co., National Basketball Association (NBA), Pfizer, Thomson Reuters, Y&R e MTV International, entre outros. É tarde demais para ser pessimista.