OPINIÃO

Quem tem HIV, faz tratamento antirretroviral e tem carga viral indetectável não transmite o vírus

Novo estudo feito exclusivamente com casais homossexuais e sorodiscordantes não detectou transmissão do HIV.

10/08/2017 11:49 -03 | Atualizado 10/08/2017 11:49 -03
Getty Images/iStockphoto
Uma pessoa vivendo com HIV com uma carga viral consistente de 200 cópias/ml ou menos não trasmite o HIV.

Nenhuma transmissão do HIV foi observada entre os 343 casais de homens gays sorodiscordantes, em que o parceiro soropositivo fazia tratamento antirretroviral e tinha carga viral indetectável. O dado foi obtido pelo estudo Opposites Attract, divulgado no fim de julho na 9ª Conferência Internacional da Sociedade de Aids sobre Ciência do HIV, a IAS 2017, em Paris.

O Opposites Attract recrutou e acompanhou casais homossexuais em clínicas na Austrália, em Bangkok e no Rio de Janeiro. Os casais praticaram 16.889 atos de sexo anal sem camisinha enquanto acompanhados pelo estudo.

O estudo também não encontrou relação entre a transmissão do HIV e a presença de outra doença sexualmente transmissível (DST): 6% dos atos sexuais anais relatados foram feitos enquanto um dos parceiros tinha alguma outra DST.

Um estudo anterior semelhante, o Partner, teve o mesmo resultado com uma taxa de 17,5% dos participantes com uma DST em algum momento do estudo. A preocupação de que a presença de outra DST pudesse aumentar o risco de transmissão do HIV a partir de parceiros com carga viral indetectável vem, pelo menos, desde a Declaração Suíça, de 2008.

Outra preocupação que rondava o assunto dizia respeito ao tipo de relação sexual. Por muito tempo, o único grande estudo sobre transmissão do HIV a partir de parceiros soropositivos em tratamento antirretroviral e com carga viral indetectável foi o HPTN 052, que incluiu casais heterossexuais.

O HPTN 052 não encontrou qualquer transmissão do HIV a partir desses parceiros. Mas não era certo se seus participantes teriam praticado sexo anal desprotegido em frequência estatisticamente relevante, tal como um casal de homens gays faria.

O estudo Partner, que também não observou qualquer transmissão do HIV entre seus participantes, ajudou parcialmente a responder esta pergunta, uma vez que incluiu alguns casais gays. O Opposites Attract, por sua vez, inscreveu apenas casais de homens homossexuais e, novamente, não observou uma única transmissão do HIV.

A única pergunta que resta diz respeito à posição sexual, uma vez que o risco de transmissão do HIV é mais alto quando o parceiro soropositivo é ativo. Entretanto, o fato é que neste último estudo, isso não fez diferença: a maioria dos parceiros soropositivos foi ativa em um terço das relações sexuais relatadas.

Assim como nos estudos anteriores, o Opposites Attract também documentou transmissões do HIV. Mas a análise genética mostrou que essas infecções vinham de um parceiro fora do relacionamento principal com o parceiro inscrito no estudo e que tinha carga viral suprimida.

Segundo o mapa da aids, este resultado reforça ainda mais o slogan "Indetectável = Intransmissível", da campanha Prevention Access. Sua declaração de consenso foi assinada pelo Aidsmap e também pela International Aids Society, durante o congresso em Paris. E vem ao encontro dos mesmos resultados obtidos no estudo Partner, no HPTN 052 e do que é afirmado na Declaração Suíça, de 2008.

A campanha explica que a ciência é clara: "pessoas que vivem com o HIV podem sentir-se confiantes de que, se tomarem seus medicamentos adequadamente e tiverem carga viral indetectável, não transmitirão o vírus para seus parceiros sexuais. Indetectável = intransmissível".

A campanha acredita que esta mensagem encoraja as pessoas com HIV a começar e a permanecer em tratamento antirretroviral, a cuidar da própria saúde e evitar a transmissão do vírus. "Quanto mais as pessoas vivendo com HIV que conhecem seu status estiverem em tratamento bem-sucedido, mais saudáveis ​​serão e mais próximo chegaremos ao fim da epidemia", afirma o texto.

A campanha define uma carga viral indetectável como inferior a 40 cópias/ml de sangue. Enquanto uma carga viral abaixo de 200 cópias/ml é considerada "viralmente reprimida" e, tal como a indetectável, não pode transmitir sexualmente o HIV. Em outras palavras, segundo a campanha, uma pessoa vivendo com HIV com uma carga viral consistente de 200 cópias/ml ou menos não pode transmitir o HIV.

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