OPINIÃO

'Freddie Mercury amava a vida. Ele viveu em plenitude'

15/02/2016 19:18 -02 | Atualizado 24/11/2017 11:05 -02

Foi em 13 de julho de 1985 que Freddie Mercury e os demais integrantes do Queen; o guitarrista Brian May, o baterista Roger Taylor e o baixista John Deacon — subiram no palco do Wembley Stadium, em Londres.

Um público de 72 mil pessoas cantou junto com o vocalista todas as músicas da banda "como se tivessem esperado o dia todo por isso", escreveu Mikal Gilmore para a revista Rolling Stone.

"Queen começou e terminou com Freddie Mercury. Ele encarnou a identidade da banda, seus triunfos e fracassos. E era a psique, com cuja perda a banda não poderia sobreviver", afirmou Gilmore.

Em 5 de setembro de 2017, Freddie faria 69 anos — não tivesse sido levado pela aids, em 24 de novembro de 1991, vítima de pneumonia decorrente da doença.

Na noite em que Freddie morreu, o músico e amigo Dave Clarke estava ao seu lado, fazendo vigília na cabeceira da cama, logo depois de Mary Austin, ex-namorada de Freddie e sua amiga mais próxima. Também estavam na casa Joe Fanelli, seu amigo, Peter Freestone, seu assistente, e Jim Hutton, seu parceiro. Para o jornal britânico Daily Mail, em 26 de novembro de 1991, Clarke contou que Freddie "apenas adormeceu".

"Deixamos Freddie o mais confortável que podíamos", disse Clarke, numa entrevista concedida em 2011.

"Seu quarto tinha uma sala adjacente e uma vista para seu belo jardim. Ele se sentia grato por tudo e por seus amigos." Clarke e Mercury eram amigos desde que se conheceram, em 1976, depois de um show do Queen no Hyde Park, em Londres.

"Freddie me confidenciou muita coisa. Quando ele foi diagnosticado, apenas um punhado de pessoas sabiam. No começo, nem mesmo a banda sabia. Sua família não sabia" — o que não impedia os tabloides de especular, na medida em que sua aparência começou a ser abatida pela aids.

The Miracle, o 13º álbum do Queen, foi concluído no início de 1989 e o vocalista queria começar a gravar outro disco de imediato — mas, para isso, era preciso justificar aos seus colegas de banda o porquê de tanta pressa.

"Ele apenas nos convidou até a sua casa para uma reunião", contou o baterista, Roger Taylor. Freddie então disse a seus companheiros de banda: "Vocês provavelmente sabem qual é o meu problema. Bem, é isso. Eu não quero que isso faça qualquer diferença. Eu não quero que as pessoas saibam disso. Eu não quero falar sobre isso. Eu só quero trabalhar até cair. E eu gostaria que vocês me apoiassem."

Brian May conta que essa foi a única conversa que tiveram sobre o tema. E que todos ficaram ao lado de Freddie, respeitando o seu sigilo: "Mentimos descaradamente para proteger sua privacidade."

A banda se deu conta que estava diante de seu último projeto. "Fomos muito conscientes em direção ao fim", disse Brian. "Por incrível que pareça, havia montes de alegria. Freddie estava com dor, mas dentro do estúdio havia uma espécie de proteção e ele conseguia ser feliz e desfrutar daquilo que gostava e fazia de melhor. Quando não conseguia mais ficar em pé, ele se apoiava contra uma mesa, tomava vodka e dizia: 'Eu vou cantar até sangrar!'", conta Brian. "Às vezes, Freddie não era capaz de vocalizar [o que ele queria dizer], e acho que Roger e eu meio que vocalizávamos por ele, escrevendo algumas das letras. Afinal, ele estava quase além do ponto de conseguir colocar seus pensamentos em palavras. Músicas como 'The Show Must Go On', no meu caso, e 'Days of Our Lives', no caso de Roger, foram presentes que demos para Freddie."

Nessa altura, a gravadora Hollywood Recordspropôs um videoclipe. Freddie entrou Limestone Studios em 30 de maio de 1991 — a última vez em que esteve na frente de uma câmera.

Depois de Innuendo, Freddie ainda queria continuar a gravar e, se possível, terminar mais um álbum. "Freddie me disse: 'Escreva para mim... Continue me mandando letras. Eu vou cantar'", recorda Brian.

Essa gravações foram lançadas em 1995, no disco Made in Heaven. "Ele continuou porque era isso o que gostava", conta Mary Austin. "Trabalhar o ajudava a ter coragem para enfrentar a doença." Jim Hutton, parceiro de Freddie que esteve com ele no final de sua vida, concordou: "Sem a música, ele não teria sobrevivido."

Foi em setembro de 1991, depois de ter gravado o quanto podia, que Freddie Mercury se resguardou em sua casa em Kensington, no distrito do oeste de Londres.

Segundo Peter Freestone, ele continuou cauteloso com relação a seus pais e não contou para eles sobre a sua sorologia positiva. "Ele queria protegê-los de coisas que eles não entenderiam ou não aceitariam." Anos mais tarde, no entanto, sua mãe revelou: "Ele não queria nos machucar, mas nós sabíamos o tempo todo."

"Freddie tentou de tudo. Ele recebia novos medicamentos especiais, transportados dos Estados Unidos pelo avião [supersônico] Concorde", contou Clarke. "No fim, quando percebeu que não havia mais alegria, ele decidiu suspender os medicamentos."

Nos últimos dias, já com crises de cegueira, Freddie virou as costas para a maioria das pessoas que queriam visitá-lo. Não queria que vissem a maneira como seu corpo havia se degenerado.

Freddie só revelou publicamente sua sorologia positiva um dia antes de morrer, na tarde de 24 de novembro de 1991, quando emitiu uma declaração admitindo sua condição:

"Seguindo as tantas conjecturas da imprensa, gostaria de confirmar que eu testei positivo para o HIV e tenho aids. Senti que era correto manter essas informações privadas, a fim de proteger a privacidade das pessoas à minha volta. No entanto, chegou a hora de meus amigos e fãs ao redor do mundo conhecerem a verdade. Espero que todos se juntem a mim, meus médicos e a todos aqueles de todo o mundo na luta contra esta terrível doença."

Os amigos próximos disseram que o cantor parecia mais tranquilo depois de sua confissão. Na noite seguinte, Freddie se foi, aos 45 anos de idade.

"Freddie amava a vida. Ele viveu em plenitude", contou Clarke, que acredita que, se Freddie tivesse resistido por mais doze meses, provavelmente teria sobrevivido, graças ao advento da Zalcitabina (ddC), em 1992, o terceiro fármaco aprovado para o tratamento contra o HIV, depois da Didanosina (ddI) e da Zidovudina (AZT).

"Sempre acreditávamos que haveria uma cura, que ficaríamos bem. Precisava ser assim: tínhamos que manter o pensamento positivo." Ao Daily Mail, Clarke também disse acreditar que a próxima geração é a geração que vai vencer o vírus.

"Freddie era maior que a vida. Era muito gentil e carinhoso. Sinto realmente muita falta do seu entusiasmo. Ele tinha um incrível senso de humor e sempre me fazia rir. Ele não levava a vida tão a sério e levantava seu ânimo. Ele queria viver. Se estivesse por perto ainda hoje, eu tenho certeza que ele estaria se cuidando. Freddie era muito orgulhoso. Adorava correr riscos — o que é minha filosofia também. Seu legado vai continuar para sempre. Suas canções e suas gravações são atemporais. Ele era um criador, um revolucionário extraordinário. Ele teria continuado. O que o motivava era a sua obra. Freddie sentia muita dor, mas nunca reclamou uma única vez. Não fazia drama. Não estava triste. Foi muito corajoso. E poderia ter dado ainda muito mais para para o mundo."

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