OPINIÃO

Quem são os indetectáveis?

27/11/2014 13:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Divulgação

"HIV indetectável" é a condição de todos aqueles que, um dia diagnosticados positivos para o HIV, atingiram a supressão do vírus, graças ao uso dos medicamentos antirretrovirais, o "coquetel" anti-HIV. É o meu caso e de 76% dos brasileiros que vivem com HIV e fazem uso da terapia antirretroviral; mas qualquer um que for diagnosticado positivo para o HIV pode chegar lá: basta tomar esses remédios de maneira consistente, todos os dias.

Em geral, o coquetel é composto por três remédios, mas já são combinados num único comprimido que pode ser tomado apenas uma vez ao dia, geralmente antes de dormir, e com poucas chances de causar efeitos colaterais. Os antirretrovirais atuais funcionam tão bem que a quantidade de vírus presente no sangue de quem é diagnosticado positivo para o HIV é reduzida até não poder mais ser detectada, mesmo nos exames mais precisos de laboratório. Por isso, indetectável.

Quem é HIV indetectável tem a sua "função imunológica não-comprometida, expectativa de vida normal e um risco negligenciável de transmitir sexualmente o vírus", tal como explica a organização canadense Aids Vancouver, que quer ajudar a disseminar o termo HIV indetectável, informando as pessoas sobre o que isso quer dizer. Em outras palavras: quem é indetectável não está curado do HIV, mas, enquanto mantiver o tratamento antirretroviral, tem o vírus controlado, recluso e preso dentro de algumas células do organismo, sem que se multiplique, sem que danifique o organismo e sem que seja transmissível.

A maioria das pessoas não sabe, mas quem mais ajuda a controlar a epidemia de HIV/aids no mundo são aqueles que fazem o teste de HIV, respeitando o período da janela imunológica, e, se este vier positivo, aderem ao tratamento antirretroviral, tornando-se indetectáveis.

Alcançar o indetectável é simples, mas não por isso é fácil. O primeiro grande obstáculo é superar o diagnóstico e, junto com ele, entender que, agora, é preciso tomar os remédios todos os dias, para sempre ou até que descubram a cura do HIV. O segundo obstáculo é enfrentar os possíveis efeitos colaterais desagradáveis desses remédios. Em geral, isso inclui irritações na pele, diarreia, náusea, vômito e fadiga. Um dos remédios também pode causar efeitos neuropsiquiátricos, que faz quem o tomou sentir como se tivesse fumado um gigantesco baseado de maconha - mas são se anime: isso costuma passar completamente nas primeiras semanas de uso. Aliás, com os medicamentos mais modernos, os efeitos colaterais têm se tornado cada vez mais raros. Se, mesmo assim, eles aparecerem e persistirem, é quase sempre possível trocar o coquetel, pois há uma gama de opções de tratamento anti-HIV.

O problema é que a grande maioria das pessoas um dia diagnosticadas positivas para o HIV não sabe que pode ter essa opção e, por isso, continuam em regimes de tratamento que causam enorme mal-estar. Muitas vezes, a razão disso é que elas próprias acreditam que ter HIV é assim mesmo: é para ser sofrido, afinal o imaginário associado ao vírus sustenta facilmente essa ideia! Outras vezes, quem acredita nisso são os próprios médicos que as tratam. E falo isso por experiência própria.

Meu primeiro infectologista, Dr. O., insistiu por quatro meses num coquetel de antirretrovirais que me causou dores de barriga e diarreias como eu nunca experimentara. Tive que mudar toda a minha dieta e, mesmo assim, cheguei a defecar nas calças enquanto andava na rua. Emagreci 15Kg e não foi por causa da aids, mas por pura má escolha dos medicamentos e falta de oferta de qualquer alternativa para mim. Num livro que vai ser publicado em breve, intitulado provisoriamente "Histórias da Aids", da jornalista Naiara Carmo e do infectologista Artur Timerman, uma das soropositivas entrevistadas lembra que, quando reclamou dos efeitos colaterais que sofria para sua médica, escutou:

"- Não se cuidou... agora aguenta!"

Julgamentos morais a respeito da conduta amorosa e sexual não se restringem apenas à Dani Calabresa e Marcelo Adnet. São mais comuns do que se imagina! As pessoas se esquecem que ter HIV não precisa estar associado ao sofrimento por ter falhado em usar camisinha e, ao experimentar desnecessariamente os efeitos colaterais por longos períodos, acabam interrompendo o tratamento antirretroviral, fundamental para sua própria saúde e tão importante para o controle da epidemia de HIV/aids no mundo. Com isso tudo, tornar-se indetectável é um ato heroico. Por isso, e para dar mais leveza e bom humor ao tema, a organização nova-iorquina Housing Workscomeçou agora uma campanha baseada em uma história em quadrinhos, com os super-heróis "Os Indetectáveis".

Os heróis são a Defensora Implacável, o Redutor de Danos, o Guerreiro do Gênero e o jovem Terrence Powers, recém agregado ao grupo. A missão deles é combater e acabar com a aids. Para isso, buscam a aderir consistentemente ao tratamento antirretroviral, capaz de reduzir a quantidade de vírus no sangue até o indetectável - e recrutam outras pessoas diagnosticadas positivas para fazê-lo também. Entretanto, há um terrível obstáculo: os vilões Medo, Depressão e Negação, membros da gangue do misterioso gênio do mal, Estigma.

A campanha da House Works faz parte do compromisso nova-iorquino de alcançar um estado livre da aids, já em 2020. Para isso, quer apoiar cada vez mais pessoas soropositivas na comunidade local e capacitá-las a perceber os benefícios da terapia antirretroviral. Enquanto aqui no Brasil a gente tem o Bolsa Família, lá existe o "Bolsa Indetectável". É isso mesmo: a organização inclui prêmios no valor de 100 dólares a cada exame trimestral para quem atingir o indetectável.

"Queríamos criar uma campanha encorajadora, atraente, divertida e muito diferente dos materiais de divulgação de cuidados de saúde convencionais, especialmente aqueles relacionados ao HIV/aids. Queríamos falar sobre HIV e supressão viral a partir de um ângulo positivo, mudando de 'vítima' para 'herói'. Se você é soropositivo, mas se tornar e permanecer indetectável, você tem um papel fundamental em acabar com a epidemia. Não é fácil, você tem que superar inúmeros desafios. É realmente um esforço heroico", disse Michael Clarke, diretor criativo da campanha.

Evidentemente, para aumentar a quantidade de pessoas indetectáveis é preciso, primeiro, incentivar o aumento do número de testes. Em São Francisco, o aumento de testes realizados já mostrou resultados: novos casos de incidência de HIV caíram de 18% para menos de 5%, entre 2004 e 2011. O Reino Unido resolveu seguir esse mesmo exemplo e, agora, 76% de seus soropositivos já foram diagnosticados, dos quais, 90% estão em tratamento antirretroviral e, graças à enorme eficácia desses medicamentos, 90% deles são agora indetectáveis. Isso é próximo da meta "90 90 90", proposta pela Unaids, que diz respeito ao objetivo de diagnosticar pelo menos 90% dos soropositivos, colocar 90% deles em tratamento antirretroviral e atingir supressão viral, até o indetectável, em 90% deles.

Uma das coisas que ajudou a aumentar o número de testes em Londres foi o uso de igrejas como centros de testagem. O Reverendo Fred Annin, CEO da Actionplus Foundation, quer, inclusive, que a igreja lidere a luta contra o HIV. Segundo ele, "a Bíblia não condena as pessoas com HIV como amaldiçoadas. E não deve ser um tabu discutir o assunto em igrejas: trata-se de uma condição médica e as pessoas precisam de ajuda médica. A oração não pode trazer de volta a nossa saúde quando ignoramos a medicina. Precisamos ensinar ao nosso povo a verdade!" Em uma entrevista à BBC no ano passado, Annin criticou o programa televisivo Miracle Hour, transmitido pela Faith World TV, durante o qual um pastor rezava por aqueles que telefonavam e os declarava "livres" de doenças como diabetes e câncer. Qualquer semelhança com a televisão brasileira é pura coincidência.

O Brasil tem acompanhado a política de maior testagem e tem levado testes de HIV para fora das clínicas médicas, em organizações comunitárias. Em breve, o teste oral de HIV, aquele mesmo da série "Viral" do Porta dos Fundos, que detecta os anticorpos contra o vírus presentes na saliva, estará disponível nas farmácias de todo o País. Com isso, até o final do ano, acredita-se que mais 85 mil brasileiros diagnosticados positivos para o HIV terão aderido ao tratamento antirretroviral. Quem seguir o tratamento corretamente, em pouco tempo será HIV indetectável, fazendo assim a sua parte em controlar a epidemia de HIV/aids no mundo.

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